Sunday, November 23, 2008

Delivery

Sabia que em alguns minutos seria o fim. Aquele incômodo seria finito e se sentiria leve e em maior paz. Fechou os olhos e as lágrimas caíram livremente. Um pequeno soluço e a certeza de que tudo estaria bem. Resignado deixou-se conduzir. Nu sobre a mesa fria o pulsar tomava fôlego e outras mãos seguravam as suas. Outras mãos tiravam-lhe o sono, as veias, o soro e algo para que não sentisse tanta dor. Estava sóbrio. Sóbrio e lúcido como antes. Sóbrio e cheio de uma esperança viva de que em alguns minutos seria o fim.

Talvez não mentisse mais. Não diria a si mesmo que nunca aconteceu. Não diria de problemas desnudos, criados em sua imaginação quando negava sua intenção. Quando dizia que era farsa a realidade que sempre teve, o sentimento que sempre teve e a vontade que sempre negou. Lembrou-se da primeira vez. Lembrou-se de quando se concebeu. Do coito e sua entrega plena àquele que o tirou das trevas do medo. Das trevas da dúvida do que era e sempre foi.

Suas comparações esdrúxulas chegariam ao fim: nove meses. Nove meses em que acomodou em seu interior aquele fruto da entrega. O fruto da sua auto-descoberta sob as estrelas no rio. Sob a lua minguante, o som das águas e o cigarro apagado em um vinho qualquer. E ainda lembrava-se dele, daquele. Daquele que o conhecendo o fez homem. O fez livre para vivenciar sua natureza sem que fugisse do que tinha. Sem que se afastasse das libélulas que incendiavam suas camas e saciavam seus hormônios. Ele e aquele que juntos faziam par às tantas outras que habitavam o vazio. O vazio onde ficam todas que não compreendem a natureza deles. Deles que quando juntos se tornavam apenas um.

E o fruto deles pairava ali, sob a luz e os cateteres. Agulhas e ansiedades para o milagre do nascimento. Da descoberta. Do reencontro. Ele viria ao seu encontro. Seguraria sua mão o tempo todo. Soltaria um riso tímido, um riso pleno, um riso vivo. Ambos partilhavam do segredo. Partilhavam da descoberta. Do reencontro. Do milagre. Sabiam dos problemas desnudos e da farsa superada. Das mentiras de negativas de nunca mais. Das idas e vindas de nunca mais. Da vontade de verdade de nunca mais. E ansioso ele esperava. Segurava a respiração sob o bip das máquinas. Das agulhas. Das máscaras de tantos que ali estavam.

Ele chegava. Eis que algo vem e suas mãos se seguram fortes. Tão fortes como quando se conheceram. Como quando se afastaram e voltaram. Como quando se aproximaram para que ambos resistissem. Ao pecado. Ao desejo. Ao proibido do prazer. Mas é algo que vem e sentem o alívio advento do incomodo. Aos poucos a forma se vai e novamente se olham. Se beijam e saúdam o choro que se espalha por todo o lado. Ele está ali.

Emocionados se abraçam com os olhos em silêncio. Em reverência se abaixam ao que nasce e percebem a vida que criaram. Ele e aquele. Juntos. Em um e com um.



E.
Nov., 23 – 1:56 AM

Sunday, November 16, 2008

Fluir

Ela fechou os olhos lentamente e deixou-se sangrar. Cerrou-se internamente para que o sangue fluísse de si. Cada gota a se esvaír de seu interior como uma lembrança que ia e vinha. Como uma vida que suspirava e transpirava em si. Ela suavemente se permitia, se conduzia enquanto o sangue vertia de si.

Sentia o cheiro de Anne. O doce sabor da juventude de Anne ainda corria em suas veias. Anne, que em delírios tomava seu amor para que se sentisse viva e feliz. Era Anne que saía de suas entranhas enquanto sonhava ali, perdida em um passado que não sabia esquecer.

Anne e Su. Su e Anne. Como se tolerou enganar-se tanto tempo. Como pudera amar tão profundamente aquela que profanava sua mãe. Su. Lágrimas correram livre por seu rosto. Lágrimas que cortavam e dividiam sua angústia. Onde estava? Onde se poderia perder senão em si mesma? Fugitiva. Distante por não aceitar quem era. E era como Anne. Jovem como Anne. Tão livre e jovem que ali sentia a vida pela primeira vez.

Olhou novamente seu ventre. Suas coxas vermelhas pela rabeca: sorriu. Entre lágrimas se viu no incêndio. A veneziana quebrada por onde sua mãe se retirou. Ele, o padrasto, a ameaçá-la entre gritos. Ele, que não compreendia o amor de Anne e Su. Que não se entregaria a perda. A perda de Su, a mãe, para Anne, a amante.

De repente notou-se nua. Olhou o chão e viu sua imagem refletida no fluxo quente de si. Riu. Era mulher. Tornava-se mulher aos doze anos. Juntou seus cabelos em um pequeno gesto. Apanhou de papel e limpou-se devagar. Era preciso continuar. Era preciso sair e celebrar a juventude. A juventude que Su tomava de Anne. A juventude que ela mesma possuía de Anne. A juventude dos doze anos e de seu primeiro catamênio.

Eram felizes juntas. Cozinhavam tacos e iam a saraus. Diziam sobre a vida aos 30, mas Su não tinha 30. Anne era 20 e ela doze. Sim, apenas doze. Doze sozinha no vestiário feminino. Aos doze, com a lembrança de Anne e Su juntas, rindo ao vento na praia. No churrasco de natal e nos brinquedos do parque.

Refez-se e parou para lavar as mãos. Refez-se em uma nova maquiagem, clara, bela para uma jovem de 20. Desejou ter 20 anos. Desejou ser Su, a mãe. Desejou ser Anne, a amante. Mas era apenas ela. Repetiu que era apenas si mesma. Que era jovem e lúdica. Que tinha desejos infantis. Que tinha cheiro infantil. Repetiu uma vez mais e quis acreditar nisso. Repetiu, saiu célere e perdeu-se entre as pessoas no shopping.