Monday, April 24, 2006

Vaga Lume - Parte II

Era apenas impressão, não tinha certeza. Nada sabia e sobre nada tinha certeza, tinha apenas a impressão do mesmo jeans rasgado e velho sobre a cadeira, da camiseta regata de cor escura e dos sapatos do outono. Não se lembrava da noite anterior e, tampouco, imaginava o quão distante estava do outono, das estações e de tudo quanto vivera. Até se perguntava se já havia vivido, mas não tinha resposta, era preciso que se descobrisse para imaginar se poderia algo descobrir... E era sempre assim que encontrava as piores respostas!

Lucius se deixou envolver pelo lençol e já não se importava com o que sentia ao acordar: seu talo dormitaria e não seria certa a companhia naquele crepúsculo pela manhã. Virou-se para o lado a procura de um resto de cigarro, frustrou-se. Frustrou-se com a ausência de um corpo, de um sorriso sequer que cheirasse a bebida barata do bar de onde veio. Odiou-se! Não queria se levantar e se tornar mais um rosto na multidão da metrópole, na troca da convivência pacífica em sociedade. Odiava o anonimato e mantinha-se sempre nele, não conseguia estabelecer vínculos com quem quer que fosse e isto o maltratava como nunca.

Lembrou-se de alguém distante, queria que estivesse por perto, para que em um abraço se sentisse mais humano. Pensou em ligar, em se mostrar vivo, em dar um sinal qualquer que lhe indicasse humanidade. Lucius já não era humano, não se sentia humano e ainda tinha aquela sua diferença a incomodar.

Viu parte de um vulto ao tentar se levantar da cama: deu um pulo súbito, desequilibrou-se e buscou apoio naquela cortina de cor carne do lugar onde estava. Tinha de ir embora, não sabia para onde e porque, mas deveria ir. Vestiu-se avidamente e desceu as escadas com uma euforia que já não sentia há tempos. Ganhou à rua, à multidão. Viu a moça de vestido amarelo que espantava os cães e pensou ter visto novamente o vulto, mas era apenas impressão. Esfregou as mãos na boca para limpar o resto de coisa qualquer da noite e cumprimentou a moça com um sorriso tão amarelo quanto seu vestido. Teve medo, e passou a caminhar de cabeça baixa, como se buscasse por um resto de ordem em seus pensamentos. Sabia que algo nascia em seu íntimo e se assustava: estaria farto de suas venturas errantes e de seus brados funestos pelos becos? Talvez farto de companhias itinerantes?

O vulto ainda seguia seus passos, cada vez mais o sentia próximo, como fantasma, como algo que vagava ao seu lado em semelhança... desconhecia quem fosse! Seria apenas impressão? Seu jeans velho e desbotado estaria a lhe cobrir sua impressão ou sua humanidade? Sua semente morta era apenas impressão? Seria seu vulto apenas a impressão de uma mudança? Lucius não saberia responder ao que questionava...

Parou sobre o viaduto, hesitou por um instante em cair. Seu corpo negro e esquálido cairia com a mesma velocidade da folha da árvore ao lado? Lembrou-se do outono e de seus sapatos surrados. Quis estar morto, desejou ardentemente cair e não mais embalar as fantasias estúpidas da noite. Novamente o vulto. Lucius hesitou. Parou, observou o vulto e o distinguiu, ele o conhecia.

Ainda olhou para o viaduto pela derradeira vez, antes de tomar o vulto pela mão e seguir seu trajeto pela praça. Via-se um sol tímido e ouviam-se as crianças que corriam por motivo qualquer. Não era apenas impressão, estaria vivo agora como humano...

Friday, April 14, 2006

O peru e a cigana

Nunca tinha pensado em quanto tempo passamos a comer ou a pensar em lembranças distantes. Como mulher, sinto meus dias cheios e os pensamentos fogem da lógica do cotidiano. Ontem, mal havia acordado, deixei as camas de meu apartamento penduradas no varal e desci ao açougue para comprar osso buco para o almoço. Ele não viria comer em casa, mas eu estava em uma manhã totalmente feliz. Uma alegria quase estranha, quase verde. Uma alegria capaz de dizer às flores de meu prédio o quanto as amo, ainda que não possam retribuir meu sentimento da mesma forma. Era uma sensação de plenitude por si, de existir por si. Mesmo sem que houvesse alguém por perto para me dizer que eu existia.

Entrei e pedi por uma peça pequena, pois estaria sozinha para o almoço. O moço, cansado, devolveu-me um sorriso amarelo e enigmático, como se não entendesse o que faria com ossos. Seus olhos penetravam-me a pele e corei ao perceber que ele não conseguiria perceber. Talvez lhe faltasse informação, por isso não me importei. Saí a assoviar e coloquei uma margarida nos cabelos: gosto de deixá-los soltos no verão. Quando pequena, minha tia sempre dizia que aos moços devemos saudar timidamente para que não nos achem assanhadas demais. Lembrei-me de titia e assoviei ainda mais alto, quase saltitante de volta ao lar onde eu seria gente grande!

Passei na banca e comprei uma nova revista. Continuei meu pequeno trote até em casa e ainda deu tempo de pegar uma receita na TV para o final de semana. Estaria com minha cunhada para uma pequena recepção. Ela, feliz com o nascimento de seu primeiro filho, distribuía mais do que sorrisos: estava mais disposta, mais mulher. Lembrei-me de quando se casou e, na noite de núpcias, jogou um vaso em meu irmão quando ele chegou bêbado da rua. Ela era terrível, mas se fazia respeitar. Eram felizes nesses anos que estavam juntos e aos poucos se descobriam. Meu marido os achava barulhentos, mas havia amor entre eles e isso, a mim, bastava!

Na sexta passada eu resolvi tirar da geladeira aquela coxa de peru que comprei para o Natal. Decidi que era para celebrar minha véspera de sábado. Fiz com gosto: depois de temperar com alecrim e alho poró, deixei-a no forno por pouco mais de 2 horas e assim, com uma taça de vinho tinto, fiz um brinde à solidão do dia. Ele estava fora, como sempre, e eu me perdia em minhas idéias de dona de casa e família. Vinham sempre à mente as experiências mais estranhas que tive, as pessoas com quem conversei sem notar a existência... É estranha essa sensação de culpa que temos após ter comido tanto, por isso viajamos em idéias que tínhamos quando jovens... foi apenas uma simples coxa de peru acompanhada de arroz branco, salada e um boa sobremesa de abóbora com coco: já vi que meu natal será sem peru e oxalá sem que ele esteja em casa. Não importa, vou a Minas e passo com minha cunhada barulhenta.

Só sei que, depois da feita, desci para caminhar e terminei por me encontrar com uma cigana na praça. Ela me parou e pediu qualquer coisa para saciar sua fome. Ela tinha dedos compridos e unhas esmaltadas em preto. Tive medo e me assustei com as bijuterias que lhe cobriam o corpo macilento, sua pele escarrada pelas mentiras que o tempo lhe impunha aos ombros. Não sei exatamente que tipo de lembrança me tinha vindo à mente, mas o peru dentro de mim deus sinais de que precisaria sair a qualquer custo!

Ela se aproximou de mim e disse uma palavra qualquer no ritual que só ela mesmo entendia. Sorri. Mas em vias do incômodo, foi um sorriso sarcástico, irônico e tímido. Fingi que compreendia seu dialeto e ignorei seu cheiro. Lembrei-me do meu peru e voltei a caminhar com pressa para evitar um acidente antes de chegar a minha casa... Será que ele chegaria, finalmente?