Monday, June 22, 2009

Fausto

...e ainda que eu quisesse, não lhe poderia responder com sinceridade. Naquele momento eu me sentia a própria dor, eu me sentia a própria angústia. A intensidade com que vivia me fez pensar em Fausto, em sua exacerbação de sentimentos e sua obsessão por construir. Não que eu tivesse em mim o Diabo para dar-me o que pedi, mas o percebia na sua mais nobre clareza, em cada centímetro de meu egoísmo, de minha vaidade, de meu orgulho.

 

Eu era o Diabo em mim e poderia amar-me. Doce ou amargo, tinha ambos sem julgamentos que pudessem corromper a minha essência, a minha unidade, o meu ser. Quis remover a máscara e já não faria diferença. Eu não era aquela máscara, mas aquela máscara se tornou parte de mim. Sim, eu a havia construído e ela nada mais foi do que reflexo do que tinha em meu interior.

 

E ele se calou com meu silêncio, levantou-se e fez menção de sair. Impedi-o por um momento. Eu o queria por perto, sabia disso. Disse-lhe que ficasse, pois ainda que não o quisesse como amigo, o teria como amante. Menti. Nossas frenéticas fricções eram absolutas, cálidas e perfeitas para que perdurasse mais que um contato, mas não queria a sua alma. Não haveríamos de dividir qualquer alma e eu não lhe poderia responder com sinceridade.

 

Naquela dor sublime e angustiante, abracei-o e voltamos a nos deitar.

 

E.

Tuesday, June 02, 2009

A queda

Aos poucos os sons da noite se rendiam. Aos poucos, enquanto se entregava a Morfeu, silenciava seus próprios pensamentos. Como se sua mente se calasse, leve. Como se o seu corpo, enfim, lhe respondesse. Uma energia branda deu vida aos seus braços, suas pernas. Abriu os olhos e, em silêncio, levantou-se deixando sobre a cama o seu corpo inerte.

Recostou-se no parapeito e viu, ao longe, as vias vazias de trânsito. Abaixo. Milhas de asfalto tão negros, tão longínquos e tão belos quanto o que sentia. Leve. Sentia-se tão leve quanto a brisa que o envolvia. Seu corpo lasso sobre a cama em um sorriso largo e seu eu, à janela, intencionava o vôo noturno.

Tentou-se a si mesmo. Levantou-se e parou a fitar a imensidão à frente, abaixo. Saltou. Caiu imponente em direção ao asfalto. Negro. Belo e vazio. Caiu. Caía. À medida que ia, esquecia-se de sua vida. Da vida que tinha. Da vida que teve. Da vida que teria.

Caía rápido e logo se logrou a subir. Ganhou altura, ganhou força. Passou por entre diversos edifícios e viu vida. Orgulhou-se do que fazia. Do que via. Do vôo libertador que lhe fez planar sobre todas as dores e imobilidade de seu corpo.

Desceu em um ponto próximo às casas noturnas. Encantou-se com a música, a fumaça dos cigarros e as pessoas apressadas que iam e viam embrulhadas em suas vidas loucas. Em suas vidas notívagas e de prazeres. Encantou-se. Desejou ser uma delas: fútil e ágil. Simples e sem destino senão beber-se e dançar-se. Desejou-as, mas retomou de seu destino e saiu.

O lago parecia um grande espelho, quando o sobrevoou. Via a lua e em seu centro seu próprio reflexo. Não se conteve. De repente sentiu-se profundamente sozinho. Profundamente distante e feliz. Desceu e pairou suave sobre seu reflexo no lago. Volitava. Mirava-se e, embevecido, animava-se com o que via. Como Narciso, tocava com as mãos seu rosto, seu peito, seus cabelos. Engrandecia-se e ria, sozinho, a pairar sobre as águas em seu próprio reflexo... em sua própria imagem, leve. Sem limites. Sem amarras. Sem tempo!

Porém deveria voltar. E a aurora, imponente, daria fim a sua catarse. Voltaria sobre o asfalto negro a caminho de sua prisão. De seu corpo. De sua vida. Da vida que tinha. Que teve. Que teria.

Entrou pela janela. Olhou uma vez mais seu corpo inerte e despertou.

E.