Wednesday, November 17, 2010

Tornar-se

Há tempos eu o notava pelo campus, sempre com seu jeans surrado e sua camiseta branca, comum, que lhe marcava o tórax. Tinha os olhos escuros, cabelos curtos e a barba sempre por fazer. Um jeito moleque, de riso fácil que cativava qualquer que se aproximasse sem intenção. Ele nunca tinha intenção. Talvez lhe faltasse a malícia dos que experimentam e conhecem a maldade do mundo, dos que conhecem o mundo.


E foi na sexta, antes do feriado de todos os santos, enquanto eu caminhava absorta e perdida nos cálculos mentais de minha vida acadêmica, que eu o topei de supetão e fui lançada ao chão. Ele também quase caiu e eu, vermelha, não me cabia de vergonha. Não conseguia levantar o rosto e ouvia um dos cães a ladrar quase uníssono com o riso dele, que se divertia a mirar-me.

Tateei o chão, cega, em busca de meus óculos. Ele se inclinou e ajudava-me a levantar, repetindo sua falta de intenção. O cão, em algum lugar, continuava a ladrar e em mim um calor descia.


Quanto não quis sua aproximação e agora, ali, meu desejo crescente se perdia em um misto de vergonha de mim mesma, com minha saia de barra de calça e minhas sandálias franciscanas. Senti seu perfume e, de repente, tomada de coragem, eu lhe sorri de volta, tentando minimizar o quanto estava perturbada. Aceitei sua ajuda e, ainda bamba pelo inusitado da situação, levantei-me.


Agradeci e desculpei-me. Sentia-me desnudada, sem muita coragem de me permitir sonhar ou fantasiar com ele agora a minha frente. Adorei-o.  Um adorar mudo, sem intenção e sem o riso fácil que imaginava quando solitária. Ele me responde de pronto e sai, sem que o registro daquele encontro lhe passasse percebido. Mesmo abalada, retomei minha direção a caminhada. Tive-o próximo por um instante, mas notei que estávamos distantes e não sabia, naquilo, se poderíamos nos aproximar.


Passei da euforia ao silêncio e assim permaneci durante todo o feriado. Algo crescia em meu íntimo e eu sabia que de nada adiantaria exigir da vida que me respondesse, de imediato. Como se, de repente, eu deixasse de ser o que sempre fora para me tornar algo estava adormecido em mim, há tempos.  E mesmo sem intenção, foi ele quem me despertara em mim o que recrudescia, o que tomava forma e surgia como um novo ser, um novo mim. Ainda que eu buscasse sentido, de nada me seria possível me alimentar agora, pois eu desconhecia o alimento de que meu corpo necessitava.


O feriado terminou e voltei. A ressaca pairava sobre o campus e percebi-me a caminhar com passos firmes, eu simples e leve ao mesmo tempo. Não mais a saia de barra de calça, mas um vestido claro e longo, de decote ousado e detalhes em vermelho. Passei pela cantina em direção à quadra e sorri, sem intenção, quando um dos cães perdidos vem até mim saudando-me com seu rabo a abanar. Abaixo-me suave e brinco com suas orelhas. Meu riso vem fácil e sinto-me bem com isso. Talvez seja a flor que coloquei em meus cabelos, ou o novo adorno com que me brindo. Tornei-me...


E então o vejo em seu grupo de amigos, distante. Ao se aproximar, quase sem me reconhecer, espanta-se com meu jeito leve e meu riso fácil. Assusta-se com minha falta de intenção e apenas mira-me, suave, antes de continuar sua caminhada. Dou-me por satisfeita, pois finalmente ele me notou pelo que sou e não sabia e não pelo que sonhava em encontrar nele.


Laura P – Nov-11-2010 – 8:04 PM

Saturday, November 13, 2010

A Caixa

E deu-se durante seu aniversário de sete anos, ao abrir o presente que ganhara de sua madrinha Júlia. Ela, eufórica, perscrutava os adultos com tamanha volúpia que todos seus sentidos se assemelhavam a bocas que os devoravam com a altivez das crianças inteligentes. Ela, Ananda, buscava nos adultos alguma nesga de sentido que a arrebatasse de seu mundo onde, livre, poderia simplesmente ser. Eles, os adultos, não lhe notavam qualquer traço de anormalidade e acreditavam que eram o suficiente os antigripais durante o inverno. Diria, quem os visse, tratar-se de algo comum, mas era um ritmo distinto em que giravam as rodas de existência.


