Wednesday, March 26, 2008

Parte

Não me lembro de quando deixei de fazer parte. Talvez me faltem as datas e as ocorrências, mas, sobretudo, falta-me o entendimento para saber que estou "de fora". É estranho: todos param e se envolvem em cumprimentos singelos, com beijos no rosto e abraços sentidos como se fossem uma própria família de que não posso mais pertencer.

 

Eles se encorajam e freqüentam a escola que podem, falam de suas dores e dissidências e atribuem ao acaso a ausência que possuem. São tolos e felizes, vazios e sem as nuances dos que pertencem à alta classe. Invejo-os por não fazer parte. Invejo-os porque não recebo seus beijos e tampouco sei do que sentem sozinhos. Invejo-os porque me cumprimentam formalmente e atribuem à sorte a sorte que tive de sair. É cedo e ainda não sei por onde andei.

 

Ao chegar a minha casa percebo uma certeza suave que entra pela porta junto à solidão do outono. Há um vento doce que vem do norte e traz em si a mácula da nova vida que tenho. Uma nova vida e um novo sentir. A saudade perde o sentido, de repente, enquanto uma nova canção de James Blunt enche-me a sala. Abro uma garrafa de vinho francês enquanto acompanho a música e sinto-me levemente livre e feliz. Troco por Chopin e há uma nova vontade em mim. A solidão se intensifica e sinta falta dos passeis de Paris, Roma e Barcelona.

 

Ainda vejo o mesmo perfume do navio, a mesma flâmula dos marinheiros que me acompanharam em passeios silenciosos pelo mar e pelas cidades litorâneas. E Chopin domina o ambiente, o vinho faz efeito e já não me importo com os beijos de que não faço parte. Já não me importo por estar de fora e, sonolento, recosto lasso e me deixo envolver pela distância.

 

Não faço parte de lá, mas aqui me sinto livre.