Friday, July 04, 2008

O cachecol

Eu nunca havia conhecido uma ex-puta.  Não sabia ao certo se elas existiam, ou se eram apenas menções honrosas usadas em ofensas às mães. E conheci Cleuza. Conheci Cleuza sem saber quem era.

Morava nas vizinhanças do bairro. Sempre a via recatada, calada. Tinha um ar quase triste, quase discreto. Era uma pessoa quase comum. Sempre quase. Morava com seu marido, Nélio, e seu pequeno cão, cujo nome me olvidei. Sempre me esqueço do nome das coisas. Das pessoas. Mas era Cleuza mesmo seu nome. Seu nome de casada, de puta.

Ela tinha um olhar sereno e falava de suas bromélias, enquanto costurava. Ela fazia receitas de milho como ninguém, cuidava dos filhos das vizinhas e quase não saía de casa durante o dia. Cleuza era assim mesmo: boa vizinha, boa costureira e uma boa mão para pamonha.

Um dia, em uma festa de família, passei a observar Cleuza. Foi então que percebi o quanto se continha no papel que vivia. Ela escondia seus olhares de soslaio aos solteiros e discretamente media os casados. Tempos depois eu percebi que era algo mais em sua essência, algo que ela mesmo desconhecia e sabia: era puta.

Como na ativa, havia o mesmo desejo, a mesma intenção ainda que escondida nas pamonhas que fazia com esmero, com carinho, com medidas milimétricas na palha que dobrava antes de encher com o caldo de milho ralado. Como no jeito fraternal com que cuidava das crianças e brincava com seu cão. Como nos longos vestidos que escondiam seu corpo e a maquiagem discreta que raramente usava ao ir a missa.

Aos poucos passei a vigiá-la. A observá-la enquanto lavava a calçada, varria a varanda e limpava as crianças após brincarem com barro. Aproximei-me e passei aos poucos a freqüentar sua casa, sua rotina, seu cotidiano. Tornei-me amigo de seu Nélio e aprendi com ela algumas receitas de milho. Alguns cuidados com as bromélias. Algumas dicas de costura.

Não precisei que me dissesse de seu passado. Na intimidade, seu gesto lhe denunciava o íntimo. Sua mão bem cuidada e as ervas com que temperava. Seu sorriso contido, quando a gargalhada lhe vinha à garganta... ela se continha para não demonstrar quem fora, quem era e sempre foi! Cleuza, Cleuza...

Quando meu irmão fez anos ela deu-lhe em bom presente. Um cachecol feito à mão, de tricô seco e marrom. Meu irmão ergueu-o como troféu e mamãe se preocupou. Era um cachecol caro, raro, sensual. Era um cachecol fino e antigo. Meu irmão agradeceu e saiu para brincar com os amigos, celebrando seus treze anos bem vividos... foi então que percebi! Era esse seu segredo. Era esse seu destino: ela cuidava dos meninos. Ela cuidava de quem era em essência e assim nunca deixou de ser.

Temi por descobrir e me afastei. Temi por ela, por seu Nélio e seu cão. Calei-me e resolvi apenas cumprimentá-la, de longe, na missa. Ela continuava com seu olhar triste, seu jeito discreto. Mas se alguém se aproximasse, veria em seus olhos uma luz marota, sedenta e com uma paixão que a consumia...

Laura P.