O cachecol
Eu nunca havia conhecido uma ex-puta. Não sabia ao certo se elas existiam, ou se eram apenas menções honrosas usadas em ofensas às mães. E conheci Cleuza. Conheci Cleuza sem saber quem era. Morava nas vizinhanças do bairro. Sempre a via recatada, calada. Tinha um ar quase triste, quase discreto. Era uma pessoa quase comum. Sempre quase. Morava com seu marido, Nélio, e seu pequeno cão, cujo nome me olvidei. Sempre me esqueço do nome das coisas. Das pessoas. Mas era Cleuza mesmo seu nome. Seu nome de casada, de puta. Ela tinha um olhar sereno e falava de suas bromélias, enquanto costurava. Ela fazia receitas de milho como ninguém, cuidava dos filhos das vizinhas e quase não saía de casa durante o dia. Cleuza era assim mesmo: boa vizinha, boa costureira e uma boa mão para pamonha. Um dia, em uma festa de família, passei a observar Cleuza. Foi então que percebi o quanto se continha no papel que vivia. Ela escondia seus olhares de soslaio aos solteiros e discretamente media os c...