Tuesday, July 11, 2006

Love in the afternoon

Não consegui me soltar do telefone. Fiquei ali, parada durante horas enquanto as lágrimas caíam pelo meu rosto e meu pensamento ia longe ao tempo em que estávamos juntos. Nada era preciso ser dito, apenas sentido. Éramos amigos inseparáveis que riam juntos do que quer que fosse. Tínhamos um único código, uma única vida, um único meio de dizermos que estamos ali, presentes, vivos e próximos.

Lembro-me de quando ele perdeu seu pai: era uma tarde em que estávamos no campinho depois do jogo do time. Um grupo unido, todos os garotos na mesma idade e à caça das garotas do bairro – e eu era uma dessas garotas de bairro incapaz de se envolver com qualquer que arrotasse com a mão na testa. Ele se secava rindo de uma brincadeira qualquer quando o treinador chegou de cabeça baixa. Achamos que fosse outra bronca pela algazarra, mas não, depois de saírem juntos ouvimos os seus soluços. Foi também um acidente, como o que tirou sua vida agora. Fiquei dias em sua casa até que se recuperasse. Naquele ano o time não jogou mais e ele quase foi reprovado.

Depois de alguns meses foi sua vez de acampar em minha casa: eu tive catapora. Minha mãe trabalhava fora e para evitar que falassem de ficarmos sozinhos durante as tardes, ele, que já tivera catapora, pulava a janela sempre com um novo jogo de Atari. Virei várias fases de River Raid e Pac Man naquelas férias que ainda foram divertidas. É incrível como agora sinto que nunca o agradeci o suficiente por isso. Sinto como se aquela entrega incondicional que tínhamos era de alguma forma um amor contido. É um vazio agora saber que toda aquela história se foi por culpa de um vândalo de moto.

Ele se mudou quando estávamos no colegial. Por ser viúva, sua mãe resolveu ir morar com os irmãos na capital e eu continuei na pequena cidade que nos viu crescer. Passamos a nos escrever sempre, ainda usávamos o mesmo código e era isso que nos dava a certeza de que continuávamos amigos. Soube quando ele se apaixonou e lhe contei sobre minha primeira vez com o namorado que hoje é pai de minhas filhas. Eu sentia que, de alguma forma, era a única pessoa em que eu confiaria dizer o que eu era. Quando passamos a trabalhar, viajávamos sempre para nos vermos. A sua namorada não entendia essa entrega e nem eu, noiva, conseguia explicar porque, por ele, não havia compromisso inadiável – até mesmo o dia do meu casamento foi alterado para que ele estivesse. Hoje olhando meus filhos enquanto dormem, sei que aquilo era alimento para que eu continuasse. De certa forma ele me dava uma razão para eu continuar a viver, ele era um motivo para que eu continuasse no caminho, aqui mesmo nessa pequena vila, aqui mesmo nessa pequena vida.

Não sei o que pensar. Fico a me lembrar daquele dia, quando sentados em um banco da praça que nos viu crescer, nos calamos pela primeira vez. Sempre ficávamos em silêncio, em uma cumplicidade tão nossa que nada ousaria perturbar. Mas foi um calar diferente... Ele parou e me fitou tão profundamente que não ousei dizer palavra alguma. Tinha urgência em seu olhar e uma verdade que fingíamos nunca ter percebido. Abaixei meus olhos e fitei minha aliança. Ele continuou a me olhar profundamente, com lágrimas que escorriam pela face. Nada disse. Eu também chorei e ele simplesmente pegou minha mão com carinho e beijou. Foi a última vez que nos vimos, há pouco mais de um ano.

Aquilo nos perturbou, mas percebi que sabíamos o que havia acontecido. Ambos sabiam. Não era mais aquela amizade inocente de quando íamos às festas juninas e trocávamos de par para dançarmos juntos. Tornamo-nos, de repente, seres humanos com desejos e distinções antes nunca exprimidas. Ele reconheceu em mim as curvas de meu sexo e eu notei o quanto gostava de seu cheiro e gestos rudes. Tornamo-nos homem e mulher e existia algo entre nós. Eu o amava. Hoje eu sei que naquele instante eu descobria o quanto o amava: seu sorriso, seu cabelo desarrumado e sua timidez quase doente. Eu o amava perdidamente. Como eu o amava. E ele me amava. Era a razão de não se ter envolvido profundamente com a pequena de peitos fartos que tanto o buscava. Era a razão de sua ausência.

Foram horas difíceis essas em que minhas recordações vieram. Agora já é tarde para que eu vá a capital e me despeça de sua lápide. Prefiro estar aqui, em silêncio, a me recordar que em breve estaremos juntos novamente. Com nosso código único, com a única razão para que eu sobreviva...


Bea