Friday, January 11, 2008

O nada

 

Há um silêncio negro que me corta o corpo de maneira que eu perceba o quanto estou só. Não uma solidão apenas física, ilustrada por meu quarto vazio e sem camas, mas uma dor intensa, moral, que me retira qualquer alegria que possa existir. Uma solidão sem vontade, onde o desejo se esvai e a única atração que tenho é de calar-me nesse escuro e permanecer inerte como se fosse partir da vida.

 

Já não me recordo do riso que possa ter tido, assim como também não sei de efêmeros sonhos que tenham se passado. Nada me seduz e o que faço é comer, num prazer oral desmedido, para que assim o tempo se vá rapidamente. E assim aumentei dez quilos como resposta de meu corpo.

 

Estou saturado de filosofia e toda administração científica me causa pesadelos diuturnos. O tédio se instaura, como órfão permanente, e não sei mais o que posso fazer para me livrar das companhias que se aproximam sem me tirar o sentimento de solidão. Há uma necessidade desse silêncio negro, ainda que me machuque e me faça perceber a finitude de meu corpo.

 

 Nada, absolutamente, é o que vejo: o nada toma forma, manifesta-se como os mosquitos verdes que se sentam em minha pele putrefata da ignorância desse lugar enquanto me escondo no fundo de meu abrigo. Tudo me irrita e já não há prazer em caminhar de moto pelas estradas, em alta velocidade, em um desafio à gravidade. O nada permanece, me acompanha, me diz constantemente que sou parte dele e ele parte de mim.

 

Fogem-me as palavras. Fogem-se todas as citações de tudo quanto li, fogem-se meus desejos carnais e mesmo os mais belos mancebos, com falos em riste à flor da idade, me sucumbem para que me sacie em seus corpos. Foge de mim qualquer explicação teórica para o desespero, de forma que eu compreenda sua origem e possa combatê-lo como algo vil. Sinto-me frágil e sem sentido.

 

De nada adianta escrever, pois ainda assim estarei sem sentido. Ficarei, em silêncio, com o tédio e envolvido por meu nada enquanto tento ter um sono para que o tempo passe.

Sunday, January 06, 2008

Missa

Os olhos estavam carregados de morte, sabia que cedo ou tarde se perderia no lodo e barro...

Sentia a vida abaixo da batina, a castidade o castigava como feitor ao escravo,

Sua sede de sangue só seria saciada se afiasse as garras

e desnudasse todos os santos...

 

O corpo em luto se confrontava com o inimigo,

Seres vis e grotescos habitavam seus pensamentos bajulando-o de tal maneira

que Proteus, o deus das trevas, o abraçava em segredo!

Sua lascívia o arrebatava em devaneio e, no meio a missa, ofereceu o sêmen como hóstia

e seu desejo como vinho.

 

Seus olhos não viam as crianças gritando de fome e tampouco as mães que se prostituíam.

Em sua face a piedade tornara-se  tirania e  vingança contra todas as falanges angelicais.

O altar estava plúmbeo como suas meninas sedentas que procuravam presas pelo recinto,

Talvez delirasse, talvez se ocultasse de si próprio... mas vivia, ainda!

 

Precisaria de um novo corpo após a missa e de um novo regente para

 a sua orquestra íntima.

Estava sozinho, imaginava-se ausente de toda dor...

Mas não estava! O que via em suas mãos eram as lágrimas de todas as mães

e o terror de todos os pais. Era sua dor. Sua realidade. Sua vida...

 

Queria fugir e proclamar o que sentia,

Queria exórdio encontrar no escuro um  abrigo para o seu sexo,

E fugir da mentira uma vez mais...  Não podia,

Falava mais alto os olhos fiéis que o acompanhavam em pensamentos

e clamavam em silêncio pelo silêncio interior. Eram víboras. Eram homens.

 

E no fim da missa seus braços fortes levantariam crianças desejadas em segredo

e apalpariam o sexo de todos companheiros.

A ilusão cegaria a todos,

Talvez soubessem da mentira,

Mas a manteriam mais uma vez...

Com o silêncio de todos os santos

E o clamor de todos os anjos!


Thursday, January 03, 2008

Simples demais


Tudo começa pelo olhar. Ela usa um tênis velho, uma camiseta surrada e uma saia feita de barra de calça de veludo da tia. Não sei exatamente que tipo de veludo ou de gosto ela tem, mas interpreto no olhar que é apenas um contato. Ela diz sobre a combinação de chocolate e canela que irá desfrutar no intervalo e eu digo que prefiro morango com sorvete ou iogurte natural. E tudo é muito natural: o olhar, o tênis e o jeito como eu olho quando ela não está olhando. Acredito que existe algo além do contato.

 

Também lhe contei sobre meu besouro de estimação. Ela riu sem graça e disse ter um gato, pois isso é mais comum. Eu a acho comum. Incrivelmente comum e adorável. Às vezes me pergunto o que fui fazer na USP senão encontrá-la. Ela não sabe. O que sabe é que há muitos ao seu redor e qualquer um pode ser escolhido, qualquer outro, qualquer que seja simplesmente comum...

 

Ela cantarola algo e brinca com os cachinhos do cabelo enquanto espera seu chocolate com canela. Vejo aquele garoto de sardas que se aproxima e faz a corte. Ela pára, repousa a xícara e lhe dá um afago no rosto. Ele sai triunfante, vermelho e submisso para se perder em meio à confusão do intervalo. Ela sorri, suave, e limpa os lábios com o guardanapo antes de sair de braços com um outro de óculos, espinhas pelo rosto e cabelo penteado com gel.

 

Quando falamos de música o seu comum tornou-se distante de mim. Ela conhece compositores e discute melodias enquanto eu me perco entre a MPB de Maurício Ranieri. Seu sorriso agora foi forte e me cortou por dentro. Senti-se estranho: pelo meu besouro, meu gosto de sorvete e minha música simples demais. Nunca lhe seria suficiente.

 

É hora de voltar. Entramos. Sentamo-nos próximos e continuamos a estudar: ela em seu mundo comum, rodeada de súditos e eu, o mortal, preso ao que penso e sem entender aquele primeiro olhar...

 

[E.]