Tuesday, February 21, 2006

Café com creme e croissant de manteiga

Não tenho certeza de quando comecei a amá-la. Mesmo antes de conhecê-la já a tinha em um amor único dentro de mim. Era como se eu mesmo não existisse antes de descobrir que a amava, como se não me pudesse considerar um ser. E tudo há de se ter uma definição clara, uma idéia de existência, de ser. Amar Hélène era minha idéia de ser, um fim em si, não um meio. Eu tinha uma certeza em si, uma certeza de que havia um motivo para sobreviver e viver.

Eu a vi uma única vez: usava de um vestido curto de verão que acompanhava o balançar de seus cabelos ao sabor do vento. Azul. Eu me sentava de costas em direção ao Sena e ela a poucos metros de meu campo de visão. Senti-me atraído pelos seus olhos vítreos, verdes e penetrantes como esmeraldas. Ao atendente ela pediu um café com creme e croissant de manteiga. Sua voz doce com um sotaque peculiar recordou-me dos carnavais em Marseille e da beleza das ruas. Não sabia seu nome, mas, imediatamente, como em um retorno à Troie, a imaginei Hélène. O sol nunca me havia aquecido tanto e a Champs-Elysée ao fundo nunca demonstrou tamanho fulgor: Hélène tinha luz. Senti-me ofuscado e, por um instante, percebi-me pequeno com meu charuto e a edição do Le Monde do dia anterior. Foi naquele instante, em uma manhã junina, clara pelo seu jeito infantil de receber o pequeno pão solicitado, que eu percebi amá-la e sabia que a amaria até o resto de meus dias.

Estava atrasado, mas não pude me levantar. Queria me esquecer de pegar TGV e do retorno à vida que levava no escritório, às piadas dos amigos e às incertezas de que o dia seria o suficiente a tudo que havia de fazer. Depois retornaria ao apartamento vazio, cuidaria de meu peixe e colocaria meu gato para dormir. Fui arrebatado de volta à realidade com o toque insistente de meu telefone. Não atendi. Olhei para o relógio e percebi que era hora de partir. Olhei uma vez mais a figura de Hélène. Ela repousou sua xícara e levantou os olhos.

De repente vejo uma garota que se aproximou com um olhar triste. Senti-me tomado por uma força maior e me comovi com a indigente: vi seus delicados pés marcados pela miséria e senti o cheiro de seu abandono. Ela tinha a pele coberta por uma fina camada de poeira, daquela das periferias de Paris onde os migrantes se perdem. Por um minuto meus olhos encheram-se de uma angústia acre. Um minuto que durou a eternidade, pois me veio à lembrança quando me aportei no cais vindo da Sicilia, das viajantes que tinham seus filhos nos braços e a esperança nos olhos. As tropas vivas de gente que se misturavam entre línguas irmãs e desconhecidas. Sentia-me perdido, desconhecido. Abraçado à minha mãe com um choro tímido de medo. E agora reconhecia-me a mim mesmo naquela pequena pobre que se aproximava de Hélène: via-me como o mesmo menino assustado, perdido diante da esperança com o sol quente a me ofuscar a vista!

Hélène a deixou aproximar-se e tomou-lhe as mãos. Pediu que se sentasse, e ordenou que lhe servissem o que comer. A criança debruçou-se sobre o seu ombro e se deixou chorar. Hélène a envolveu em um abraço e vi em seus olhos a própria felicidade. A garota alimentou-se fartamente e, agradecida, partiu. Eu sabia que a essa altura já havia perdido o TGV e não chegaria a tempo ao escritório. Não me importei. Estava deveras emocionado com Hélène e comovido com seu gesto. Amei-a ainda mais, mesmo sem conhecê-la.

