Wednesday, December 30, 2009

Sou teu...

Ainda que os falos se prostem à minha frente,

Ainda que a virilidade se faça presente,

Ainda que haja mil corpos com desejos

e duas mil imagens de beleza...

Ainda que se faça silêncio em todos os corpos

e que castrem toda juventude...

Serei teu, amado amigo, serei teu!

 

Mesmo com imagens de homens,

Mesmo com o desejo dos meninos,

Mesmo com o assédio masculino,

Mesmo com as dores da saudade,

Mesmo com a nossa distancia física,

Sou teu e teu serei até o fim,

Terás meu corpo, mente e coração.

 

Serás leão e domador de minhas farsas,

o senhor que assegura minha vida,

e o ar que faz o meu viver.

Dono de meus pensamentos e

sempre do meu gozar.

Sem pudor. Por ti tenho amor.

Eu sou teu, amado amigo, eu sou teu!

 

Os falos morrem e as imagens somem,

os meninos envelhecem e partem.

Nada é eterno. Mas sou teu enquanto existir.


Michael - Maio, 18. 1995

A dulce paz...

Aconteceu novamente, Claire. Como sempre há um vento frio que entra pelos meus poros e me faz repensar se há vida. É um vento intenso, dorido, que ainda assim não me arrebata a paz! É estranho ser indiferente ao vento.


Ele, sempre ele. Ele, o outro. Como ele foram tantos, e tantos passaram. Não é a nossa sina? Não é essa nossa verdade, nossa vida? Ter o inferno no outro, porque é o outro que nos conta quem somos. E quem somos senão aquelas pequenas imagens por que nos tomam? Não somos, Claire...


Se fôssemos, nossas imagens seriam sempre as mesmas. E não são, porque o outro – assim como ele – só pode ver o que sabe, o que conhece ou o que já experimentara de fato ou por um conto que ouvira em um lugar qualquer...


Não, Claire... nossas imagens não são as mesmas. Elas são o que o outro – e ele – quer que elas sejam. Somos vítimas de nossas imagens e são elas – e somente elas – que contam aos outros o que somos (e são os outros que nos dizem!).


Mas como eu dizia, aconteceu novamente. Ele veio e me disse, de repente. Ele veio, Claire, como o próprio vento frio que entrava pelos meus poros e me fez ser eu mesmo por um momento. Ele viu, assim, uma essência que trago lá dentro, em mim e para mim. Ele me viu e reconheceu o que será em tempos, o que terá em tempos, o que sentirá... em tempos!


E, de repente, foi minha paz que saiu e se sobressaiu como algo acima de tudo. Foi minha paz, Claire, que me disse entáo finalmente quem eu era. Não a imagem, não o outro, não... foi minha paz, uma paz de certeza, de ser. Eu sou e agora, mais que nunca, tenho certeza disso...


Ele é meu inferno, porque me diz o que vê e pensa que sou... mas eu, Claire, encontrei o céu em uma paz profunda chamada indiferença...


Até a próxima,


S.


P.s.>> Não é sempre assim?

Monday, December 28, 2009

O Trem


O trem que passa, passa e passa

Não vê os patos que sobrevoam a relva,

E tampouco reconhece a asa quebrada daquele

que se desvia do bando a cair..

 

O  trem  corre.

O  pato  cai.

 

Sabe onde vai o trem,

Sabe onde cairá o pato!

 

Sem sorrisos no céu o sol escalda

E testemunha o fim:

O trem pára.

O pato cai.

Monday, December 14, 2009

Concubina, a louca

Ela tinha dedos largos, cumpridos e cheios de marcas do tempo. Do cigarro barato e dos bordéis que freqüentava no centro da Lapa. Da cabeleira vasta e vermelha, poucos fios caiam-lhe sobre as têmporas acinzentados pela escolha da vida que tinha. Poucos dentes compunham-lhe a face cansada, sua boca rota e os olhos vítreos como se mortos para a luz ofuscantes e mofos das camas onde se vendia. E se declarava concubina, a louca. Sim, em sua insanidade imaginava-se capaz de sonhos, de devaneios onde seu poder se misturava às bebidas quentes de final de noite e suas roupas, rasgadas, seu preço barato pago pelos caixeiros viajantes.

Apelidavam-lhe de bruxa. Sempre em desalinho, tentava sanar sua carência nos jogos de azar onde apostava sua indecência por moedas de barro. Dizia-se conhecedora dos segredos da vida, mas os únicos que habitavam sua mente eram das lembranças pérfidas de quando tentava exalar maldade e despertava alguma compaixão. E se declarava concubina, a louca.

Viveu até os 40 anos, quando a peste finalmente a recolheu. Em seu último suspiro, dado ao lado de uma foto, declarava-se inocente por ter dado a luz a única criatura que um dia amou...