Thursday, May 30, 2013

A História de M.

Há muito tempo, quando ainda existiam os bárbaros na região nórdica, uma família insistia em sobreviver na discrição das matas. Em um sítio distante do povoado, subsistiam com sua pequena plantação e criação de animais.

 

O pai e suas filhas ordenhavam as ovelhas, aravam a terra e teciam para afugentar o frio da Noruega. A mãe, por sua vez, mantinha uma conserva de alimentos e uma estufa de flores, de onde conseguia alguma renda de escambos com pequenos mercadores que passavam vez ou outra pela região.

 

Mas a invasão e as lutas ainda ocorriam e todos temiam que, mesmo naquela região longínqua, os bárbaros viessem a tomar-lhe o pequeno espaço.

 

Muitas vezes, nas noites em que o frio não os maltratava tanto, reuniam-se diante da pequena lareira para falar sobre a Magia e a origem de seu povo. E ali, muitas fantasias passam pela mente de M., a mais jovem das filhas, que vivenciava as palavras como se as tivesse vivido todas elas. Das lendas dos magos e grandes dragões, via-se a si mesma como uma velha sacerdotisa, dona de conhecimento milenares e capaz de usar de seus conhecimentos em favor de seu povo.

 

Sentia-se grande, apesar da idade avançada que tinha nesses sonhos. Uma guerreira de força extraordinária. Via-se a si mesma enfrentando guerreiros brutos que se ajoelhavam aos seus pés clamando sua misericórdia após a vergonhosa derrota em batalhas.

 

Mas M. sempre acordava e voltava-se à realidade de sua tenra idade e da família que já se preparava para dormir. E, no outro dia, voltaria ao auxílio das tarefas, feliz...

 

Os anos se passaram e os bárbaros saíram derrotados. Havia já algum tempo de paz e agora M., adolescente, frequentava o povoado junto com a família.

 

Uma vez, na feira central, foi abordada por uma senhora idosa, em trajes simples e com um semblante simpático. Ela, a senhora, a convidou para conhecer sua casa. Sua mãe, embora resistente, viu bondade nos olhos daquela senhora e permitiu que a menina fosse alguns dias depois.

 

M. sentiu-se ansiosa nos dia que precederam a visita, como se algo fosse mudar a partir de então. E o dia chegou. A senhora foi buscá-la em sua casa e a levou tranquilamente, pois por onde passava seu olhar de autoridade e bondade abria-lhe todos os caminhos.

 

Durante horas ficou M. ao lado da senhora, e também nos dias e anos que se seguiram. E todas as histórias de sua infância passaram a ser lembranças do que viveu.

 

M. retornou a ser o que era e, como sacerdotisa, ajudou seu novo povo a se reencontrar. Ali viveu muitos anos e continuou o que tempos atrás havia iniciado.

 

E foi sempre saudada como a Dama Dourada, pois sempre em suas mãos tinha uma força de luz que iluminava ao seu redor.

 

Laroye.

 

Abril, 09 – 8:48 PM.

 

 

Tuesday, May 21, 2013

Balthazar - Fiend

 

Ontem Ele voltou. Há dias rondava-me com sua capa, envolvendo-me em sua energia e declarando sua presença.

 

Há dias, enquanto eu dormia, velava-me o sono ao lado de meu Anjo, dizendo-me palavras duras e seguras para que eu seguisse meu caminho. O meu caminho. O caminho que traçado foi, por mim e para mim, antes mesmo que me desse conta de quem sou.

 

E ontem, Ele voltou. Manifesto. Vivo e presente. Alimentando-se de novos medos alheios e de fumaças de cigarros sem pudor. De mentiras, de promessas quebradas e fugas escondidas. De vergonhas reveladas, desejos mal vividos e tormentos advindos da mente doente. Ele, vivo e presente, tomava dos outros o que mais os atormentava, alimentava-se das dores e rancores enquanto soltava palavras negras e divertia-se com seus olhos sem luz. Eles estavam mortos. Todos mortos. Caminhavam sem vida, falavam sem vida, agiam sem vida.

