Tuesday, March 29, 2011

Amar, verbo intransitivo

 

Claire,

 

Reli o poema de Drummond enquanto tomava conhaque, ontem, com meu cão. Há dias que paramos, cansados, e ficamos sentados com nossos cachimbos em silêncio, a meditar em tudo o quanto fizemos ultimamente. Discutimos horas, meu cão e eu, a pensar no quanto amar nos torna o que somos, ainda que pela nossa natureza, nos limitamos a conceituar o amor e passamos a vida sem amar.   

 

Por que circundamos o amor no outro quando podemos deixá-lo fluir de nós? Por que, Claire, nos afastamos de Deus e nos culpamos por cada ato que fazemos? Por que nos limitamos tanto e não nos permitimos experimentar?

 

Nenhum de nós tivemos respostas, Claire. Meu cão silenciava-se por não saber o que dizer quando questiono a culpa. O que é a culpa senão o limite que nos impomos? O que é a culpa senão o que aceitamos para pertencer a um grupo? O que é a culpa, Claire, senão a negação de amar?

 

Como amar, minha irmã, se não conseguimos aceitar o que somos - e quem somos - senão por um modelo externo do que temos? Temos um mundo interno, Claire, e o negamos em nome do modelo que vemos. Em nome de um modelo que seguimos ao preço de pertencermos a algo: negamos a divindade, negamos o Deus, negamos a nós mesmos porque somente sendo o modelo podemos pertencer a um grupo.

 

Amar em grupo: amar em mim o outro. Pregamos essa ideia e não a reconhecemos. Não reconhecemos o outro senão estiver no modelo do que somos. E culpamos. Imputamos a culpa como forma de des-culpa. E a des-culpa explica: ao outro por não estar no modelo, por não ser o modelo. Ainda não é tempo, ainda não está pronto. Como se fosse possível estar pronto em algum momento, se tornar pronto em algum momento, ser diferente em algum momento.

 

Foi quando meu cão sorriu, Claire. Condescendente, sorriu por perceber que o amar de que falava não existiria fora de mim. Amar, Claire, é um estado de espírito e não exige algo como objeto de amor. Elegimos algo para canalizar o amor que temos, mas não reconhecemos o amor que temos, o amor que somos. Porque não reconhecemos Deus e acreditamos que o que fazemos está fora de Deus. O que somos e o desejo que sentimos.

 

Não existe amor igual ou amor amigo: existe o amor, existe o amar. Mas como amar sem gênero se temos o gênero em nós? Como amar o igual? Como aceitar que posso amar o igual? Porque amamos, simplesmente. E amar é intransitivo, não existe o objeto para amar.

 

Como sempre, Claire, é essa saudade de seu espírito que me leva a viajar e escrever. Meu cão, com seu cachimbo e conhaque, diz que essa loucura ainda poderá render bons frutos. Sinto por ele, pois não percebe que essa loucura não existe, essa loucura sou eu.

 

Com amor,

 

E.