Tuesday, March 21, 2006

A Cabrita Inês

Era Chico. Simples assim: Seu Chico. Um senhor de baixa estatura, gordinho e sorridente que morava pelos arredores da São João com seu amigo Osvaldo. Eram muito conhecidos pelos arredores, pelo jogo do bicho que traziam como distração ou pelas histórias da época em que foram arrolados na Guerra do Paraguai. Osvaldo era mais alto, sisudo com seu bigode e cabeleiras cinza. Sempre dizia de sua família no Paraná, para onde voltaria se conseguisse a sorte grande na milhar. Um dia desses ainda acertaria e mudaria seu destino. A cidade era pacata, aconchegante e sem muitas emoções em seu cotidiano. Embora com o nome de Brisas Suaves em Tupi Guarani, eram as altas temperaturas do verão que a caracterizavam.

O fato acontecera há cerca de dois anos, em meados de setembro. Tudo começou com um pagamento inusitado que Seu Osvaldo recebera por ter acertado na milhar da federal: uma pequena cabrita. Não é preciso dizer o quanto isso o deixou louco, já que sonhava com o dinheiro que lhe devolveria ao Paraná. Entrou em casa frustrado, quase a afastar os que lá foram para receber a benzedura de Seu Chico. Resmungou durante horas, irritado com a situação e sem saber o que fazer com uma filhote de cabra na cidade. Seu Chico tentou animá-lo, disse que poderiam vendê-la em Boa Vista dos Andradas ou simplesmente tomar-lhe conta já que ainda não tinham filhos. Com muito custo, resolveram por criá-la: deram-lhe o nome de Inês!

Inês cresceu saudável e corria pela casa como um ser humano. Era dócil, mansa e muito amiga das crianças que iam ao Seu Chico, levadas pelas mães para eliminar quebrantes e vento virado. Quase não a viam como um animal, tamanho envolvimento tinham pelos seus “bééés” que enchiam toda casa de vida. Seu Osvaldo mudou-se para o quarto da frente, junto com Seu Chico, e deixaram o quartinho dos fundos para cabra. Davam-lhe arroz, batatas e algumas outras verduras ricas em cálcio: diziam que era para que seu leite fosse bom e os ovos fartos. Um dia sozinho em casa, perdido em seus pensamentos e a fumaça de seu cachimbo, eis que Seu Chico escuta Inês reclamar de alguma coisa. Não, não era um festival de “bééés” que se fizeram ouvidos, mas alaridos altos de palavras em um português claro! O velho quase morreu de susto e mal Osvaldo adentrou pelo portão já gritou ao amigo que a cabra era abençoada por Oxossi.

Invadidos por uma alegria sem igual, foram ao quarto de Inês e a encontraram em um canto, olhando a ambos com um sorriso irônico de quem se diverte com a ignorância alheia. Do sorriso a gargalhada, a cabra se expunha em idéias de alto nível e teorias sobre o que nunca ouviram falar. Abobados pelo transe das palavras, imaginavam o quanto poderiam ganhar com a maravilha quando, de repente, Inês pára e se recolhe aos “bééés” que estavam acostumados: alguém batera na porta da frente. A cabrita não falaria com estranhos!

Durante um tempo imaginaram o que fazer com Inês; talvez fosse finalmente o caminho para que seus dias de penúria ficassem no passado e a vida valesse alguma coisa. Mas a cabra não falava com estranhos. Pensavam em registrar a conversa em um gravador de mão, mas temiam que fossem desacreditados. E a cabra falava sobre tudo, contava sobre todos e sabia sobre a vida de quem quer que morasse no vilarejo. De certa forma os dias passaram a ser agitados, pois quando não havia filas às benzeduras de Seu Chico, esgotavam o tempo com as histórias mais engraçadas sobre a população. Divertiam em segredo, já que talvez ninguém nunca acreditasse que Inês de fato conversasse com eles.

