Monday, July 04, 2011

Feliz o que mesmo?


Tenho uma sensação estranha, Wilson. Como se a saída do ano e o início de uma nova fase não fosse o suficiente. E já faz tempo que o ano começara. Como se eu precisasse tomar ar puro e mesmo por aqui, na USP, o ar se pesasse com promessas alheias que me enchem de tédio e insatisfação: desisti de confiar nessas promessas e de olhar aos outros com condescendência.

 

É uma sensação estranha.

 

Fico a procurar um rosto para reconhecer o motivo dessa sensação e me perco em um exercício inócuo: o que faria se não estivesse nessa procura? E quem seria se soubesse o que procuro? E como reagiria se encontrasse o que procuro?

 

Volto a ter a mesma sensação estranha e o ar continua pesado pelas falas absurdas do campus. Aos poucos ele se contamina de fadinhas coloridas que com asas cintilantes me convidam a um passeio fantástico onde borboletas e abóboras conversam como gente grande. Aos poucos vejo os fantasmas de meus mártires e essa loucura me invade completamente. Sim, tornei-me um mártir, Wilson. Tornei-me louco e acabo a taça do vinho antes de dormir...

 

Será ano novo e me esquecerei de todas as promessas. Esquecerei do tédio e serei apenas mais um... E quando é a no novo mesmo?

 

Feliz ano novo!!!!!!!!
 
E.
 
P.s.>> Algum dia já disse o quanto que o adoro?

Comum

Saiu atordoado. Desceu pela gamelinha em direção a estação da Lapa, sem pensar. Triste, talvez. Tinha apenas a imagem de Janaína em sua mente. Tinha a sensação de sua ausência. Entrou na estação. Alcançou a plataforma. Parou e aguardou a chegada do trem.

Entrou e sentou-se em um canto qualquer, sozinho. Calou-se. Sentiu-se estranho pelas pessoas a sua volta. Sentiu-se mal pelo cheiro arrependido das palavras com que machucara Janaína. Sentiu-se dorido por não ter sido mais simples, meigo, presente. Sentiu-se comum em meio às pessoas do vagão.

Alguém se aproximou, sentou-se ao seu lado e perguntou seu nome: era um homem qualquer carente que precisava se abrir. O homem tinha cheiro de tabaco barato, daqueles comprados nas estações do Brás. Sua roupa exalava cachaça do centro da cidade, era rota e azul.

Ele se permitiu ouvir o homem. Não se moveu sequer para olhar em sua direção. O homem falava algo sobre o acidente de construção que matara três de seus amigos. Ele nada dizia. O homem então falou do Datena e do banho que tomaria ao chegar em sua casa. Ele nada dizia. O homem desceu com um pequeno sorriso, sentindo-se leve por ter falado. O homem lhe disse até logo. Ele nada disse.

Continuava de olhos fechados. A figura terna de Janaína ainda pairava em seus pensamentos. Talvez nunca, nem mesmo os anos, o fariam esquecê-la. Sabia que nunca a esqueceria. Lembrou-se daquele echarpe rosa que ela usava na primeira vez que se viram, do sorriso tímido com que ela brindava o final das frases, do jeito quase doce com que o agredia para parecer comum. Ele amava Janaína e talvez nunca a tivesse provado isso. E talvez nunca o fizesse, pois não era comum.

Depois de algum tempo resolveu abrir os olhos. Ainda estava arrependido pelas palavras que disse. Ainda confuso e contaminado pelo cheiro das pessoas que não existiam ao seu redor. Sentiu-se sozinho e triste. Sentiu-se alegre e capaz. Sentiu-se forte e fraco ao mesmo tempo. Sentiu-se com amor por Janaína.

Tanto faz, pensou consigo mesmo. Talvez comesse apenas tomates ao chegar em casa. Talvez tomates com ovos. Comeria e depois arrotaria como um simples mortal. Comeria ao lado de todos seus fantasmas e até riria de suas piadas. Iria ao banheiro depois, escovaria os dentes, sendo simples, sendo comum.

Ligaria a Janaína e diria algo simples. Diria que ele era simples. Diria que os simples, finalmente, são alegres. Depois deitaria e dormiria. Sim, como fazem os simples.

Onibus

Os nomes são iguais em sua mente doente, apesar dos rostos diferentes que giram simultaneamente a sua frente. O ônibus para. Acelera. Continua. Os pontos são vários, são várias as paradas e as idéias que passam. Traz pequenos tragos na memória, chora o desatino de vida fugaz e vazia. Está sóbrio e sozinho.

 

            O sol bate forte pela janela, queima sua pele branca e ofusca seus olhos claros. Preferia a noite. Na noite as pessoas não descobrem os seus enganos. A velha gorda pedia, com os olhos, um canto ao seu lado. Fingiu que dormitara, a velha negra estava suja e fedia a peixe. O garoto a sua frente pigarreou um resto de vida pela janela e, então, o fitou fechando a cara.

 

            Talvez a manhã estivesse começando, na tarde que viria se esqueceria das palavras amargas da noite anterior. Ainda tinha nos lábios o impacto do beijo roubado e no corpo a sensação do perfume neutro... Onde estava indo? Onde estaria?

 

O ônibus continuou o seu trajeto, seu pensamento encheu-se de pensamentos incertos e sem nexo. Via o verde de matos e as pragas que invadiam as calçadas. Avistou o cigarro do homem em um portão e ouviu, de súbito e por um instante, o rádio com um sertanejo ao longe. "A mesma música de ontem" - pensou consigo.

 

            O ônibus chegou ao seu final. Ele desceu. Avistou a casa branca, logo a frente. Chamou por alguém. Chegou. Descarregou nele o seu revólver. E sumiu.

Horácio