Sunday, October 22, 2006

Você é feliz - Parte II

Continuei a pensar sobre felicidade e ontem isso me fez lembrar de um escrito que tive o prazer de ler há tempos sobre Nietzsche. O autor colocou na boca do filósofo o seguinte questionamento: “mas o que o motiva a fazer isso? Qual a verdadeira razão de tentar com tanta veemência a solução desse problema? Não me diga que por ser parte de sua profissão, senão teria que acreditar que o faz por bondade e não acho a bondade um bom motivador... não acho que o ser humano faça qualquer coisa gratuitamente, apenas para provocar no outro uma sensação de bem estar ou alívio...” Isso me fez refletir um pouco e passei a imaginar que não é de toda falsa a colocação...

.

Não acho que há esmola dada sem segundo interesse, assim como não há relação humana que não permeie o egoísmo. Mas daí me questionei: onde está o egoísmo? Pois é... confundimos o amor platônico com o amor a um ideal inatingível, confundimos nossas paixões carnais com um amor sublime e a posse do outro – e conseqüentemente sua imagem incorruptível – se torna um requisito imprescindível para que continuemos a amar. Precisamos que o outro se encaixe em nossos ideais, em nossa imagem de perfeição para que o amor persista. Temos que ter uma espécie de poder, de fascínio para que o relacionamento aconteça. Como somos limitados!

.

E muitas vezes o que nos motiva a continuar um contato é exatamente esse poder que exercemos sobre o outro ao nosso lado: seja em um ciúme bobo que o faz trocar de roupa, uma festa que se deixa de ir, uma cumplicidade no final de semana em que um está a trabalhar e o outro não sai. O que chamamos de consenso nessa relação nada mais é do que essa luta para ver quem tem o poder momentaneamente e é por esse poder que continuamos sempre a nos relacionar... o que chamamos de amor, no limite, não passa de uma aceitação do exercício do poder do outro sobre mim e vice versa.

.

É esse egoísmo que nos move, essa sensação de vitória mesmo quando cedemos por saber que logo poderemos ser o que provoca. Essa sensação de vitória, de estar em evidência, se ser quem dá as cartas é que nos motiva. Em todas as relações precisamos colocar em evidência nossa opinião, mesmo na timidez de nosso riso. A todo o tempo precisamos nos provar, nos afirmar, nos colocar presente... quando há quem não o faz, consideramos fraco e morto, incapaz para a convivência no grupo.

.

Poderia dizer estranho, mas acho quase formidável: a todo o momento incluímos e excluímos coisas de nossa vida conforme a sensação de vitória que isso nos dá. Seja um simples chicletes para nos dar um prazer momentâneo como o emprego que não nos paga o suficiente. Precisamos ter um certo controle, ainda que inconsciente, para continuar! Isso me lembra de um diretor que fez uma festa de final de ano para todos os funcionários e seus familiares em uma chácara muito agradável. Todos puderam ter um dia tranqüilo com comes, bebes e outras coisas típicas de natal. As crianças ganharam presentes, as esposas rápidos tratamentos de beleza e os homens (grande maioria de funcionários) jogaram futebol com o diretor. Ao final do dia o diretor fez um pronunciamento geral para anunciar o pagamento de participação em resultados: não poderia ser melhor, todos os funcionários aplaudiram, assim como as esposas e filhos presentes.

.

Com esse exemplo muitos podem dizer que a empresa reconheceu o esforço dos funcionários e proporcionou essa festa a fim de reconhecimento... mas eu enxergo o contrário: eu vejo o diretor se afirmar sobre todos, mostrando seu poderio ao organizar a festa e distribuir alegrias. No fundo, o que ele queria ela ganhar aliados, fazer com que os funcionários trabalhassem ainda mais durante o ano vindouro e assim ter resultados ainda maiores.

.

Há tanto que fervilha, mas não posso continuar por agora. Preciso evitar ser tão cáustico para não ganhar o rótulo de pessimista. Basta por agora pensar que a própria felicidade passa pelas relações de poder, de influência, de dominação que temos sobre o outro e, no fundo, essa sensação de vitória que temos a cada pequeno gesto é o que nos torna ainda mais felizes.

