Sunday, June 10, 2007

Descobrimento

Em um primeiro momento eu estranhei completamente: todas pardas, sem qualquer pudor de demonstrar as vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que não me feriam a decência. Sentia-me a adentrar em nova fauna, talvez fosse um paraíso onde as naturezas se mesclavam e certamente eram tão férteis que poderiam me conduzir à liberdade. Perdia-me entre as belezas a medida em que avançava lentamente como um explorador inexperiente.

 

Algumas tinham em seus braços contas brilhantes e sobre os olhos tinturas que combinavam com as cores do beiço. Todas traziam cabelos distintos entre si: brilhosos e variados, curtos ou longos e, em alguns casos, amarrados com contas como as dos braços. Quem as visse com mamas tão fartas, diria serem ótimas parideiras, mães cuidadosas que ganharam desenvoltura com tantos filhos que tiveram. Sorriam de forma estranha e ainda assim não me incomodavam. Como se o fizessem naturalmente, como parte daquela sina de estarem ali nuas e avermelhadas pelas luzes do ambiente.

 

E de repente pude me sentir notado: minhas roupas eram estranhas e meu andar acanhado não combinava com o que via. O som que emitiam não era de língua conhecida, dançavam ao embalo de música tribal e apontavam-me seus dedos com unhas esmaltadas enquanto riam estranhamente. Assustei-me com aquele êxtase e pensei estarem em ritual étnico: talvez estivessem enfeitiçadas por um totem que eu não via naquele mundo que me descobria.

 

Foi quando me senti envergonhado e selvagem por desconhecer. Eu me senti selvagem e perdido: prestes a ser descoberto. Encontrava-me distante de meu habitat onde, embora sem tão farta fauna e flora, eu sabia onde pisava. Meu habitat poderia não ser um paraíso, mas, naquele céu de agora, eu me via sem meus limites e era como se um novo continente despontasse em mim.

 

E fui descoberto, fui visto, fui explorado pelos olhos e pelos risos que se dirigiam a mim.

 

Quis por um instante correr em direção a nau estacionada fora dali e me esquecer das tapuias de belas cabeleiras. Quis fugir para me esconder das faces que me buscavam e me despertavam a sensação que desconhecia. Que me buscavam na curiosidade, na ingenuidade virgem de meus poucos anos: aquelas tapuias seriam o próprio inferno que me levaria à liberdade!

 

Uma delas se aproximou e me tomou pelo braço. Todas pararam a dança e me tornei um foco no centro do círculo. Notei, então, outros avermelhados nus, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Outros que não faziam mais caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas, que as tinham como eram as minhas e que, aos poucos, tomavam forma e ficavam à mostra conforme a tapuia me tirava o traje provinciano. Eram outros que as acompanhavam e eu não notara antes pela cegueira de minha inocência: estavam todos nus e então nu eu me tornei.

 

Desceram todas de lugares que não sabia e aumentaram o círculo ao meu redor. Retomara a dança e abaixavam-se e levantavam-se em um ritmo que não soube precisar. Batiam palmas como se estivessem em um transe primitivo. Algumas surgiram pintadas acima da cintura e raspadas até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas. Traziam as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta que parecia uma fita preta da largura de dois dedos. Cabelos mais compridos e mamas mais suculentas, mas suas vergonhas eram como as minhas e como as dos outros que acompanhavam as outras. Intimidei-me quando tocaram em meu corpo, mas acabei por aceitar o ritmo e passei a imitá-los na dança: abaixava e levantava-me como se soubesse o que era o ritual que os envolvia. Desconhecia a língua que falavam, mas me comunicava com todos em uma língua sem símbolos, sem verbos, sem fala... Agíamos conforme nossa natureza e estávamos todos descobertos.

 

A sensação se apoderou de mim e então pude sentir a liberdade. De salvador que pensei ser, eu me tornei salvo por aquela liberdade. Em mim havia agora um novo homem que aos poucos, lasso, descobria-se a si mesmo.   As fêmeas nuas e os machos que ali estavam sobre meu corpo foram a epifania que sempre procurei, que de sempre precisei. Eu fui descoberto e capturado. De explorador tornei-me a própria caça e então, finalmente, fui livre.

 

E.

Saturday, June 09, 2007

O sábado, ele e o filme francês

Tudo não passou de uma experiência mútua: sem desejo evidenciado, sem culpas, sem manipulações. Aconteceu de repente, num misto de energias e sentimentos do passado, guardados, contidos e mascarados pela amizade sincera.

Há tempos era apenas um garoto e Ela uma amadurecida idéia do que ele esperava. Trocavam informações de experiências, dela. Trocavam cartas e beijos virtuais que nunca aconteciam verdadeiramente! Tinham um medo, uma distância, uma exigência de silêncio que aos poucos os aproximava e os afastava. Tinham as almas sedentas e não poderiam saciar sem ultrapassar a limiar do sonho e do desejo negado.

Foram os mesmos até que tiveram a oportunidade. Foram anos até que houve a chance, única, de expressarem o que negavam veementemente. Ela sabia onde estava e ele, perdido, dizia a si mesmo que continuava o mesmo garoto! Talvez culpariam os vinhos e vodkas para justificar a entrega, um filme romântico que veio do velho continente e o avanço da hora. Talvez culpassem a distância que havia, a saudade ou até mesmo a ausência. Talvez nada culpassem e se afastassem pela manhã, sem que se lembrassem de quem eram.

Uma experiência mútua: o desejo seria suprimido, as culpas dispostas e as manipulações atribuídas ao causador da ebriedade. Tudo passaria de ser o de repente, o furor do passado guardado e o fator da amizade sincera, próxima e incapaz de negativas.

Mas aconteceu! E a beleza foi quando descobriram que nunca fora amor!

E.