Friday, June 30, 2006

A caixa


Não havia muito que dizer: estavam parados sobre a ponte, a observar o trânsito que ia alheio ao que pensavam em silêncio. A palavra vinha seca na garganta e o desejo não sabia ao certo se comum ou simplesmente distante. Olhavam-se com as mãos contidas e sabiam que seria a despedida. Ele se virou para conter a lágrima tolhida e afastou-se, ainda sem nada dizer. Desceu do carro e observou o Outro partir como se tivesse arrancado uma parte de si mesmo. Naquele instante o amou perdidamente.

Ele se prometeu que não mais o procuraria, não mais se perderia em direção ao centro por uma nesga de carinho. Que o Outro continuasse perdido com sua exuberância vulgar, própria dos locais que freqüentava, onde as figuras míticas dançavam entre divinas e profanas sem nunca serem desejadas... os homens nunca as procurariam porque não eram fêmeas e elas nunca seriam dignas de mulheres! Falavam com voz alterada, a exagerar em tudo o que faziam e contar vantagem sobre pessoas que nunca tiveram verdadeiramente... perdiam-se, mitômanos, pelos ideais que almejavam e desprezavam com a lascívia de seus corpos.

Ele sabia, entretanto, que sentiria sua falta. De seus modos joviais com um copo de uísque e de seu jeito maroto de jogar a cabeça para trás enquanto gargalhava. Era isso que fazia com que se sentisse vivo – e quando estavam juntos Ele se sentia vivo, partilhava de uma mesma alma reconhecida de si mesma! Era no Outro que absorvia conhecimento, através de pequenas gotas de sensações, de experiências de viagens, de culturas e de poesias burguesas. Lembrou-se daquela história de Paul Verlaine e percebeu ter deixado partir, finalmente, o seu Rimbaud. Desejou conhecer de filosofia para ter uma frase certa sobre a perda, sobre a existência vazia e a incerteza de que se havia alguma essência em que sentia. Secou os olhos e saiu a caminhar.

Andou por algumas horas até que se encontrou perdido. Procurou por um ponto qualquer que o levasse a zona sul. Tinha algumas moedas, um passe de metrô e um resto das bolachas que comprara pela manhã. Parou em um bar, pediu por um copo d'água e comeu das bolachas. Em breve estaria em casa. Em breve, talvez esquecesse disso e saberia o que fazer. Logo seria manhã de segunda, e a vida deveria continuar... de repente se sentiu profundamente velho com essa imagem. Sentia o peso dos anos em seus ombros e a imagem da mãe ainda no portão quando Ele saíra pela manhã. Como ela estaria ou teria passado o dia? Sentiu-se culpado, mas afastou de si o pensamento ao fazer como o adolescente que amava ao jogar a cabeça para trás quando o coletivo passou sobre a poça d’água quase a acertá-lo... Calou-se com uma pequena saudade e subiu no ônibus com destino a periferia.

O inferno são os outros, pensou. O inferno era o seu Outro que lhe mostrou o quanto era frágil e vazio. Tinha essa certeza quase clichê, quase viva, quase comum. Doía-lhe reconhecer o quanto precisava respirar ao lado do Outro, o quanto ainda estava preso à gaiola que construíra por sua própria escolha... foi Ele que o buscou e o encontrou. Fora Ele, em sua necessidade de atenção, que interpretou no Outro um sinal que nunca existiu: nunca foi amado por ele! Nunca havia existido para ele que, perdido em suas venturas, era disputado pelo seres que habitavam a noite da metrópole.

Questionou-se o quanto estava sozinho e o quanto esse tempo o havia mudado profundamente. Dependia do Outro para ter sua alegria, ter sua tristeza, ter sua dor... o Outro havia se tornado Ele mesmo. Ele mesmo. A mesma vida. A mesma alma. Como eram felizes os loucos e eram livres os bêbados. Como eram livres! Ele odiava perceber que não era livre, que não tinha em si mais do que os anos que passaram sem que Ele soubesse onde estava. Odiava reconhecer a consciência de quem era e saber que Ele era o seu próprio inferno.

Em casa acenou à sua mãe e fora direto ao quarto. A velha recolheu-se resignada: não reconhecia seu menino! Ele encontrou sua pequena caixa de fotografias e com uma angústia quase doce reviu os momentos de que se havia esquecido... olhou seus sobrinhos, seu pai falecido no inverno e os filhos que teve quando casado. Prometeu a si mesmo que voltaria a vê-los, que ligaria para saber como estavam e se esqueceria do tempo em que esteve longe.

Ele nunca achou que os homens pudessem ser diferentes até conhecer o Outro. Ele achava que os homens eram como Ele e as mulheres como a que tinha para viver. Acreditava que o comum era a realidade plena e desconhecia a maldade com que o mundo impunha suas regras. Ingênuo. Conheceu da maldade e percebeu que ela vinha de seu íntimo, de quem era ao buscar o Outro naquela tarde fatídica.

De repente, encontrou sentido no que tinha e admirou-se, intimamente, do que não lembrava ser. Não poderia ser livre, mas talvez um pouco de sua essência... Levantou-se em direção ao espelho e tirou dele o tecido negro que o cobria. Olhou-se demoradamente, a admirar seus cabelos grisalhos, as rugas sobre os olhos e as marcas que o tempo – inexorável amigo – lhe impingiu nos anos em que esteve ausente. E enxergou-se como realmente era. Sorriu lentamente naquele ritual de descoberta, a tocar cada parte de seu corpo como se o encontrasse pela primeira vez... amou-se, de repente, quase como um menino que sê vê homem. Recolheu-se, tímido, decidido a chorar pela primeira vez.