Levantei-me disposto a abordá-la, já que fazia menção de retirar-se após acertado a comanda. Sentia em meu âmago um misto sabor de Troie e a Sicilia de minha mãe pareceu-me próxima. Fechei o Le Monde abandonado em minha mesa, apaguei o resto de charuto e dirigi-me, hesitante, em sua direção. Não sabia o que lhe dizer, senão que simplesmente a amava. A alguns passos parei. A cena que vi nunca mais saiu de minha retina: ela se levantou tímida e logo uma doce voz a chamou pelo nome. Uma canção feminina, sutil e de longos cachos dourados se aproximou de minha Hélène. Ela lhe tocou os lábios com intimidade e com ternura a envolveu em um abraço. Parei estático. Voltei e apanhei meu Le Monde: ainda pegaria o TGV para retornar à minha vida, ao meu trabalho, ao meu peixe e ao meu gato. Nos lábios um sabor estranho de café com creme e croissant de manteiga... ainda amaria Hélène!

Tuesday, February 14, 2006

Almoço

Encontraram-se em um café. Mal se reconheceram, pois há tempos não se viam. Não sabiam ao certo o porquê do encontro, apenas lá estavam. Sem máscaras. Sem desculpas pelo tempo ou horário. Não quiseram uma mesa, sairiam para um almoço. Era tempo de almoço. Acharam um local afastado onde não seriam reconhecidos. Temiam serem reconhecidos. E é assim que deveria ser: no anonimato do dia, entre a multidão sem rosto que caminhava no mesmo espaço físico.

Não pronunciariam seus nomes. Encontraram a cantina. Pararam. Entraram e pediram por uma mesa afastada, tranqüila e longe de suspeitas. Não deveriam ter consciência de quem eram. Tudo que envolvesse consciência ou razão daria fim ao encanto. Ao encontro. Pediram por massas, carne vermelha e sucos tropicais. Ainda tinham a mesma afinidade. Discutiram sobre amenidades, novelas, filmes e filhos. Falavam de forma comum e transigente. Como indigentes, como adúlteros!

Aos poucos as pessoas se aproximavam para compartilharem seus almoços. Aos poucos a casa se tornou cheia, com filas e pratos que se transbordavam de comida. Nem todos eram educados o suficiente para manejar os talheres sem aquele barulho ou para ao menos evitar que os pratos se parecessem com troféus de final de dia. Evitavam os olhares. Sentiam-se culpados. Todo aquele presente os remetia ao passado, onde palavras e sentimentos recolhiam-se sem precedentes. Não haveria precedentes pois tudo acontecia naquele momento. Retornavam ao que tinham. Ao que eram e representavam. Às máculas. Às mágoas. Às intermináveis discussões e promessas de mudança. E os pratos barulhentos. As mastigadas de boca aberta. As garfadas que transbordavam...

Já não tinham a mesma serenidade. Perdiam as máscaras a medida em que se saciavam. Seus olhos retomavam o rancor. Não, não eram perfeitos. Não tinham de ser perfeitos. Os humanos, quando juntos, descobrem que não são perfeitos! O encontro era um erro. Deveriam ter feito a despedida no café. Os cabelos dela estavam mais curtos e seus olhos menos tristes. As mãos dele estavam geladas. Deveriam partir... mas as massas, a multidão, os talheres...

Levantaram-se e ganharam a rua. Não tinham a mesma intimidade, aliás, perceberam que nunca houve intimidade. Não se conheciam, mas se descobriam e agora, finalmente, se reconheciam. Eram anônimos sem saber. Moravam na mesma casa. Tinham o mesmo casamento. Eram a chacota dos vizinhos: adúlteros de si mesmos. Fingiam sob o mesmo teto e encontravam-se tomados pelos instintos mais ínfimos e plenos. Como se fossem estranhos. Estranhos na culpa, nos odores das ruas. Caminhavam mudos emudecidos por um desejo confuso. Não olhavam os carros ou fumaça dos carros. Nem os mendigos que suplicavam por míseras moedas ou as crianças que cheiravam cola. Pararam sobre o viaduto e se olharam uma vez mais. Seria o fim. Precisavam voltar. Ainda que fosse para a mesma casa sem que soubessem.

