Sunday, May 22, 2011

tempo e eu: aniversário

a vida e o tempo :: viviane mosé

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eu acho que a vida anda passando a mão em mim
eu acho que a vida anda passando a mão em mim
eu acho que a vida anda passando
eu acho que a vida anda
a vida anda em mim
a vida anda
eu acho que há vida em mim
há vida em mim
acho que a vida anda passando
a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo
quem anda me comendo é o tempo
se bem que já faz tempo, mas eu escondia
porque ele me pegava a força
e por trás

até que um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo, se você tem que me comer
que seja com meu consentimento, e me olhando nos olhos…
eu acho que eu ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem
que ando até remoçando.


Poema do livro: Pensamento do Chão, poemas em prosa e verso.

Thursday, May 19, 2011

Amor sem afeto

Claire,

hoje uma alegria imensa invadiu meu ser. Acordei em paz, bem, animado por viver.

Ontem, enquanto comia pizza com alguns colegas da faculdade, descobri algo. 

Olhei-os como se os visse pela vez primeira. Observei como falavam, como expressavam suas idéias e se deleitavam com o futebol na TV. Mastigavam com rapidez e, mesmo com a boca cheia de alimentos, cuspiam suas teorias sobre a vida.

Claire, foi uma clareza imensa que me veio a mente: eu não gosto deles. Eu não me pareço com eles. Eu não sou amigo deles. 

Comecei a rir com essa descoberta, pois junto a ela me veio outra coisa: eu não tenho de gostar deles.

Que liberdade! Que libertação do espírito! Que paz!

Claire, não sou obrigado a gostar deles e não preciso me culpar por isso. Eu simplesmente não preciso gostar porque convivem comigo, porque comem da mesma comida ou dormem na mesma cama. Não, eu não preciso, eu não tenho, eu não vou!

De repente é uma clareza plena. Eu não sou obrigado a ter afeto e não preciso me culpar por isso. Eu não preciso achar que há um Deus criador que me olhará feio por que não gostar de suas criaturas, porque esse Deus juiz não existe.

É tudo tão claro, Claire, que a paz que sinto me faz bem. Eu não preciso ter afeto, Claire. Eu não sou obrigado a ter afeto.

Eu posso ajudar a senhora idosa no farol, contribuir para uma obra beneficente, sorrir para os que precisam de amparo em meio a dor. Eu posso me apiedar e dar carinho, ser educado e atencioso, ouvir aquele que está em desespero. Mas eu não preciso ter afeto por nenhuma dessas pessoas.

Eu posso chorar ao lado dos que sofrem e tentar junto buscar solução para o problema. Eu posso ajudar e dar minhas mãos e tempo para contribuir ao bem... mas não preciso ter afeto!

E é essa máxima, Claire, que me liberta. É essa máxima, que me traz paz. É essa certeza de que não existe esse Deus, não existe essa lei, não existe a necessidade de ter afeto para ter amor... essa paz, Claire, é o que não tem preço.

Bem, é isso. amanhã será mais um dia em nossa distância, enquanto celebro seu aniversário e trago meu cigarro, sem culpa, sem medo, sem tempo.

Um beijo,

Sol.