Wednesday, June 25, 2008

Salomão Negão


"Seu nome era Salomão. Não como aquele do livro sagrado, que tinha como pressuposto uma sabedoria divina. Era Salomão na simplicidade. Na ignorância. Salomão negão. Era quase um trocadilho. Era quase uma realidade que se expressa em seus gestos toscos da periferia que habitava.

 

Eu o reconheci na piscina como alguém da região. Ele andava tranqüilamente pelo local, exibindo-se como uma pequena mercadoria que tinha entre as pernas mais que uma ferramenta de trabalho. Era negro. Tão alto quanto rebelde. Tão quente quando o calor da piscina e os gestos obscenos que fazia para atrair a freguesia.

 

Ele me olhou profundamente e sorriu como animal. Ele demonstrava um cio em que me reconhecia. Ele sabia de meus desejos e, fortunadamente, envolvia-me em uma crosta de lascívia que tanto me excitava. Salomão. Salomão negão. Alto e quente. Magro e feio como são os que habitam o longínquo leste da cidade.

 

O SESC estava inabitado quando finalmente me aproximei. Ele sorriu novamente e hesitei em retribuir o gesto repentino com que me tomou. Ele me fez de presa, levou-me a um canto qualquer e copulou-me tão imediatamente quanto possível aos animais no cio. Fez-me de fêmea, de conquista, de utilidade por um momento.

 

Deixei-me conduzir pelo momento. E por outro. E por outros tantos durante os meses que se seguiram. Ele fazia acrobacias e tomava-me com uma violência desejada. Ele penetrava-me com tanta força e maestria que me sentia possuído por seres diferentes a cada vez. Tocava-me e abria-me repetidamente. Cuspia-me e penetrava-me uma vez mais enquanto gritava em um misto de prazer e dor. Salomão. Salomão, negão. Salomão que falava pouco e errado. Que gostava de forró e ritmos próprios dos que freqüentavam lugares ermos para lembrarem as origens.

 

Um dia cansei-me de Salomão. Precisava experimentar outros ritmos e me esquecer de que pertencia àquele mundo. Cansei-me de ser negão. Tão quanto Salomão. Cansei-me do extremo leste, da violência amável com que me possuía. Cansei-me de que éramos e arrisquei por outros caminhos.

 

Ainda sinto por Salomão negão. E sinto ainda mais por sentir que em mim ainda insiste o desejo. O desejo que sou. O desejo que tenho."


Wednesday, June 18, 2008

A Dança do Fogo

Meus armários foram abertos. Joguei fora tudo o que não mais usaria. Joguei fora tudo o que me faria recordar a fraqueza e a dor. Perdi com isso, mas aprendi.

Ontem estava solitário e contratei uma puta para massagear minhas costas. Ela me ofendeu, mas eu não me defendi. Senti-me irracional e sujo, como se isso fosse possível.

Descobri que ela tinha apenas isso a oferecer: uma cantada barata e um pouco mais que mãos para massagear minhas costas. Ela não era sadia e tampouco merecia meu respeito.

A bandida merecia a morte e assim será feito. A bandida merecia com que os céus a cegasse, mas não desejo essa benção ao seu espírito. Rezarei para que tenha um dia um encontro com a luz, assim saberá o mal que fez.

Colhi de meu jardim o amargo de suas palavras, mas aprendi com elas. Hoje estou forte, aprendi a rir e coloquei uma fita no pescoço. Talvez isso simbolize a morte da puta. Talvez seja apenas uma fita que sobrou do incêndio de minha casa.

Coloquei fogo na casa. Incendiei tudo o que não mais usaria de meu armário. Os vizinhos chamaram o síndico enquanto eu dançava em volta da fogueira. O síndico ameaçou chamar os bombeiros. A fumaça infestou todo o andar. Minha dor era queimada e todo o andar sentia o cheiro da carne fresca queimada. A carne da puta. A carne do meu erro e da minha solidão.

A confusão foi instaurada, mas eu me recuperei.

A puta jaz em um saco de lixo cheio de cinzas e meu humor finalmente retornou...

Abraços,

De mim

P.s.: Conseguiram chegar em casa antes do término do incêndio, logo ainda restou algo além das cinzas. Mas a puta foi incendiada e morreu!