Wednesday, September 28, 2011

"...deixai com que os mortos enterrem seus mortos!"

 

É uma manhã ensolarada com gosto de primavera. Sinto uma mescla entre frio e calor enquanto, caminhando, passo pela igreja de São Francisco.  Emociono-me. Paro diante da construção. Faço uma mesura e entro, tímido, nesse templo que há tempos está presente no alto da Penha.

 

Percorro com os olhos por toda a nave e vejo-me sozinho. Entro em um corredor e saúdo os bancos vazios que ali estão. Paro novamente e ajoelho-me. Abaixo os olhos e uma oração sincera sai de meus lábios. Meu peito enche-se de um calor suave e tenho nada a dizer senão agradecer, sinceramente, pela força que tive até aqui.

 

Mais alguns minutos e algumas lágrimas cortam-me o rosto. Emociono-me. O calor torna-se mais intenso e tenho certeza de que ali, naquela epifania, estou em paz. Calo-me e continuo minha oração. Agradeço pela alegria que me invade o peito, pelas mãos marcadas, pela saúde em meus pés descalços. Agradeço, sobretudo, por poder chorar e celebrar, em meu íntimo, a transformação por que passo.

 

Lembro-me do Mestre e de suas palavras sublimes que me confortam o coração: “...deixai que os mortos enterrem seus mortos”, diz a passagem. É como se deixasse ali, depositado em suas mãos, o pranto que me aflige. Deixasse ali, em suas mãos, o motivo de toda dor. Os mortos estão a caminhar pelas ruas e suas palavras não me podem ferir enquanto estou ali, com o conforto do Divino. As palavras dos mortos não me podem atingir se eu estiver na paz de meu Divino Amigo...

 

Levanto-me.  Tenho um suave sorriso nos lábios e um novo ânimo em meu íntimo. Saio, ainda timidamente, e o sol continua a me saudar. Uma brisa me toca o rosto e apenas sigo, a caminhar, na certeza de que há mais vida em mim...

 

E quanto aos mortos, vou seguir orando para que um dia consigam descobrir um sentido.

 


Linked in: www.linkedin.com/in/breltonsilva

 

Tuesday, September 20, 2011

na casa de meu Pai há muitas moradas...

Há realmente muito o que compreender nesse Universo em que estamos inseridos. Dias em que fico a pensar e minha ação é nenhuma senão agradecer, e muito, a cada momento em que desfruto da existência. Fogem-me as palavras para celebrar, com propriedade, a benesse de viver!

 

E basta viver, amigo, com tanta intensidade e entrega que não haverá tempo para lutar contra os desíginios do Divino. Basta aceitá-los e entregar-se, por opção, e viver com Ele sem que haja o que nos atrasar. E esse Divino, que pode se manisfestar de acordo com a crença que professarmos, estará sempre a nos guiar para que cheguemos à plenitude do que somos... somos divinos, meu caro, e como divinos a responsabilidade de praticarmos a divindade a todo momento, testemunharmos a divindade de nossa transformação e vencer o que nos afasta daquilo que somos.

 

A caminhada é íngrime e nos leva a deparar com muito que nunca habitou a imaginação. Conheci os cães infernais que trabalham para lei e os rastejantes que, obedientes ao Divino, limpam as fileiras de desgraças que os homens optam por praticar. São seres Divinos, claro, moradores do inferno para equilibrarem o Universo. Seres esses obedientes à luz e submissos ao plano por que ainda passam. E tudo evolui, sempre, com a velocidade que foi determinada pelo grande criador.

 

Mas há uma estranheza que teima em persistir: quanto ainda temos de apego aos nossos desejos e limitações. Quanto ainda dependemos de falos e prazeres fugidios pela humanidade que temos. Talvez venhamos aprender a cultivar a humildade e nos aproximemos do que é etéreo. Talvez aprendamos a praticar o amor e o sexo será como um vinho envelhecido tomado diligentemente: um prazer raro e valorado.

 

É o que tenho, hoje.

 

Val

 

 

Monday, September 19, 2011

Exultai e alegrai-vos...

Há dias que sinto lágrimas brotarem em meus olhos e emociono-me com mais frequência que antes.  É uma sensação completa e complexa, pois desenvolve-se, em mim, uma confiança intensa de que tudo está correto e tudo o que passamos só nos faz crescer. A lágrima diz que estou vivo e tenho emoções que me fazem humano. Abro os braços e as chagas de minhas mãos crucificam meu antigo eu resistente à evolução, preso aos pequenos prazeres e distante da realização do meu eu-Espírito.

