Sunday, February 10, 2008

A despedida do peixe

Há uma pequena abertura no aquário da sala, por onde fugiu meu peixe. Embora ele fosse eminentemente cinza, seu dourado se destacava entre os móveis e a porcelana branca do armário.  Ao perceber sua ausência, tive um pequeno aperto no peito. Ele partiu. Agora minha casa está vazia, a velha cadeira de balanço onde ficava por oras a admirá-lo parece sem sentido e necessidade. Falta o cinza do peixe, o seu dourado e a certeza de que toda manhã se renovaria.

Não amanheceu essa noite. Não houve uma renovação de atmosfera e as flores que ontem estavam a enfeitar minhas roupas murcharam pela ausência da luz do peixe. É como se o aperto de meu peito parasse, quando ele estivesse em mim. É como se minha vida fosse poupada, tivesse uma razão de ser ao alimentá-lo todos os dias.

Abro a geladeira e não sinto a fome me visitar. Tudo gira, não reconheço minha imagem e aos poucos me desconcerto em mim. Como aquela música. Como aquela diferença entre tudo o que era comum. Meu peixe fugiu. Parte de mim fugiu. Minha música fugiu. Sua foto no canto da prateleira está distante. A própria vida que tinha, está distante.

Vou tirar as flores do vaso, tirar minha roupa da atmosfera e brindar o branco de minha sala com uma saudade de quando estávamos no Velho Mundo. Grande viagem. Conhecemos Veneza e o Sena sempre pareceu mais belo, quando admirado dos cafés parisienses onde relembrávamos da poesia de Pessoa. Ah, Pessoa... o Tejo e a saudade de sua família!

Antes de ir, ele deixou um bilhete com a última canção que tivemos juntos. Lembrou-se da primeira voz que soltou nosso riso e me emocionou com a caligrafia singela. Ele tinha anseio de novos oceanos e de uma vida fora do aquário. Ele tinha anseio de encontrar a si mesmo em mares de fúria e calmaria, longe da rotina de móveis e porcelanas que tiravam seu dourado pelo cinza.

Acho que consigo entender minha dor e aceitar sua distância: meu peixe era livre, ainda na prisão de cristal. Seu canto aumentava ao sabor de sua consciência de liberdade. Seu canto o fazia ímpar e mesmo os objetos o saudavam a majestade. Era o meu peixe, belo, livre. Hoje, é uma lembrança que me leva às lágrimas na casa vazia...

Saturday, February 02, 2008

A Bela e a Rosa

As tardes do centro sempre são povoadas por seres retumbantes de luz. Brilhos e paetês cobrem as belas que se mostram ao crepúsculo, ávidas por serem admiradas e, ao mesmo tempo, tomadas pelos seres que as admiram. São as belas do centro: as bacantes. Usam grandes sapatos com saltos, vestidos curtos e coloridos com pequenos truques que escondem o que carregam no íntimo.

 

Ontem, pela avenida principal, uma das belas caminhava impávida, olhando intensamente para seu reflexo no pequeno espelho, como se em cada rosto que encontrasse pela rua o avistasse fulgurante. Suas curvas finas se contrastavam com o frio das ruas, por onde seus pensamentos tomavam as formas místicas de seu desejo interior. Usava óculos grandes, unhas imensas e bem pintadas, dedos cobertos de anéis e outras jóias dignas de sua classe.

 

Mesmo quando tropeçava nos paralelepípedos, mantinha sua pose altiva, capaz de conduzir o último dos distraídos a um banquete real... Tivesse asas e voaria como Ícaro, a buscar sua Vênus para saudá-la no Olimpo, todavia, as únicas ferramentas de vôo eram suas costas marcadas do tempo em que desconhecia sua própria natureza. Mas era Bela, sobretudo.

 

Enquanto continuava sua odisséia entre as fumaças de carros e seu dissimulado dissabor por estar sozinha, parou por um instante diante de um edifício, onde a reluzir singela, uma pequena rosa concorria em sua beleza para também ser admirada. Uma única flor, imponente, a brilhar como Fênix entre os lixos citadinos. A Bela e a flor.

 

Uma rainha carmesim que imperava majestosa, não obstante os súditos que compartilhavam das pedras e espinhos do cenário. A Bela, impassível, não viu quando os moradores se aproximaram da sacada: embevecidos a invejar sua ousadia, cobiçavam seus lábios aumentados em pintura e suas sombras brilhantes. Cobiçavam também seus ombros largos e sua voz pastosa, viciada em cigarros baratos dos lugares onde dançava. Almejavam à sua liberdade, como fôlego para vida que não tinham.

 

De repente, a Bela amarra seus cabelos em um rabo e salta o portão. Vai de encontro a rosa e a arrebata, vitoriosa, de meio dos espinhos e pedras do jardim. A dama de vermelho, a pingar ainda o orvalho matutino, une-se à sua dona sob olhares tantos de um protesto mudo de súditos frustrados. A Bela retorna ao portão, solta seus cabelos e neles pousa sua flor.

 

A Bela e a rosa: traziam no âmago a simultaneidade das almas que escondem seu segredo, numa cidade fria, de pessoas frias, numa tarde fria. De vestes curtas no vermelho sangue da rosa e em suas louras mechas, a bela desfilava triunfante, pela cidade de Morpheu... a brilhar e brilhar...  a Bela e a rosa!

 

Bea