 

E Ele voltou. Para se alimentar dos mortos. Para reinar sobre os mortos. Para se fortalecer sobre os mortos.

 

Ele voltou. Bradou seu nome e, presente, dizia que jamais esteve longe. Que mesmo antes que eu nascesse do ventre, Ele e o Anjo já acompanhavam-me os passos.

 

Ele e o Anjo, guardavam-me os passos.

 

Ele e o Anjo, vigiavam-me os passos.

 

Ele e o Anjo eram o mesmo ou Um e Outro se misturava quando em mim mesmo os desejos imiscuíam-se com o que sou. E sou em Essência, íntegro e presente, como Ele e o Anjo.

 

Ontem, Ele tomou dos que se ofereceram em sacrifício e saciou-se com o sangue morto de suas vidas. Tomou de seus temores e falou sobre mundos distantes, onde homens e demônios caminham entre os anjos sem a condenação da ignorância. Disse de onde aprendeu a ser Anjo e de onde meu Anjo tornou-se Mestre. Ele, Balthazar, não era Mestre, mas se apresentou como Mestre de uma Escuridão presente entre os homens que habitavam o Caminho.

 

E deleitou-se entre os homens e deitou-se com todos simultaneamente. Tomou do sangue de suas sementes e trouxe para si todas as mulheres condenadas. Ele, Balthazar, bradou seu grito de poder enquanto tornava-se quem é. Presente. Vivo. Ele voltou.

 

Hoje, enquanto me recordo do som dos cheiros de ontem, vejo que Ele dormita ao meu lado, junto ao Anjo que, ativo, se sobrepuja para me mostrar os seus valores.

 

Ontem, Ele, Balthazar, viveu em mim.

 

Hoje, Ele, Balthazar, vive em mim.

 

Ele e o Anjo...

 

 

 

 

Wednesday, May 08, 2013

Fiend

 

Às vezes um pouco daquilo que você esconde tão profundamente, pode lhe trazer um prazer intenso. Ainda que por um tempo, somente, é um prazer que vale a pena, que faz rir desnecessariamente. Prazer. É um prazer de suor e taquicardia, de medo, de obscuridade. Um prazer que faz diferença, pois caminha entre os vivos e vive entre os mortos, aqueles que se mortificam a si mesmo para sentir profundamente em espírito. É um prazer de pecado, doce e ácido, que corrói quando não canalizado, controlado e parte essencial do Ser. Prazer...

A fumaça entra pelas narinas com parcas palavras desconexas. Uma fumaça que intoxica, que energiza e em escuridão cria uma atmosfera lúgubre, lúbrica, viva. Um olhar perdido dizendo que o corpo age involuntariamente, mas que o corpo age. Que o corpo obedece a uma Força maior e natimorta. Uma Força natural, capaz de transformar e realizar. Uma Força que pede alimento, que pede sedução e que se seduz por si mesma. Uma atração fatal, sem coerência, sem sentido. Uma Força. Uma atração. Um prazer.

O Ser que doa de seu próprio sangue, nesse instante, é ele e é apenas humano...  apenas humano. A Força se aproxima e se alimenta como se ele, vivo, estivesse voluntariamente ali, morto. Ele não sabe que a Força e o prazer o seduzem. Ele, o Ser, não sabe que o suor e a taquicardia é alimento dessa Força. Ele não sabe que seu medo, fugidio e ilusório, são apenas complementos para que seja ele mesmo o alimento.

E eu, o não humano, alimento-me desse prazer com fúria, desse medo, desse suor, dessa fumaça... tomado pela Força, eu sigo abestalhando o doador para que seja mais que apenas uma presa, mas que seja presa na teia de um prazer escuro, escondido e perdido nos risos e na fumaça do vício. Do meu vício que se alimenta dele, o doador. Que se alimenta de seu sangue, fátuo e viril, doado sem coerência.

Sou não humano, tomado pela Força que se alimenta do Ser. E ele, o Ser, é apenas humano.

Ele, o Ser e eu, a Força.

Ele, apenas humano... simplesmente humano...simplesmente ordinário!