Voltou à sua caixa e continuou a olhar cada lembrança que ali havia. Por um momento reviu o Outro e para sempre o afastou de si. Abriu suas janelas, mesmo na madrugada, e todos os armários. De repente viu-se em um outro lugar e mesmo sua aparência era diferente. De repente estava quase nu, a dançar no meio do cômodo em uma alegria muda que também desconhecia: estava louco! Acendeu todas as luzes e tirou as roupas dos sacos. Descobriu a cada canto do seu quarto em uma busca fremente, ávido por manifestar um sentido naquele pequeno mundo que se criava...! Continuou até o amanhecer quando, exausto, se deixou dormir.

Ao acordar em nada se parecia com o aspecto senil da noite anterior, sentia-se livre e pleno com sua pequena caixa, à cabeceira da cama, iluminada por uma fenda de sol que entrava pela janela. Sentia-se jovem sem que se parecesse com o Outro, o pequeno pássaro em uma gaiola de ouro... sentia-se jovem e sem os grilhões com que Ele próprio aprisionava o Outro.

Desceu e beijou suave o rosto de sua mãe. A velha assustou-se e, mais uma vez, preferiu se calar. Ele se banhou e ganhou à rua que nunca pareceu tão bela para uma segunda feira. Foi trabalhar e percebeu que o tempo continuava – inexorável amigo – sem lhe dar tempo de ser mais do que comum... o tempo continuava... e o Outro, ah, o Outro...

Thursday, June 15, 2006

O Canto de Ossanha

Leôncio nunca esteve certo sobre sua idade, recolher latinhas dos restos de lixo fazia-o tão indigente quanto aquele que as jogava nas ruas. Às vezes perdia seu próprio nome, entre buzinas e gritos de motoristas apressados que trombavam em seu carrinho humilde, abarrotado de papelão e com um velho rádio que sempre tocava a mesma estação. Quando havia sol, armava-se de óculos escuros. Na chuva, cobria os pés descalços com pedaços de sacolas de mercado e barbantes como cadarços. Era assim: um ser oculto que transitava pelos caminhos paulistanos, totalmente à margem de quem o via e não o percebia entre aquilo que já não mais servia.

Ele não se importava. Se sua imagem fosse capaz de despertar pena, seria por não saberem a dimensão em que estava. Aquele corpo franzino, arqueado e amarelado pelo tempo, tinha em si um outro universo cuja divindade poucos se poderiam perceber.

Descobriu-se ao acaso, quando se deixou levar pela vizinha Gerusa durante uma das suas crises de bronquite. Ele mesmo sofria de bronquite desde a adolescência, o que diziam os vizinhos ser por uma paixão mal resolvida que teve há muitos anos. Gerusa jurava que ainda conquistaria o pobre homem... E foi em uma dessas crises que ele, enfim, encontrou sua natureza. Enquanto Gerusa achava que um bom passe de caboclo poderia limpar o pulmão de seu futuro amado, durante o culto no terreiro ela percebeu que nunca o tinha conhecido...

Sentaram-se nos bancos de madeira que, ordenadamente, estavam colocados pelo salão. Encolheram-se em um cantinho, em silêncio, a aguardar o início dos trabalhos. Ele, nas mãos, trazia apenas os calos de sua luta diária. Ela, o rosário ganho de sua avó durante a primeira comunhão. De repente o som dos atabaques invade o salão, seguido de palmas e de um canto alegre a ritmar uma dança viva, que se inicia lentamente e ganha corpo na medida em que todos se envolvem... Gerusa sorri e olha para Leôncio, que permanece de olhos fechados, como a acompanhar na mente o ritmo frenético dos negros que tocavam!

Sem que ela entendesse, Leôncio, de súbito, solta um grito como ave de rapina e começa a rir ironicamente, a gesticular como se abrisse caminho entre matas e a se envolver em uma dança retumbante pulando com um pé só... balança a cabeça enquanto dança, dança e dança em um transe profundo, como se encontrasse consigo mesmo, como se enxergasse, finalmente, a sua verdadeira majestade, sua plena natureza entre os ritos sagrados que se estabeleciam diante de seus olhos naquele terreiro... Gerusa se assusta, vê transformado seu querido e meigo Leôncio em um rosto duro carregado pelos anos e forças das folhas!

Todos abrem espaço e saúdam o Orixá: Ossanha descera como benção e o terreiro festeja com um som mais intenso de atabaques, corpos se contorcem jubilantes diante da visão faceira daquele que é o dono da cura. Os risos se expandem e Gerusa, assustada, chora pela androginia daquele novo ser que agora celebra a sua liberdade. Os cantos se alastram ainda mais e muitas velas são apagadas, como se um vento soprasse por todo o templo e trouxesse a imagem das matas antigas, onde Ossanha reinava ao lado de seu amado Oxossi!

Leôncio perde-se novamente sem nome ou identidade. Perde-se daquelas ruas onde indigente se entrança pelos becos a procura de material para seu mínimo sustento. Perde-se de sua bronquite e de sua paixão mal resolvida... perde-se, completamente, de si mesmo para tornar-se aquele que com canto de ave de rapina abre e confirma a força do lugar. Longe dos ares plebeus e dos matizes de carros e buzinas, Leôncio está alheio à sua anterior insignificância, pois deixa de ser parte de uma massa silenciosa para ter referência em seu brado, em seu fumo enrolado e suas ervas aromáticas... assim torna-se majestade, dono do destino de quem o busca e senhor dos que o servem. Não mais Leôncio amado por Gerusa, mas o senhor dos caminhos: Ossanha!