Saturday, July 10, 2010

Respiração



Não tenho problemas com o centro da cidade. Na verdade, acho que poucas vezes tive algum problema com a cidade em si, com as coisas que a cidade oferece ou seus cheiros e particularidades. Mas hoje foi diferente. Acho que hoje, estou diferente.

Andar pela praça do correio é um desafio que exige requinte. Passar por entre inúmeras barracas a tocar o som dos salões de bairro é repugnante. Olhar nos olhos vazios das pessoas que comem seus sanduíches de cinqüenta centavos, enquanto outras se oferecem por sexo a troca de passe de metrô é a prova de que se está vivo!

Entrei em um bar qualquer e pedi o que comer. Logo atrás de mim, vestido como os outros seres da praça, entra um garoto que também pede por comida. Ele se coça com freqüência e desconfio de que tenha se utilizado de algum serviço de meretrício. Veste uma blusa azul suja e uma calça rota feita de jeans. Suas mãos são limpas e a pele é clara. Unhas bem cortadas e cabelos aparados ao ombro. Olhos fundos, também perdidos, denotam claramente o que não é. E é um garoto belo, que se perde em meio à sujeira de sua alma.

Enquanto comíamos, assistimos a Escrava Isaura. Algumas pessoas entraram para se utilizarem do banheiro. Figuras míticas, próprias de locais do Olimpo se perdem em nossos pães e arroz. Alguns trôpegos que riem da própria imagem e outro que canta ao som imaginário de sua alegria. Sorrio.

Em silêncio tínhamos um contato estabelecido. Em silêncio continuávamos a representar e a pensar em problemas nunca resolvidos: Na grana que não tínhamos e no prazer que buscávamos em corpos sem face. Percebi que voltava a se coçar. Percebi que se assustava com alguma dor que tinha e que talvez fosse febre a incerteza de sua paz. Percebi que ainda tinha fome, apesar do grande bife devorado. Percebi que tinha sede, mas pouco dinheiro para que pudesse beber.

Levantei, ainda no mesmo silêncio, e a haustos fortes me embriaguei com o cheiro da rua, da vida e do centro...

Elton Michael

Dez., 15 - 2004