Thursday, December 27, 2007

Carta para A.

Oi A.,
 
Ontem foi o aniversário de Bertha... fiquei preocupado como fazia tempo que não falava com ela, daí resolvi ligar para saber como estava e terminei por cumprimentá-la por seu aniversário – que nem ao menos me lembrava. Ela está envolvida na novena de Aparecida e parece que esse ano ficarão pelo menos 3 dias na cidade. Ela me pareceu feliz e perguntou quando poderíamos visitá-la. Parece que sarou daquelas dores de cabeça e atualmente pratica judô com a comunidade do bairro. É incrível, A., mas apesar dela morar na Saúde, que não é tão longe assim de minha casa, passamos muito tempo sem nos falar...
 
Eu soube que o ex-marido andou por rondá-la agora nas férias dos meninos. Ele é realmente um pássaro maldito, pois criou asas e saiu da gaiola para ter outras pessoas ao seu redor. E não é que a Bertha deu a volta por cima? Diz ela que aquelas dores de cabeça estavam diretamente relacionadas ao sumiço do homem... Se ele ainda tivesse morrido ou realmente desaparecido seria mais fácil, mas como sempre tinha notícias do cafajeste, demorou um tempo por esquecê-lo!
 
Mas ela fez uma coisa que eu achei incrível: comprou linha na 25 de março, fez um suéter maravilhoso, colocou em um caixote junto com o restante de coisas que ele deixou na casa e enterrou no pasto do sítio de seu pai. Eu achei o máximo! Fez ritual e tudo, chamou os meninos, o padre de lá onde mora seu pai e até algumas pessoas da vizinhança. Ela dizia que era um memorial para um santo qualquer e fez uma festa com comes e bebes. Inacreditável. Até gente com viola e sanfona foi na festa e teve forró no final da noite! E sabe que depois disso foi que ela sarou e agora vai à Aparecida para agradecer a santa.
 
Até me inspirei nela. Bem que a Sílvia me havia falado. Ela agora mudou o guarda roupa, sai de final de semana e os seus meninos estão na escola particular. Que mudança, hein? Nem com o fantasma do ex-marido a rondá-la ela se deixa abater!
 
Bem, mas que seja... desculpa por falar tanto assim, mas eu queria mesmo era te convidar para festa dela que será no dia 14, lá no Cefet de Guarulhos. Vão todas as professoras amigas e vai ter muito o que comemorar... E se vier, peça para Claire vir também, estou com saudades daqueles quitutes que só ela sabe fazer...
 
Beijos,
 
E.

Sunday, December 23, 2007

Nascer

Pensei diversas vezes em mudar o nome. Talvez o nome e o contexto, mas iniciar a mudança de alguma forma. Assim aos poucos, uma coisa de cada vez, uma coisa a cada dia, como uma força motriz que iniciada não poderia mais parar, mas que em pequenas dosagens deixasse sua marca indelével ao final.

 

E o nome seria Petrus. Isso mesmo. Petrus porque me lembra o entregador que foi ao apartamento onde estava na véspera de meu retiro. Talvez me sinta mais forte com o nome que ora me batizo. Talvez me sinta mais eu mesmo, pois fui quem escolheu o nome. Talvez não me sinta, mas serei quem quiser que eu seja. E serei Petrus, por enquanto. Petrus com essência de Petrus. Petrus porque o nome me seduz e me diz que posso tudo quando realmente desejo.

 

E tudo não poderia ser além do mundo, pois de alguma forma é preciso sobreviver no mundo. Embora o contato com os homens me deixe menos humano a cada dia, é preciso que existam para que eu saiba quem sou, ou o que me torno, ou o que nunca deixarei de ser. E ainda questiono, sou humano? Sim, sou humano, demasiado humano e estou no mundo. Ainda que sobrevoe pelos céus da erudição, sei que é o mundo onde experimentarei minha mais humana condição. E sei que nada é maior que a solidão do intelecto...

 

Detesto quando me sinto apegado a tudo que me cerca e detesto mais ainda quando esse apego me machuca. Detesto porque me cerceia a liberdade que tenho, pois preciso me conter para não machucar meu derredor. E assim tolho meu próprio ser interior para não corromper a massa com o rompante de minha liberdade de pensar. Tolho para que não se assustem quando virem que liberdade está em viver agora, sem nostalgia, sem planos que impeçam o presente. Tolho para que, mesmo sem querer, possa socialmente conviver, escutar e rir de piadas esdrúxulas que dizem das escatologias humanas. E ainda assim sou humano, demasiado humano para que algo humano me estranhe. Demasiado humano para fugir das leis humanas de nascer, viver e partir!

 

E mesmo Petrus passará, todavia. No momento certo ele irá partir, assim como todos: Laura, Horário, Lucas e Allan. No momento certo, após viver intensamente, ele irá deixar sua essência em mim para encontrar novos mundos que compreendam sua filosofia. Iremos, enfim.   Como todos os bípedes condenados a viver e partir sem que possam interferir nessa lei: nascer, viver e partir! E terei a liberdade de escolher entre partir e permanecer, ainda que em espírito possa apenas continuar e continuar e continuar eternamente? E terei a benção do retorno? E terei, Petrus?

