Thursday, February 18, 2016

O Louco de Botas

Chegou de mansinho, pousado no dorso de uma pomba. Abriu sua bolsa e tirou uma toalha branca, uma boneca azul e um carrinho lilás. Pousou tudo sobre a grama cinza e riu do que tinha feito. Alegrou-se intimamente e foi buscar água na fonte. A fonte que ele sabia uma réplica daquela vista na Itália... uma vez mais seu sorriso íntimo demonstrou uma alegria que lhe ia ao interior. Conhecia Roma e, muitas vezes, foi à luz de candelabro que se deitou nas gramas de Amsterdã ao observar o pôr do sol. Conhecia o Velho Mundo e a América tão celebrada. Revia em sua memória o primeiro cair de neve ainda com o brilho do fio do outono. Um fio único, como brincadeiras boreais da natureza para lhe encher os sentidos. E ele poderia se curvar para misturar-se à natureza... ela poderia engolir sua preguiça que estava firmemente fixada! Voltou para seu canto e deu de beber para boneca. Dispensou a pomba, não voaria mais por aquela tarde. Tirou suas botas, espreguiçou-se lentamente e chamou pelo seu cão. Desculpou-se com a boneca enquanto lhe penteava os cabelos e disse que mais tarde poderiam nadar na grama e se equilibrarem nos fios invisíveis de sua razão. Seu cão brincava com o carrinho. Sentava e corria como um piloto experiente. Olhava a si no retrovisor e se sentia como de raça nobre. Um cão de guarda real. Um cão real. Era o cão do louco, acima de qualquer outra coisa. O cão do louco que era livre. Ele, o louco, dormitava pela praça todas as tardes para haurir forças e assim continuar em sua racionalidade. Tinha os cabelos desgrenhados, olhos vermelhos pelo sono e as mãos marcadas pelo silêncio de seus dias. Sua pomba, o transporte que o levaria a países outrora distantes, nem sempre lhe respondia aos apelos e sua boneca apenas o amava no segredo de sua sanidade. Era belo, o louco. Despertava nas pessoas sensações pérfidas que contrariavam as teorias absurdas da dialética cristã. Muitos se admiravam com a sua beleza e amavam, inconscientemente, o reflexo da liberdade almejada. Outros, ébrios pelo cotidiano, não compreendiam sua sanidade e, indiferentes, continuavam suas vidas... Distantes do louco! O louco que conhecia o mundo e se perdia em sonhos. O louco que vivia e abandonava as regras para ser apenas um. De repente ele levanta, abre seu sorriso e delicadamente pega sua boneca para dançarem ao som do relógio, pois os sinos embalariam a melodia da noite. São seis horas. É tempo de voltar, ele diz. Chama por sua pomba, guarda-se novamente na sua sacola, recoloca suas botas e sai a voar, em direção a razão perdida de sua segurança... Ele, o belo louco que me faz amar novamente o que sou e me ajuda buscar onde estou!