Mas a lua de mel encerrara-se em alguns meses: não tinha sentido de continuar. De repente a cabra deixou de ser um animal para tomar parte da família. Ela deixou de ser cabra, deixou de ter um sentido claro para existir. Não produzia o leite e seus ovos eram poucos. Apesar das opiniões e observações, a cabra tornou-se um animal inútil e improdutivo. Chico e Osvaldo hesitaram e temeram ser uma ofensa a Oxossi. Blasfemariam em achá-la inútil? Talvez nunca mais acertassem uma milhar no jogo do bicho! De certa forma amavam Inês, mas não conseguiriam manter a situação de um animal falante e improdutivo. Pensaram em uma saída e a única que encontraram foi sacrificar Inês para comerem de sua carne no natal.

Simplesmente Ordinário

Risível: era assim que classificaria Bernardo! Ele estava distante, cheio de uma soberba que lhe era própria e em busca de uma simplicidade que nunca existiu. Ele estava só, mas acreditava que em paz. Na verdade, ele era portador de uma civilidade cínica e contumaz!

Retirou sua capa e resolveu caminhar. Desceu. Lembrou-se do tempo em que nada sabia e assim poderia imiscuir-se à multidão de forma negligente, como parte dela. Hoje, com seus 20 anos, mesmo que seus olhos revelassem o turbilhão de seus pensamentos, os seus gestos denotavam que não pertenceria à massa. E sabia disso!

Entrou em um canto qualquer e em poucos minutos, avidamente, encontrou-se com uma boca para lhe injetar suas pérfidas sensações de distância e solidão. No escuro e ao som de uma música qualquer, exaltou Eros e entregou-se à luxúria. Por um momento, esqueceu-se de seu nome para, em euforia, despir-se dos conceitos de classe e entregar-se ao comum.

Ao final da dança, perguntou-lhe o nome e a convidou para um refrigerante barato, ali mesmo na boate. Ela se revelou através de um apelido estranho, o que lhe fez pensar que seu nome seria Antonia. Ela lhe contou sobre sua infância pobre em Recife e, ao pedir um guaraná no balcão, ela lhe confessou ser ainda feliz. Trouxera em sua bolsa alguns amendoins que vieram dos trens, comeu-os com o guaraná que comprara e deixou-se rir para que ele contemplasse seus dentes que não eram belos. Ela, Antonia, gostava de coisas simples como a gente com quem convivia naquele espaço.

Saíram. Procuraram por um bar onde teriam um pouco mais de silêncio. Sentaram-se novamente. Ela se calou e o incumbiu de pedir algo para ambos. Bernardo quis pizza, mas a garçonete, pouco habituada à educação que ele exalara, não lhe trouxe. Tomou um suco e ela, Antonia, sorria ao lhe dizer que adorava seu trabalho de faxineira, embora sonhasse em ser jornalista... Quando questionada sobre o que lia, ela, orgulhosa, respondera que era uma grande conhecedora de horóscopo e muito já havia aprendido sobre as palavras... Ele se calou!

Por um momento ele teve dúvidas sobre quem era e o que tinha pela frente. Questionou sua própria ambição, seu crescimento e tudo o quanto vivia. Questionou seu destino e por onde andaria quando o encontrasse. Questionou, sobretudo, o que fazia com Antonia! Levantaram-se ambos, após um tempo ou dois, a partir. Ela o censurava, ao dizer-lhe que não deveria ambicionar tanto da vida. Dizia que a alegria era o agora, sem se entristecer pelo que não tem...

Talvez Bernardo aprenda muito com Antonia. Talvez ele a leve ao teatro ou lhe ensine como manejar os talheres ao comer. Talvez ainda se deixe envolver e seja simplesmente ordinário, ao perder essa arrogância que faz dele um ser pensante! Não seria essa noite, todavia. Bernardo voltaria sua andança e retornaria, em sua civilidade cínica e contumaz!

