Wednesday, January 18, 2012

Saudades de Rina

Há dias que tenho pensado em Rina, minha amiga que é puta. É uma lembrança suave, de quando nos falávamos e ríamos por horas a fio. Havia uma intimidade estranha entre a gente, pois enxergávamos muito em comum onde nada seria possível de nos unir.

Ela vendia o corpo, gostava de rapazes e se deitava com eles mesmo quando não os desejava. Eu, em plena adolescência, buscava mulheres mais velhas, passava horas na academia e com os livros de filosofia. Uma adolescência comum, pode-se dizer. Mas não era. Meu desejo por Sartre e Nietzsche só demonstravam minha estranheza... ela, Rina, preferia leitura de bares baratos, com cheiro de ratos e cigarros, onde se amontoavam os homens.

Houve um filme que assistimos juntos. Dizia sobre amores e restos humanos. Os humanos com quem ela se deitava. Os restos de que eu lia. A união de opostos tão iguais quando incompreendidos: era o que nos unia.

Hoje lembrei-me ainda mais dela. Um amigo (novo) solta seu riso como ela. Esse amigo que questiona os homens e os observa apenas como expectador. Ele, o amigo, também ama as mulheres (diferente de como amei na adolescência). Ele as ama e as compreende, mas as encontra como predador quando isso satisfaz a sua libido.

Acredito que ele e Rina conseguiriam muito juntos. Ela, que também amou as mulheres, o ensinaria como olhar o mundo de perto, deixando de ser expectador para se envolver. Ele a ensinaria a beber suavemente, sem pressa, permitindo-se saborear cada momento. E eu, ah, eu mesmo, será que estaria presente?

Mas é apenas uma lembrança, hoje. Uma lembrança de mim quando perdi o sagrado do preconceito para encontrar minha semelhança. O que diria Nietzsche do 'super homem' que desce ao comum? E Sartre com seu amor platônico envolvido em orgias filosóficas... mas isso tudo são apenas palavras. Vou me permitir ao silêncio e viver um pouco mais..

Saudades de Rina.

[Elton]
Jan-18-2012