Sunday, October 31, 2010

e Carmem...

Era tarde quando me sentei na poltrona, recostei-me e pensei em distrair-me durante o trajeto de volta. Levaria um tempo ou dois até que chegasse e, após a toalete noturna, estivesse novamente a repousar em meu leito. Mais um tempo e seria um novo dia, quando sol me saudaria como convite ao trabalho e tudo se iniciaria, como sempre.

 

Em meio ao burburinho, vejo quando ele se aproxima e se senta na poltrona ao lado. A sua frente, o outro se equilibrava com as bolsas de fraldas, mamadeiras e outros tantos apetrechos do pequeno. Era Carlos. Ele e Carlos que distraidamente riam a minha frente do dia que tiveram. O filho, no colo dele, dava sinais de que já dormia há um outro tempo. O chacoalhar do trem embalava seu sono, quase o meu sono, quase o nosso sono. O corpo relaxava e movia-se levemente a cada parada nas estações seguintes. Carlos sorria, mesmo em pé, embevecido pela conversa que mantinha com o outro.

 

Eram felizes e completos no que diziam, sobre o que diziam e como diziam. Havia uma alegria nos olhos de Carlos que eu desconhecia há tempos. Uma alegria muda e simples, dos que conhecem a vida e aceitam sua paz. Uma alegria de tranqüilidade, como o sono do pequeno no colo do amante. Reparei sua roupa, suas mãos e seus gestos enquanto falava. Eu quase poderia tocar aquela alegria que dele emanava, tamanha hipnose me provocava sua presença.

 

E, de repente, lembro-me de Carmen, minha amante, quando terminávamos às vésperas de ano novo. Carmem tinha um outro tempo e ainda posso ver seus olhos galantes, pretos e secos, quando se despediram de mim. Ela dizia que o tempo era o único absoluto em nossas vidas, mesmo quando pensávamos que tudo era relativo. Ela tinha uma sabedoria popular, quase simples, quase tão bela quanto ao que dizia agora Carlos, a minha frente, sobre os planos para aniversário do menino.

 

Eles saltariam na próxima estação, o tempo de viagem era curto. Um tempo preciso, mas pleno para que eu os notasse. Para que eu os visse e pudesse me lembrar de Carmem. Era estranho pensar no amor que passou enquanto celebrávamos. Era estranho pensar nas viagens que fazíamos e nas risadas que dávamos. Era estranho pensar que tudo passa, que tudo passará ou ainda poderia passar. Era estranho pensar no tempo, absoluto, que fez com que tudo não passasse de um sonho. De uma passagem. De um pequeno tempo que dividíamos uma viagem pela existência. Um tempo que ria de minha saga quase infantil de tentar contê-lo (ele, o tempo) quando ela se foi (ela, a Carmem).

 

O trem pára após anunciarem Lapa. Carlos, cuidadosamente, segura a mão dele antes que se levante com o pequeno. Há uma cumplicidade em seus olhos que os isenta de qualquer palavra agora. Em silêncio continuam sorrindo, passam por todos e caminham, juntos, em direção à saída da estação. Naquele pequeno momento, antes que o trem tivesse as portas fechadas e a viagem continuasse, percebi o quanto estava sozinho e o quanto nunca amei Carmem.

Sunday, October 24, 2010

Faz bem amar

Faz bem amar, um bem tão intenso e bom que me renova o espírito. Faz bem amar quem quer que seja, amar com intensidade, carinho, coragem.

Faz bem amar o amigo e rir do jeito engraçado com que ele brinca sozinho, com que ele fala sozinho, com que ele come um sanduíche de pasta de amendoim sem amendoim... rs

Faz bem amar aquela doce garota que nos atende no balcão da padaria e sempre tem um sorriso pela manhã, ainda que o dia tenha começado antes pelo horário de verão e todos estão ainda a dormir em suas casas.

Faz bem amar quem senta ao nosso lado no metrô ou no trem, ainda que esteja distante do ideal de companhia silenciosa que gostaramos de ter ao nosso lado. Faz bem amar...

É bom ter saudade e aprender a continuar mesmo distante. É bom sentir alegria ao receber um telefonema, ainda que em plena manhã de domingo quando dormir seria melhor que acordar... É bom amar, é bom conseguir olhar o que temos de bom mesmo quando tudo parece perdido. É bom escolher ver a beleza ainda que a tragédia nos visite. É bom acreditar que Deus existe, que Seu amor nos envolve e é isso que nos faz amar o que quer que seja.

Faz bem amar...

E.