Wednesday, June 08, 2011

Mais dos domingos (todo dia agora é domingo!)

[Novembro, 27 -2007]

Sentava-se e sempre pedia a mesma coisa: bananas, mel e coca cola. Quando eu via, e nem sempre eu via, procurava não transparecer a estranheza que ia em meu peito. Às vezes fingia que lia o jornal, outras vezes sorria laconicamente como a desejar "bom apetite"! Era diferente, nos domingos de manhã, observar aquela senhora idosa com coisas tão comuns que juntas apetecia seu ser.

 

Na última semana ela não foi. Pensei que talvez se atrasasse, fiquei um pouco mais que o costume na padaria, sentado no mesmo lugar a torcer que ela aparecesse para tornar meu dia como os outros. Mas ela não veio. Eram 10h quando tive a ousadia de perguntar ao garçom que sempre a atendia... ele disse que ela havia mudado e fora se despedir de todos, iria morar com os filhos!

 

Por um momento me enfureci: como seus filhos poderiam tirar de mim o prazer de observa-la aos domingos? Como tiraram de mim aquela epifania tão doce que rotineiramente habitava meus domingos? Levantei-me enfurecido, paguei e saí...


A decadencia da verdade

[Agosto, 23-2006]

Hoje eu queria fingir que sou uma pessoa diferente. 


Vou me deixar acreditar que é natal, que estou na casa de amigos acompanhado de Elenice, minha querida esposa e nosso filho João Francisco está conosco. À meia noite abrimos a garrafa de vinho e cantamos alegres ao trocarmos presentes... Elenice me abraça com carinho e me beija nos lábios. Ela diz que esse será mais um natal feliz, que seremos sempre felizes e nada irá nos separar.

 

Lembro-me de quando nos conhecemos em uma excursão para Rio Bonito. Era primeira vez que ela viajava sozinha e eu passei a ampará-la em todos os passeios pelos lugares inusitados. Acho que nos apaixonamos ainda no ônibus, mas como eu era tímido, só depois de alguns meses é que aconteceu o primeiro beijo. Depois de um ano de casados veio nosso grande afeto: João Francisco. Nasceu com 3,5 kg, cabeludo e vermelho. Ela dizia que seus olhos verdes se pareciam com os meus, e eu dizia que seus cabelos claros eram da herança de seus avós. Ah, como amei ser pai desde o primeiro momento.

 

Mas é natal. Amanhã iremos almoçar na casa de seus pais, uma reunião de família que já é tradicional. Eles moram aqui mesmo no Sumaré e todos irão prestigiar o peru preparado por seu pai. Sinto que somos felizes, temos familiares que nos compreendem e amamos um ao outro.

 

Em uma semana voltaremos a correria: Elenice nas aulas de arte na Unesp e eu continuarei com meus projetos na consultoria... tudo muito tranquilo!

 

Talvez daqui a pouco isso passe e eu verei que não consigo acreditar que sou diferente. Não consigo acreditar que não há Elenice, João Francisco ou uma consultoria. Não há natal e não há casa no Sumaré...
 
Estou triste, todavia!
 
El