Kajal e Tertúlia

Não é tão simples assim me lembrar de Mariana. Dentro de mim ainda paira a força de seu olhar, a saudade de como éramos quando juntos e de tudo o que vivíamos em nosso esforço diário para sermos apenas comuns. Nunca fomos e por isso tudo era contra nós. Hoje quando passo de ônibus pela Avenida da Saudade, vejo ainda o velho cemitério onde a encontrei em êxtase em uma noite de lua cheia, completamente ensandecida e correndo pelos túmulos. Eu vi aquele vulto branco pular sobre as lápides frias e rir descaradamente como se possuída por uma força maior, uma força que lhe arrebatava o senso e a razão para lhe despejar felicidade... nua e totalmente molhada pela chuva, Mariana tinha os olhos muito abertos, cheios de um sentimento que anos depois saberia vir das drogas que usava para ficar lúcida. Sua lucidez era uma grande ironia, o que todos chamavam loucura.

O ônibus continua seu trajeto e vira próximo ao asilo Vicente de Paula, a continuar seu percurso em direção ao bairro Matarazzo. Em alguns minutos estarei em casa e minha esposa me saudará com um beijo, me perguntará sobre o dia e comeremos algo que ela fez durante a tarde após ter aprendido no programa de culinária. Não sei ainda se amo minha mulher ou se me acostumei com ela. Acho que me acostumei com sua presença quase imperceptível, seu andar sutil e seu jeito doce de me implorar por amor. Nesse momento ela me faz odiar a mim mesmo por meus pensamentos irem até Mariana: a louca que mordia meus lábios e me exigia sobre ela como prova de minha animalidade. Ao lado dela me sentia vivo, me sentia humano e profano. Ao seu lado tornei-me notívago e fui invadido pela mesma alegria que fluía por seus poros, quando éramos inseparáveis pelo nosso desejo de viver em intensidade. E vivíamos, sobretudo.

Desço no ponto próximo a antiga Algodoeira e logo avisto minha esposa ao portão. Ela sorri displicentemente e meus dois pequenos correm ao meu encontro, agitados e embalados pela inocência da infância. Uma inocência bela de quem ignora a maldade ou mundo... simplesmente inocência! Eles se entrelaçam em mim e caminhamos sorridentes a saudar os vizinhos e a ouvir com atropelos das histórias da escola, das frutas roubadas ou dos doces que puderam ser consumidos antes de jantar. Ao chegar ao portão minha esposa ri e diz para que se lavem para jantar. Beija-me suavemente nos lábios, diz algo de rotina e me avisa sobre uma carta que chegou de Santos com um nome estranho que não conseguiu entender. Na hora fico pálido e minhas pernas tremem fora do meu controle. À mente apenas um nome passou a me ocupar os pensamentos... não poderia ser! Após dez anos na obscuridade. Sem notícias. Sem... eu sabia que ainda... Mariana!

Disfarço, pego o envelope e saio na desculpa de me trocar para jantar. A mesma caligrafia e o mesmo código no remetente. Seco. Um envelope pardo, escuro, sem capricho. Ela sempre odiou ser comum, embora buscasse isso a todo momento. Odiava as aparências. Odiava ser percebida. No primeiro jantar que fizemos juntos, quando ela abaixou os olhos por um momento, eu tive a certeza de que a amaria até o final dos dias. Ela era intensa, reconhecia em mim o que em mim eu mesmo não encontrava. Com ela eu era apenas homem, não marido, pai, membro de associação. Era apenas um homem que amava uma mulher e estava com ela!

Sua carta era simples e breve: “vou para Madrid com nosso filho, preciso que assine o documento e me devolva o quanto antes!”. Sem emoções. Sem aquela tertúlia de que partilhávamos nas tardes, nas manhãs em que às margens do São José fumávamos baseado e prometíamos sermos eternos. Ali, em uma única linha, todo o passado tornava-se passado, uma página que não mais estaria na memória. Mariana... como um sonho adolescente deixado para trás! Mesmo o filho que carregava meu nome perdia-se naquela distância... Não mais seus lábios enegrecidos por kajal, não mais as idas ao bosque ou os poemas soturnos de que partilhávamos. Uma folha de papel, apenas!