E.

Monday, October 16, 2006

Assim Seja!

Claire,
 
Antes de dormir me vi com o pensamento em você, em tudo o quanto falávamos e tudo o quando passamos em relação ao "estar sozinho". Temos muito em comum dessa distância do mundo em que vivemos. Parece que muitas vezes não conseguimos fazer parte desse cotidiano, desse comum constante que observamos sem nos deixar contaminar.
 
Quando eu mesmo me observo de longe, percebo que há muito por resolver à minha própria estima. Às vezes é como se eu não soubesse me amar, como se não estivesse ali, como se passasse desapercebido por onde quer que fosse... mas é apenas impressão! Por mais que achemos, não conseguimos passar desapercebidos e por onde quer que passemos deixamos nosso rastro: um pouquinho de nós a quem encontramos pelo caminho. Por mais que duvidemos, temos um ar especial que nos aproxima somente de seres também especiais e, por serem raros, sentimo-nos sozinhos a maior parte do tempo.
 
Não podemos pertencer ao comum, ainda que lutemos com todas nossas forças para isso. Não podemos, não conseguimos e quanto mais tentamos, mais nos machucamos. É difícil, Claire, não se identificar com a realidade comum, com a realidade constante que pulula aos nossos olhos. É difícil, por exemplo, dançar ao meio de milhares de corpos e não desejar um sequer. É difícil acreditar que não consigamos participar de todas as gias e orgias do cotidiano. É difícil de aceitar que não temos referência no mundinho que nos cerca, nas pessoas que nos cercam, nos desejos que nos cercam... Não são nossos desejos, Claire, não é nosso mundo, não são nossos iguais! Não pertencemos a eles mesmo quando em contato com eles.
 
Sem valorizar um em detrimento do outro: não somos como o todo, mas nem por isso somos superiores ou inferiores ao todo. Somos o que somos e por isso tanto nos dói cada segundo da vida. É uma batalha diária a envolver o que temos e o que sentimos versus o que vemos e o que gostaríamos...
 
Também pouco durmo e há dias em que estar sozinho me incomoda. Hoje, somente hoje, vou me deixar vivenciar esse plúmbeo paulistano enquanto vou à cidade universitária, ao meu emprego, ao meu futuro... cuide de meu gato, Claire...
 
Ainda que não acredite, sei que temos muito ainda a resolver...
 
Fique em paz, esteja em paz, permaneça em paz... é o que desejo!

Saturday, October 14, 2006

Você é Feliz - Parte I

Perguntaram-me se sou feliz e de repente não sei como responder... sou feliz? E se sou feliz, porque às vezes não estou feliz? E se não sou feliz, como às vezes estou feliz? Você realmente me pegou Kiko, me fez pensar no assunto de forma tão crua que me sinto demasiadamente humano.

Para me ajudar a responder a questão, recorro ao exemplo de um casal de amigos que se amam: Esther e Paulo. Ambos são evangélicos e ainda não se casaram. Sentem-se completos quando estão juntos, não precisam de palavras e apenas o toque suave de seus dedos faz com que sintam a força do amor. Eles saem juntos e juntos ainda conversam sobre o futuro, sobre o que acreditam e sobre tudo o que têm conquistado. Ela trabalha em uma loja de confecções e ele na construção civil: são pessoas simples, com gostos simples e não fazem sexo porque não sentem necessidade...

Sentem-se felizes com outros prazeres tão corriqueiros, não pensam em teatro e cinemas e quando se encontram falam sobre as alegrias do cotidiano, os pequenos problemas que resolvem e o quanto conquistam em suas vidas. Compraram um terreno recentemente e falaram com o pastor sobre a data de casamento. Ambos não sabem sobre cultura popular ou a última moda em ciência e filosofia. Pouco falam e de política lêem apenas o suficiente: consideram-se felizes e realizados! Às dificuldades, quando vêm, enfrentam tranqüilamente. Confiam em Deus e a alegria que têm no peito supera qualquer grande angústia que lhes aparecem.