 

E pensei sobre a dor, mas não posso exaltá-la a ou elevar apologias ao sofrimento: aceito-a, apenas, como um meio de desenvolvimento, de aproximação com o Divino, como oportunidade de crescer em espírito. Essa vontade intensa de participar do Divino, na magia que está ao de redor, é quem conduz a essa crucificação diária de quem não sou – e penso que sou. Esse ser –não ser que se perde no egoísmo e não entende que o “deixar viver” é permitir a cada um seu ritmo próprio de crescimento.

 

As pessoas passam e deixam algo conosco. Algumas saem de repente, permite-nos um choro sentido e por pouco não caímos na tentação de manter a situação sem que haja evolução: tudo tem seu tempo, todos têm o seu tempo ao nosso lado e, quando esse tempo passa, não somos deuses do destino para definir que continuem... somos deuses sim, mas para que nossa vontade e poder permita o crescimento e nunca o estacionar de quem quer que seja.

 

Volto a dizer que não há mal e não há choro que persista. Retorno àquele princípio de que desenvolvemos nossos potenciais e aprendemos a mudar a realidade em que estamos quando realmente desejamos isso. E a realidade de que precisamos está além da que vemos, pois ela é integrada com o Divino e todos os seus estagiários de todos os elementos.

 

Celebro minha alegria, ainda que com um aperto de saudade no peito, a saber que nosso tempo será sempre dosado para que cresçamos e aprendamos que tudo é perfeito no universo e, deterministicamente, iremos nos tornar parte dessa perfeição.

 

Abraço, como sempre.

 

E.

Friday, September 02, 2011

Se a dor o visita, é tempo de mudar!

Daniel,

há dias que não paro para escrever e hoje meus pensamentos estão quietos e tumultuados ao mesmo tempo. Escrever, talvez, me faça sentir melhor. Acho diferente perceber que a dor e o incômodo servem para que mudemos, para que queiramos mudar e retornar a uma situação de maior conforto. É desconfortável perceber o erro: de julgamento, de expectativa, de desejo.

Decepção é a melhor palavra para descrever meu interior nesse instante. Uma decepção comigo mesmo, de me permitir a um novo embuste. Errei, Daniel, ao esperar e acreditar em quem não é nada além do que sempre foi. Sinto-me estranho, mas acho que é o aprendizado ao perceber que ser humano é permitir-se ao erro.

Ele, a quem julguei, parecia-me terno e inteligente. Alguém merecedor de confiança e amor. Sim, o meu sentimento mais nobre e sincero que não hesitei em entregar pelo juízo de minha intuição. Errei, Daniel, errei profundamente e minha intuição que parecia tão treinada me desperta à humildade. Desço de minha arrogância para me reconhecer falível, para me conceber capaz de aprendizado. Eu posso aprender com isso e a dor nada mais é que o alento ao crescimento.

Quando os amigos se afastam é porque nunca o foram de verdade. Quando os amigos deixam de ser amigos é porque a palavra que diziam não era suficientemente real para durar a eternidade. 

E como adivinhar, Daniel, quando entregamo-nos e  o retorno é não recíproco? E como adivinhar, Daniel, que o amor de repente é apenas unilateral? Como adivinhar que, às vezes, entregamo-nos por completo e o que recebemos é nada além do que a pessoa é capaz de dar? E se esse limite, dela, não nos for o suficiente? Como deixar de sentir o mesmo amor que sentíamos antes? Não deixamos, Daniel... não deixamos!

E é por isso que aprendo com essa dor da decepção. A decepção do castelo de expectativas que construí em minha mente, mas nunca existiu. Um castelo que não poderá existir porque ele, objeto de meu amor, está longe de ser mais do que é: uma criança que tem os pés descalços e limpos do pecado. Uma criança que ainda não aprendeu a falar e perceber algo que vá além de seu próprio conforto. Uma criança, carente, que acaba de perder a minha mais nobre intenção: eu desiti. Desisti de cativar, de conviver, de partilhar quem sou.

O erro, Daniel, me ensina a valorizar a mim e a aceitar quem sou. É preciso que eu sinta  a solidão antes de me tornar o que escolhi ser. E brilhar pelo que escolhi ser. E viver pelo que escolhi ser.

Foi apenas um desabafo,  meu caro. De alguém que de repente se sente humano demais para falar.

Um beijo saudoso,

E.