Assinei. Fechei o envelope e sequei um resto de suor que me descia pelo rosto. Troquei minhas roupas e desci para jantar com minha família, embora em mim, ainda, sempre haveria o toque... Mariana!

Wednesday, March 01, 2006

A alegria camarada...

Deixou-se embalar na melodia. Talvez pudesse reconhecer mais rostos se a fumaça se dissipasse. Veria os cúmplices da noite, velhos e novos conhecidos. Abraçaria a todos os que estavam presentes com certo desejo, disfarçando, ao máximo, o que todos conheciam... E tudo era permitido naquela noite, a população da outra margem se cegaria em busca da alegria que envolve os camaradas... todos os camaradas!

Alguém se lembraria de beber algo. Ele se lembrou de procurar por alguém especial. Mas estava sozinho. A banda continuava embalando os foliões. Corpos sem rostos que se despiam de todos os pudores em busca do contato efêmero. A banda. Ele se perdeu na multidão. Misturou-se àqueles que o condenavam. Era o Outro. Apenas o Outro.

Riu mostrando seus dentes brancos e fez uma cara patética, ao acompanhar alguém que lhe envolvia a cintura. Já pertencia àquela festa. Já era ele a própria festa... e as dores... e os medos... e parte dos foliões que se procuravam... a alegria... a intrigante e desconhecida - porém sempre vivida - alegria camarada!

Alguns sucessos antigos envolveram o salão. Uns cantavam, pulavam ou olhavam, vez ou outra, para companhia. A fumaça dissipou-se - ou ele aprendeu olhar através dela - e ele viu conhecidos de outras épocas. Cumprimentou-os. Tocou-lhes a nuca, a face e o peito. Não havia resistência, todos aceitariam e se tocariam, naquela noite. Se estavam em busca de seu segredo, deu-lhes a cumplicidade. Roubou-lhes, mesmo que por meros instantes, a sensualidade que escondiam durante o dia. Buscavam a identidade e a encontravam... As horas se passariam, talvez ao raiar do dia terminasse a magia. Mas não naquele momento, não naqueles míseros instantes da realização do que todos dividiam – e desconheciam!

A banda parou para um breve intervalo. Os corpos se aglomerariam pelo chão em busca de um breve silêncio, ou da continuidade do sonho. Ele reconheceu alguém que procurou há alguns anos. Ainda se lembrou. Aproximou-se. Cumprimentou da mesma forma, tocando-se o peito, a face e a nuca - agora em nova ordem. Lançou um breve olhar pelo seu corpo avaliando uma possível companhia após a noite – pegaria o carro e iria a outro lugar? Sentou-se e conversaram sobre assuntos que não pertenciam ao ambiente. Breves assuntos que demonstrariam que, certamente, ele estava sozinho. Partiu.

A banda encerrou o intervalo. Teve sede e foi beber um pouco mais de água. Quis refrigerante e o tomou. A fumaça intensificou-se. Percebeu que havia figuras femininas, por detrás de um telão. Percebeu que elas estavam pelo salão. Por todo o salão. Não somente nos corpos camaradas... E a folia continuava... ele continuava... a magia... a possibilidade de um encontro... o encontro que o tornaria mais que o Outro.

Pudesse se perder na festa e o faria. Não obstante o medo tomou seu corpo. Lembrou-se do julgamento vil feito pelos homens. Temeu-o. Quis então fugir, esquecer do que sentia e procurar um novo abrigo... a noite terminaria. Talvez alguns conseguissem a celebração camarada. A alegria camarada e o amor camarada... mas não ele, naquela noite.