 

Dormitarei na dúvida enquanto nasce em mim para depois viver em mim. Voarei e tocarei o alto, na mudança, uma vez mais...

 

Por enquanto....

 

E.

Saturday, December 22, 2007

Quinteto

 

Culpo os ares provincianos que limpam meu pulmão. Culpo a chuva e as músicas que abomino. Culpo também a inveja que enche meu peito ao ver todos casados e a celebrar os filhos que possuem. Culpo a simplicidade e a busca do aprimoramento, mesmo quando o fim é a única certeza que possuem. Culpo o sol a pino e os salgados servidos com refrigerantes da região. Culpo o carinho materno e os telefonemas familiares às festividades natalinas. Culpo o comércio repleto e os sorrisos que desafiam a economia... culpo a vida que possuem, que cultivam, que esperantam e jubilam.

 

E depois culparei meus livros. Culparei os fantasmas enterrados que retornam à herança. Culparei quando os busquei e os tornei vivos. Culparei a sinceridade com que me olhavam e pediam socorro. Culparei minha ignorância das palavras curtas e pensamentos retos.

 

Assim, para celebrar, terei apenas o quinteto abominável que ainda não culparei para que não existam em mim: Axé, funk, sertanejo, rap e forró.

 

Em paz,

 

(sem nome)

Tuesday, December 18, 2007

Colóquio

Não saberia a distância entre a filosofia e a poesia sacra. Não saberia sequer se poderia, com minhas tertúlias vespertinas, ter meu nome Petrus ou Paulus... ou mesmo retornar ao continente e saudar meus deuses de outrora.

 

Há dias em que tudo não passa de poesia e Pessoa invade meus olhos para, ao som de Guardador de Rebanhos, cantar meu sentimento frugal: "Não acredito em Deus porque nunca o vi..." E quando solto meu brado, percebo que nunca estive no mundo. E Pessoa se vai...

 

Não vou retornar aos vazios. Recuso-me meus vazios. Minhas letras dizem de epifanias nunca vividas, nunca sentidas. Há fantasmas por toda parte de meu ser que reclamam por atenção e outros que se perdem nos dias em que me cerco de livros e letras para passar o tempo. Eu nunca estive no mundo.

 

Disse uma vez um pequeno que sua garota veio pela internet. O outro, dizia sobre honras de pelos pubianos nunca aparados. E riam, inebriados pelo mundo, enquanto em silêncio eu buscava de Petrus e Paulus um sentido não vivido. E não sou do mundo. E não sou da vida. E não sou, por infortúnio, a mesma meretriz de antes que se fechava nas casas de tolerância.

 

E onde está o que sou se tudo o que sou dissolve-se em contato à realidade? Onde está o real se o que vejo vai-se ao vento quando o sol se vem? Já não sei!

 

A única certeza que tenho é da finidade... e isso dói.

 

Até logo,

 

(sem nome)

Sunday, December 02, 2007

Descanse em Paz... velho jovem


Nem sempre o alívio vem imediatamente após a ingestão do remédio e isso é o que há de mais assustador. Eliminam-se os sintomas, mas as causas dos dores ainda estão ali, latentes para serem combatidas pelos espíritos mais fortes... e isso é um saco! Se o corpo é liberto do mal que o assola, rendemo-nos solitários para combater as causas mais bizarras que nascem dos lugares mais recônditos do ser. Nossa responsabilidade se apresenta crua e nos chama a resolver problemas longínquos que pensávamos nunca existir.

 

Exatamente agora sei porque as aspirinas são tão comuns: elas nada fazem senão aliviar uma dor presente que pode atrapalhar o cotidiano. E como sinto falta do cotidiano e do medianismo que habita as ruas. Como sinto falta das expressões tacanhas que habitam o mundo e mergulham seus viventes em seus prazeres sem contestar origens e conseqüências! Como sinto falta da mediocridade que alegra os que não percebem os malefícios da descoberta, da "pílula" que o liberta da Matrix de ilusões capaz de satisfazer até o mais exigente dos seres...

 

Exatamente agora me recuso a chorar quando vejo quem sou. Exatamente agora preciso de todos os domingos que desenhei e dos poemas que escrevi para retornar à fantasia de minhas aspirinas, de minhas crenças sem razões e atos impensados que cometia em nome do esquecimento! Exatamente agora gostaria de não viver e descobrir quem sou...

 

Mas o tempo é inexorável amigo e sempre nos arrebata em direção à Lei. É hora de reconstruir e aprender conviver com a descoberta e deixar "de ser menino e fazer as coisas de menino". Calemo-nos nesse instante e façamos um minuto de silêncio: descanse em paz velho jovem!

 

E.