Tuesday, July 14, 2009

Caipiras

Não posso mentir que me sinto traído pelo desejo quando aspiro essa simplicidade tão tosca.

 

Não, eu não posso. Jamais poderia negar que me atrai essa sertaneja vida, essa beleza rústica que me obriga viajar.

 

Aspiro, por um momento, a fala que possuem e o jeito com que tocam.

 

Volto. E de dentro de mim percebo que sou um deles.

 

E.

Tuesday, July 07, 2009

Lucía

Lucía tinha olhos grandes e negros, como seus cabelos. Cabeleireira farta, sem corte definido que emolduravam seu rosto ao natural. Ela era natural. Algo de místico e torpe, um sorriso maroto, quase tímido, que arrancava de mim suspiros inocentes.

Perdemos contato após a adolescência, quando me mudei para capital. Manaus já era uma cidade próspera, cheia de migrantes que vinham para conhecer o fenômeno econômico. Foi no último baile, enquanto dançávamos frenéticos ao som de “L’ amour”, que a percebi bela. Um sentimento forte me veio ao peito e tudo o que via era seu nome, seu cheiro, seu som. Foi nossa despedida, sem um beijo qualquer, sem um abraço qualquer ou um sorriso de até logo como fazíamos todas as noites.

Ela continuou em Autazes. Eu lhe escrevia para dizer sobre o mundo que despontava, mas ela insistia em seus búfalos e as corridas matutinas. Lembrava-se de nossas idas ao Ribeira, quando pulávamos a cerca e mergulhávamos refrescados nas águas do Madeira. Foi uma boa infância, eu diria. E ela nunca se percebeu disso. Do sentimento que nascia. De minha admiração de sua beleza, quase selvagem, quase nativa, quase feminina.

Formei-me e passei a clinicar. Foi em Berlim, em uma temporada de inverno, que me lembrei de Lucía. Distraidamente, ao cruzar a Pariser Platz, vejo um vulto quase seu. Volto ansioso, penso que a via, mas foi apenas impressão. Fico horas a imaginá-la e todo sentimento se volta: Lucía, torpe e natural.

Não sei se há em mim alguma lembrança do que fui no tempo em que vivemos. Já não sabia se ainda havia em mim algum resquício de Autazes ou de toda criação que tive. Lembrei-me de minha mãe, que ao morrer deixou-me aos cuidados da madrinha que me levara à capital. Mamãe sempre dizia que haveria de retornar à terra natal, ainda que por um dia, para resolver o que deixei. Mamãe, sábia, já intuía que eu deixaria ali meu coração pobre, habitado pela figura de Lucía e sem qualquer outro desejo senão de possuí-la.

Após seis meses em Berlim retornei ao Amazonas: tinha que ir a Autazes.

Com o coração forte, revi cada pedaço meu naquelas ruas, estradas e pequenos córregos onde brinquei. As árvores por que passei chamavam-me lentamente, em um saudoso apelo ao que deixei ali de mim. Visitei o túmulo de mamãe, fui à velha casa onde cresci e perguntei aos roceiros se sabiam de Lucía.

Encontrei-a próxima ao Madeira, onde fizemos o último baile e despedimo-nos em silêncio. Ela, envolta em um leve pano, levantou seus olhos negros e viu-me aproximar. Tranqüila, como se estivesse a me esperar, abriu-se em um sorriso tímido, torpe, vivaz. Aguardou até que me aproximasse, tomou-me as mãos cansadas e com uma voz suave saudou-me... naquele momento, lembrei-me de mamãe e fui feliz!.

 

Elton Michael

Jul/07/2009 – 2:50 AM