Não sou como eles, Kiko. Às vezes, penso se felicidade não é um estado de espírito motivado por algo externo... Diz minha amiga Júlia que temos apenas momentos felizes, eu contesto. Sempre digo a ela que se isso é felicidade, então seremos infelizes na maioria das vezes e a alegria é apenas temporária! Ela não soube me responder... pobre Júlia, estava toda chorosa pelo acidente e por ter quebrado a clavícula... talvez por isso não pense em felicidade!

Pelo meu amor ao saber e por ter tanto ainda a aprender, conjugo minha alegria nos livros e nas piadas que faço sozinho enquanto arrumo a casa... sou feliz por ser, sem motivo, sem razão, sem necessidade. Sou feliz mesmo quando caço baratas e lembro de meu chefe ranzinza na empresa em que trabalho. Os momentos que me brindam com o êxtase eu vivo e os momentos em que tenho minha alegria à prova eu me permito chorar...

Acabo por pensar que sou naturalmente feliz e que os momentos de tristeza que tenho não afetam minha constante, só me fazem valorizar ainda mais aquelas horas em que não há motivo para chorar... Tenho momentos de tristeza, momentos de dor, mas SOU na maioria das vezes feliz.

Não sei se respondi, meu caro Kiko, mas como sei que nunca se permite ler de tudo que lhe envio, vou deixar minha alegria repousar agora com um bom analgésico às dores de cabeça. Vou me deitar com a certeza de estar bem ainda que as dores me visitem... soube que minha mãe está doente, talvez precise se internar e terei de viajar com urgência. Soube também que talvez perca minha tia logo, que talvez precise de mais dinheiro e, sobretudo, não estou mais apaixonado... tem tanto a acontecer e ainda assim continuo sereno, tenso, irritado e feliz! Saudades de você...

P.s.>> tem um link para você fazer um teste...

http://istoe.terra.com.br/istoedinamica/calculadora/felicidade/felicidade.asp

Tuesday, October 10, 2006

Carta a Leila

Não quero ser pessimista ou demasiadamente dramático nas minhas palavras. Também não quero recorrer a mitomania para exemplificar essas dores de cabeça que mais parecem dores de parto... o parto de palavras que ainda irão surgir de mim em notas mal escritas e enviadas a ti como prova de minha sanidade. Não, minha Leila, não sou louco! Antes fosse para me unir aos demônios invocados por Dostoievski ao assassinar o conceito do divino Deus em sua literatura, ou talvez para negar minha responsabilidade e conclamar um positivismo barato ao dizer que isso é apenas uma fase e logo tudo voltará a progredir! Recuso-me a ser louco e sobretudo progredir enquanto não usar o ceticismo e a falta de fé como ferramentas de busca da verdade.

Não consigo dormir e vejo o sol nascer pela janela. Da mesma janela onde pela primeira vez vi Cécile despida a caminhar pelo viaduto a ofertar seu corpo por um pedaço de pão. Eu dei-lhe o pão na ocasião e depois de fazê-la apaixonar pelo que não sou a dispensei como se dispensa um cão. Não me odeia por isso, Leila, assim como eu também não me exalto por não ter a virtude da caridade... não sei mentir e fingir que sou digno e beato quando minha carne clama por outra carne sobre a cama. Cécile tinha seus seios intumescidos ao meu toque e corava quando suave minha mão deslizava pelas suas nádegas brancas. Ainda posso sentir a mesma ereção e o mesmo prazer quando evoco seu cheiro e me lembro de suas lágrimas ao enxotá-la nua na chuva naquela manhã de sábado. Era muito cedo e fazia um frio glamoroso, tépido aos que tinham coração europeu. Ela implorou por meu afeto e eu em um sorriso diabólico lhe disse que levasse para longe aquele esqueleto usado! Não quero ser demasiadamente dramático, por isso encerro o episódio de Cécile enquanto levanto meu cálice de brandy.

