Sunday, May 31, 2009

Ana

Penteava seus cabelos preguiçosamente a se mirar no espelho. Tinha um viço profundo, distante do tempo em que ainda não se sabia viva, não se sabia capaz dessa liberdade a se exaurir dos poros quase que involuntariamente.

Olhos grandes e expressivos, lembra-se. Lábios carnudos, firmes e de um vermelho incomum. Amou-se enquanto se penteava. Amou-se tão profunda e lentamente que por um segundo sentiu-se transportar ao tempo recordado. Viu-se. Viu-se tão nítida que se emocionou. Viu-se tão viva que se quis e se quis tanto e tanto que se pôs a chorar.

Ana, chamou-se a si mesma. Ana de Ana da igreja que foi mãe de sua mãe. Considerou-se filha da virgem. Da virgem que tanto lhe acompanhou nas noites em que chorou sorrateira escondida de todos. Que se escondeu de todos que apontavam seu pecado. Que apontavam Ana por ser João.

Voltou. Um instante mudo lhe mareou os olhos. Corrigiu sua maquiagem e sorriu leve. Quis-se novamente. Não se deixaria abater pelos que condenavam seu amor.

Desceu as escadas, cumprimentou a servente do prédio e ganhou a rua. Ansiava pelo encontro e aquele jantar. Ansiava por um gesto de cavalheirismo e o telefonema do dia anterior a encheu de esperança. A esperança de ser Ana sem medo, sem culpa, sem mácula. Sorriu leve uma vez mais. Sonhava enquanto se amava: profunda e lentamente.

Passou pela marquise, subiu a travessa e chegou à praça. Ele a esperava. Ele tomou-lhe a mão e a beijou. Ela enrubesceu. Tímida. Leve e viça sentia-se no mundo. Viva. Sem mácula: Ana, mãe de sua mãe.

Entrou no carro e tocou o crucifixo em seu peito. O sol se punha ao longe e a medida em que iam o seu cabelo esvoaçava. Vívida. Feliz.

Esqueceu-se de tudo. Olhou seu companheiro ao lado e sorriu novamente. Tocou-lhe o braço, o rosto, as mãos. Amou-se. Amou-o.

E.