A caixa do presente era grande e púrpura, com laços dourados e fazia um barulho estranho ao balançar. Ananda ainda tentou imaginar que surpresa lhe traria aquela caixa, mas em sua infância faltavam-lhe dores para se comparar aos adultos e suas ansiedades. Sorriu e agradeceu à madrinha com um gesto quase doce, quase suave, simplesmente seu. Abraçou-se com tamanha propriedade a caixa, para surpresa de todos que esperavam que lhe abrisse o presente. Mas ela, satisfeita com a beleza da caixa, percebeu-se como uma noiva com seu buque à entrada da igreja, sozinha e possuída por seu desejo de ser algo, de ser alguém, de ser livre.


Seu estado de graça durou apenas alguns minutos. A estranheza dos adultos fez com que a mãe, que observava a distância, tomasse de seus braços o embrulho e o rasgasse para revelar o conteúdo. Assustada, não soube pela urgência se deveria sorrir ou chorar, agradecer sua mãe por esse resvalar de lucidez ou apenas, passiva, deixar com que os adultos continuassem com o ritual de seu aniversário, tão seu e tão não seu ao mesmo tempo.


A caixa possuía um conjunto de cozinha para bonecas. Constituídos em rosa, branco e amarelo, tinham o mesmo aspecto triste da cozinha de sua casa. É para que sempre se possa lembrar de sua mãe, disse-lhe a madrinha. Lacônica percebeu-se pela primeira vez que sua liberdade estava em não estar ali, em meio aos adultos, em meio ao mundo, em meio ao seu aniversário. Por um instante ela sentiu-se plena e feliz por não ser adulta. Feliz, com seus olhos vívidos a olhar para sua madrinha Júlia, num questionamento mudo se ela tinha também a mesma felicidade. E também sua mãe, e qualquer outro adulto sem nomear que via ali em seu aniversário de sete anos, onde somente ela tinha idade inferior a dois dígitos. Não obteve respostas.


Tomou da caixa e subiu lentamente a escada. Bem se viu que adorou o presente, alega sua mãe aos presentes. Naquele silêncio tácito, ela sai para curtir o que havia descoberto ali. Abraçou-se a caixa, docemente, e soube por aquele momento de sua liberdade.

 

E.

Jun-28.

Wednesday, November 10, 2010

Galinhas de Angola

Talvez as galinhas estivessem apenas com frio, isoladas na periferia e esquecidas pelos transeuntes que  não as reconheciam como parte do local. Eram apenas galinhas, diriam. Poderiam servir de alimento ou então de entretenimento aos que tivessem tempo para compreendê-las.


Tive pena delas, com frio. Compadeci da situação e das pessoas que não as viam, que talvez pela constante vida que passaram na periferia não poderiam reconhecer nenhuma imagem distante da vida que tinham. Não me achava como elas. Eu, parte da periferia e de seus cheiros, não era uma delas. Tinha uma outra imagem que fluia de mim e me fazia à parte, nesse mundo tão meu.


Aproximei-me das galinhas e tentei me comunicar, em silêncio, como se a ausência de palavras fosse o código que utilizávamos ao falar. Ajoelhei-me e as olhei com complacência. Elas, relutantes, soltavam um pio ou outro quando viravam a cabeça, desconfiadas, para que pudessem me ver de ambos os lados. Seus olhos brilhavam de frio e suas penas, eriçadas, demonstravam que sofriam pela ausência de compreensão. Assim como eu, estavam ali, mas não eram dali.


Nesse momento as desejei como se fossem parte de mim. Elas se tornaram parte de mim, eram elas eu. Estabelecemos contato e éramos, as galinhas e eu, um ser apenas naquele momento em que nossos olhos se encontraram. Um ser quando nossos desejos ficaram unidos em uma só vibração de sobrevivência.