Sunday, June 27, 2010

De agora

Enquanto meu sorriso voa pelas sombras, sua imagem paira sobre a cama e me espera. Um silêncio surdo, de cheiro acre, faz com que o tempo entre nós se torne denso e tranquilo.

 

Seus pés são marcados e mancham meu lençol. Ele se despe suavemente e diz que nunca me amaria novamente, mas se entrega apenas para que eu me machuque uma vez mais. Seus lábios contém o veneno de minha ventura e fico a imaginar mil maneiras de torturá-lo em que sinto.

 

O vento se quebra à janela e uma voz doce sai de meu pesar. Peço-lhe que me encare. Ele confessa sua ventura errante e faz com que suas lágrimas lhe salguem a face. Levanta-se, nu, e vem ao meu encontro. Afasto-me. Paro diante do batente da porta e lembro da nossa música de outono. Do dia em que na chuva escrevemos nossos nomes na árvore... Não quero ser romântico, mas ainda assim dou dois passos em direção ao seu encontro e sorrio novamente.

 

Ele volta, senta-se na cama e nada diz. Abaixa seus olhos. Percebe meu transtorno. Faz menção de se vestir, mas corro agora em seu encontro e selo seu pecado com as mãos. Beijo-o...

 

Fazemos amor intensamente. Ávidos pelo momento deixamos as mágoas e tudo o que jamais confessamos. Deixamos todas as marcas...

 

Enquanto encerramos nossos corpos, banhamo-nos a sombra do vento e apenas abandonamos, ao amanhã, o nosso pesar...

 

E. Michael – Jan-18-2006

 

Wednesday, June 02, 2010

O caçador de mariposas

O livro estava aberto sobre a escrivaninha e, ao lado, havia um pequeno retrato de sua mãe quando criança. Estranho recordar de sua mãe com uma foto tão antiga, mas sentia-se seguro por não ter que pensar em como se foi e, também, como a ausência era tão presente em seu íntimo. Por um momento eu o compreendi e emocionei-me com sua alma. E também com o livro, aberto, falando de contos de solidão e presença.

 

Era uma história curta, sobre um caçador de borboletas que passou a colecionar mariposas. O caçador dizia que a beleza das mariposas estava em que nem todos a poderiam enxergar. Um dia em suas viagens, foi convidado para um chá com a rainha das mariposas. Ao chegar ao seu castelo, percebeu que todos os soldados eram borboletas, coloridas, vívidas e de porte altamente elegante. Ao ser recebido pela rainha das mariposas, questionou-a por que da corte tão diversa e ela, complacente, responde-lhe que nenhuma beleza é real se não puder ser útil para alguém. Intrigado, ele se silencia sem entender. Pensa que sua própria luz estava em ver o belo onde todos viam falta de luz.

 

Fechei o livro e o devolvi à escrivaninha, ao lado do retrato. Saí e fui terminar o almoço porque logo Ele chegaria. Faria cenouras refogadas, salada de aspargos e um assado de batatas com cordeiro. Sei o quanto Ele estima de minha comida e dos assados tão peculiares. Sei do quanto se ocupa em suas íntimas viagens e, por mais um momento, invejei-o. Talvez Ele também tivesse a luz do caçador, convertido, que via a beleza onde ela não poderia existir. Talvez, em suas viagens, encontrou-se com sua mãe, criança, e aprendeu com ela a ser quem era.

 

Terminei e coloquei a mesa. Abri uma garrafa de vinho e servi a mim mesmo uma taça dupla. O negro rubro do vinho misturou-se à minha imagem, refletida, e vi o quanto o tempo havia passado. Ri. Um riso nervoso e quase alegre invadiu-me e pensei nos discursos sobre razão que sempre levavam-me a lugar nenhum senão ao quanto estava longe de mim, de meu silêncio, de meu prazer. Ri novamente e logo Ele chegou. Ele parou, em silêncio, e questionou-me sobre minha alegria. Calei-me. De alguma forma em silêncio dizíamos muito um ao outro. Dizíamos nada e o tudo simplesmente fluía de nós mesmos. Rimos juntos e comemos.

 

Durante o café disse-me que iria a Petrópolis, no feriado. Precisava desfrutar do clima e visitar a avó. Pedi-lhe que levasse o Pedro, nosso cão. Pedi-lhe que colocasse a louça na pia, apagasse a luz e não demorasse para dormir. Recolhi-me. De alguma forma aquele vinho me havia afetado. De alguma forma a foto e o caçador. De alguma forma eu precisaria dormir, apenas. E viajar, rir, tanto faz.

 

E.