O encontro não deveria ter ocorrido. As emoções que foram despertadas. Um para cada lado. Pararam. Viraram e se olharam. Separados apenas alguns metros. Apenas alguns anos. Apenas algumas mentiras e desculpas esfarrapadas. Lembravam-se dos filhos dos outros e de seus próprios filhos. Caminharam mais alguns passos e novamente olharam para trás. O almoço... o mendigo... a cola... Deveriam voltar: aos seus lares e às suas vidas. Aos seus filhos. Às suas novelas e vizinhos. Hesitam e retornam: ficam juntos um ao outro e bem próximos não iriam mais dizer uma palavra sequer. Juntos. Deram-se as mãos e foram passo a passo... o hotel estava próximo e não precisariam de palavras. A praça a luz do dia. A multidão sem rosto na ponte... se conheceriam, enfim. Ou mesmo se amariam, enfim!

Wednesday, February 08, 2006

Vaga Lume - Parte I

Lucius estava a vagar pela noite e observava a compenetração entre o sagrado e o profano: pessoas que se drogavam em frenesi e prostitutas se ofereciam por dez reais. Sentiu-se amargo quando ouviu, ao longe, tiros e arruaças. Os prédios ostentavam a estupidez da sociedade falocêntrica, justapostos, formando uma selva impregnada pelas vibrações de tristeza e dor. Sabia que estava sozinho na busca pelo nada...

Ajustou-se mais dentro da jaqueta. Ao levantar a gola para proteger o pescoço, sentiu o frio bater em seu rosto congelando-o até as entranhas. O odor fétido das poças de lama o engasgava em seu desespero, sua imaginação formava grandes monstros que o perseguiam e bradavam ferozmente em seu íntimo. Sentiu desejo de beber algo qualquer que vomitaria no dia seguinte. Sentiu asco de si mesmo ao perceber o quanto ainda estaria alheio às suas próprias angústias, à sua fome de dias ou meses sem a mínima expectativa de sanativo. Continuou a caminhar na busca de um destino.

Lucius caminhava sem rumo, procurava um meio de descarregar o seu ódio e isentar-se da culpa de ser a peste: sua existência era sua sentença de morte. Tropeçou. Caiu de boca no chão rijo e quase quebrou o resto de seus dentes, sentiu o cheiro da urina dos ratos e o gosto de fezes dos mendigos perdidos. Levantou-se. Seus olhos na face negra ficaram maiores enquanto esbravejava algum palavrão que traria no eco de retorno a briga do casal no prédio à sua esquerda. Parou. Lembrou-se de algo semelhante. Partiu, não se importava.

Estacionou-se, de repente, diante de um bar e reconheceu o ambiente: as mesmas luzes coloridas, as mesmas caras e as mesmas músicas. Entrou. Cumprimentou laconicamente o porteiro e pôs-se logo a procurar por uma presa fácil, precisaria de dinheiro para a corrida até em casa. Pediu uma vodka ao perceber na mesa à sua frente uma branquela a fumar. Exibiu-se. A branquela retribuiu. Cumprimentaram-se estabelecendo o contato dos anjos camaradas: tornaram-se os próprios anjos. Dançaram ao mesmo tempo em que pequenas luzes os iluminavam na pista, pequenos vaga-lumes pelo salão para ostentarem a liberdade de demônios no inferno...

A noite tornava-se cada vez mais densa. Pequeninas luzes cederam lugar à penumbra; não mais jazz ou blues. Agora, somente espasmos contidos e gritos fingidos de um prazer banal. A solidão daria lugar à fantasia, ao efêmero e ao intenso; ao ócio de dias inteiros envolvidos em viagens inócuas ao inconsciente desconhecido; ao consciente nunca encontrado e à consciência perdida em uma infância incerta.

A cidade sobreviveria: sirenes de polícia, badernas, prostitutas de dez reais e crianças pelas ruas. Chovia. Lucius voltaria a caminhar pelas ruas, em busca do mesmo interesse angelical, na procura de maior luz que os vaga-lumes para tirar a tinta de sua angústia, na procura de si mesmo e de sua humanidade, pela noite, pelo nada...


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btw, hoje saiu o resultado da USP... passei!!!!!