Saturday, February 26, 2011

Redescobrir a amar


Queria que estivesse aqui, minha irmã.

É estranha essa distância entre a gente quando há tanto que gostaria de compartilhar. Quando há descobertas que gostaria de dizer e discutir horas com você para que me dissesse o quanto estou louco. Estou louco, Claire. Louco. Há tempos tenho notado minha fragilidade, uma sensação estranha que não faz sentido, que não tem sentido, que não tem motivo. O que antes era, já não mais é. Não vejo graça no que antes me retinha tanto prazer, é como se Paulo, o apóstolo, estivesse certo ao dizer que deixamos as coisas de menino quando não mais somos meninos.

Tenho um novo desejo, Claire. Um desejo vivo que pulsa em mim e toma forma: gesta em meu ventre e sobre às minhas entranhas como algo que ali sempre esteve  nunca o conheci. É algo que faz meu dia ser mais claro e minha vida mais repleta de energia... ah, Claire... quanto tempo perdido entre falos e peles que hoje não mais estão, não mais são, não mais têm importância...

Estou a redescobrir a amar, Claire. E a amar mais que o desejo, mais que a pele, mais que o falo mínimo diante do universo do corpo.

Amar que não é sentimento estático, mas é ação. Amar ao reconhecer a importância de um outro, sem que o outro seja o único objeto de meu afeto. Não há um único objeto de meu afeto. É como se tudo fosse mais claro e o que vejo são belezas, brutas ou lapidadas, a desfilar em meu cotidiano.

Como se eu quisesse tocar o outro que se senta ao meu lado no ônibus e se encosta a cochilar em meu ombro. Como se ele fosse mais que um desconhecido com sua vida, mas fosse parte da minha vida desconhecida. Como se tivéssemos contato sem que contato fosse o que fizéssemos todos os dias nos ônibus que tomamos. Não, Claire, não é apenas ele, do ônibus, que me toma o amor...

É como se amar fosse soltar essa luz adormecida e deixá-la derramar-se, perder-se, tomar-me completamente. E toco as árvores e os cães, Claire. Toco cada ser e me encho de uma alegria plena, pois sinto-me também tão amado quanto o amor de doei.

E é esse amor, Claire, que tenho sentido por cada um dos amigos que se aproximam e me abraçam. Eles não sabem, mas há em cada abraço uma troca energética tão forte que nos tornamos um, apenas um, a pendular suavemente envolvidos naquela paz. São amigos, Claire. Amigos... que vêm sem perceber que deixam em mim a marca indelével do meu próprio amor. Que levam de mim parte deles mesmo que devolvo... é Amar, Claire... amar e amor!

Mas estamos distantes, agora. Deixarei que adormeça novamente e siga, velando-se a si mesma, enquanto celebro (por enquanto) essa sensação nova de amar, amar, amar...

Um beijo doce, minha irmã.

Luis