Quero agora questionar minhas possibilidades para não me tornar vítima de mim mesmo. Quero recusar ter fé ou esperança para procurar em mim respostas a tudo que sou. Resposta às possibilidades do que sou ou do que posso ser. Possibilidades tolhidas anteriormente pela vergonha e a incerteza, pela interferência da moral que me era externa e cegava meu entendimento com a exaltação de virtudes e regras para ser. Repudio-as, Leila. Repudio as regras para encontrar a essência. Repudio, nesse momento, toda inquisição fomentada nas esquinas e livros que ditam os costumes desse tempo. Repudio, definitivamente, Leila, as exigências de sucesso e de comportamento. E que não me venham com fórmulas e remédios: não preciso de remédio para suportar a realidade que encontrarei. Os remédios não resolvem Leila, apenas nos permitem conviver com o problema sem muito questioná-lo... não precisarei deles!

Como gosto dessa carnalidade de Mozart. Escuto-a repetitivamente e exausto sinto minhas dores de cabeça partirem. É como se me embriagasse por sua música e me perdesse com uma boa dose de brandy. É como se nada mais importasse senão essa minha presença irritante em mim. Preciso me esquecer de Cécile. De alguma forma ela ainda vem e me faz lembrar de certa humanidade. Não posso aceitar isso. Não posso aceitar que tenha algo de comum em mim. Não posso aceitar que venha a piedade ou a moral resgatar o que já se havia condenado!

Talvez seja apenas o começo, Leila. Apenas um começo...

Sunday, October 01, 2006

[ao som de 'La mamma morta' - Maria Callas]

Claire,

Tem chovido por esses dias na capital. O vento nos castiga com sua força e nos obriga a ter raízes firmes para que não esmoreçamos. Ele me arranca o guarda chuva quando passo pela gare e minha única saída é o abrigo oferecido pelas colegas que lá permeiam entre as sombras. Já é noite! [Moriva e mi salvava! poi a notte alta]

Por um instante em mim há uma saudade intensa do não saber. Sinto falta de fantasias que passeavam pela mente na ausência de certeza. Hoje eu sei, minha querida irmã, que o sentido não pode existir em palavras soltas ao vento e brincadeiras de criança (e como gostaria de voltar no tempo e estar naquele sítio de vovó à beira do riacho). [...Bruciava il loco di mia culla! Così fui sola!]

É estranho essa sensação de saudade que vem acompanhada pelo desejo de distância. É uma morte em vida, Claire, de um sentimento lindo que se cultivou sem que houvesse um motivo sequer para tanto... [Tu non sei sola!] ... e a chuva, continua... [fa della terra un ciel! Ah!] (se lembra de quando a vovó nos pegou roubando flores do jardim da dona Quitéria?)

Logo é noite alta e deparo-me com um fantasma. Com um guarda chuva me convida a tomar suco de laranja, comprar frutas e prometer um encontro no final de semana. Perguntamo-nos mutuamente porque ficamos tanto tempo longe e apenas me respondeu: "...porque não era em mim que estava seu pensamento nos últimos dias e não sei se é amor o que sentia por mim!" [Io son l'amore, io son l'amor, l'amor"] Parou depois disso e esperou que eu dissesse algo! Eu lhe disse apenas que tinha razão por não ser a única certeza de meu afeto, mas implorei que não duvidasse que ainda poderia ser amor!

Enfim partiu, chegara seu ônibus. Ao ver que partia, retornei a pensar na certeza que tive e o quanto gostaria de nunca tê-la. Talvez esse fantasma poderia estar no lugar de quem faz apenas uso de mim! Agora novamente eu sei que está certa, como sempre, por me achar passional... sinto como se ainda estivesse na gare, como se nunca tivesse saído de lá e nunca tivesse realmente amado. Sinto o mesmo vazio, Claire, a mesma distância. [Corpo di moribonda è il corpo mio.]

Sentia-me muito longe de mim, minha irmã, naquele momento! ... e a chuva...
Cheguei ao apartamento, subi e debrucei sobre a cama. Agora a chuva ia ao longe (como quando ficávamos no celeiro e adormecíamos com o tilintar da tempestade!) e dentro de mim o vento fazia a limpeza necessária.

Não há mais desejo! Enfim sinto-me livre de qualquer desejo! [Io son già morta cosa!] Parei por um momento e disse novamente a mim: não há mais desejo! Estou livre Claire... livre... talvez realmente aceite o encontro prometido e desenhe um novo final durante a semana que se passa... [...che a me venne l'amor!]