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Mostrando postagens de 2011

A fuga do peixe

Há uma pequena abertura no aquário da sala, por onde fugiu meu peixe. Embora ele fosse eminentemente cinza, seu dourado se destacava entre os móveis e a porcelana branca do armário.  Ao perceber sua ausência, tive um pequeno aperto no peito. Ele partiu. Agora minha casa está vazia, a velha cadeira de balanço onde ficava por oras a admirá-lo parece sem sentido e necessidade. Falta o cinza do peixe, o seu dourado e a certeza de que toda manhã se renovaria. Não amanheceu essa noite. Não houve uma renovação de atmosfera e as flores que ontem estavam a enfeitar minhas roupas murcharam pela ausência da luz do peixe. É como se o aperto de meu peito parasse, quando ele estivesse em mim. É como se minha vida fosse poupada, tivesse uma razão de ser ao alimentá-lo todos os dias. Abro a geladeira e não sinto a fome me visitar. Tudo gira, não reconheço minha imagem e aos poucos me desconcerto em mim. Como aquela música. Como aquela diferença entre tudo o que era comum. Meu peixe fugiu. Parte de...

"...deixai com que os mortos enterrem seus mortos!"

  É uma manhã ensolarada com gosto de primavera. Sinto uma mescla entre frio e calor enquanto, caminhando, passo pela igreja de São Francisco.  Emociono-me. Paro diante da construção. Faço uma mesura e entro, tímido, nesse templo que há tempos está presente no alto da Penha.   Percorro com os olhos por toda a nave e vejo-me sozinho. Entro em um corredor e saúdo os bancos vazios que ali estão. Paro novamente e ajoelho-me. Abaixo os olhos e uma oração sincera sai de meus lábios. Meu peito enche-se de um calor suave e tenho nada a dizer senão agradecer, sinceramente, pela força que tive até aqui.   Mais alguns minutos e algumas lágrimas cortam-me o rosto. Emociono-me. O calor torna-se mais intenso e tenho certeza de que ali, naquela epifania, estou em paz. Calo-me e continuo minha oração. Agradeço pela alegria que me invade o peito, pelas mãos marcadas, pela saúde em meus pés descalços. Agradeço, sobretudo, por poder chorar e celebrar, em meu íntimo, a transformação por...

na casa de meu Pai há muitas moradas...

Há realmente muito o que compreender nesse Universo em que estamos inseridos. Dias em que fico a pensar e minha ação é nenhuma senão agradecer, e muito, a cada momento em que desfruto da existência. Fogem-me as palavras para celebrar, com propriedade, a benesse de viver!   E basta viver, amigo, com tanta intensidade e entrega que não haverá tempo para lutar contra os desíginios do Divino. Basta aceitá-los e entregar-se, por opção, e viver com Ele sem que haja o que nos atrasar. E esse Divino, que pode se manisfestar de acordo com a crença que professarmos, estará sempre a nos guiar para que cheguemos à plenitude do que somos... somos divinos, meu caro, e como divinos a responsabilidade de praticarmos a divindade a todo momento, testemunharmos a divindade de nossa transformação e vencer o que nos afasta daquilo que somos.   A caminhada é íngrime e nos leva a deparar com muito que nunca habitou a imaginação. Conheci os cães infernais que trabalham para lei e os rastejantes que, ...

Exultai e alegrai-vos...

Há dias que sinto lágrimas brotarem em meus olhos e emociono-me com mais frequência que antes.  É uma sensação completa e complexa, pois desenvolve-se, em mim, uma confiança intensa de que tudo está correto e tudo o que passamos só nos faz crescer. A lágrima diz que estou vivo e tenho emoções que me fazem humano. Abro os braços e as chagas de minhas mãos crucificam meu antigo eu resistente à evolução, preso aos pequenos prazeres e distante da realização do meu eu-Espírito.   E pensei sobre a dor, mas não posso exaltá-la a ou elevar apologias ao sofrimento: aceito-a, apenas, como um meio de desenvolvimento, de aproximação com o Divino, como oportunidade de crescer em espírito. Essa vontade intensa de participar do Divino, na magia que está ao de redor, é quem conduz a essa crucificação diária de quem não sou – e penso que sou. Esse ser –não ser que se perde no egoísmo e não entende que o “deixar viver” é permitir a cada um seu ritmo próprio de crescimento. ...

Se a dor o visita, é tempo de mudar!

Daniel, há dias que não paro para escrever e hoje meus pensamentos estão quietos e tumultuados ao mesmo tempo. Escrever, talvez, me faça sentir melhor. Acho diferente perceber que a dor e o incômodo servem para que mudemos, para que queiramos mudar e retornar a uma situação de maior conforto. É desconfortável perceber o erro: de julgamento, de expectativa, de desejo. Decepção é a melhor palavra para descrever meu interior nesse instante. Uma decepção comigo mesmo, de me permitir a um novo embuste. Errei, Daniel, ao esperar e acreditar em quem não é nada além do que sempre foi. Sinto-me estranho, mas acho que é o aprendizado ao perceber que ser humano é permitir-se ao erro. Ele, a quem julguei, parecia-me terno e inteligente. Alguém merecedor de confiança e amor. Sim, o meu sentimento mais nobre e sincero que não hesitei em entregar pelo juízo de minha intuição. Errei, Daniel, errei profundamente e minha intuição que parecia tão treinada me desperta à humildade. Desço de m...

O novembro mais doce

Acho que foi o novembro mais intenso que vivi, ao seu lado. Agora, enquanto ouço Tiziano Ferro, lembro-me de quando fazíamos amor e tudo parecia possível. Acho que tudo era possível. Ainda é tudo possível. Sei que por agora seus passos estão maculados e seu desejo dista do meu. Quantas vezes, entretanto, ao dormir recordo-me de seus beijos e seu carinho intenso. Quantas vezes, ao despertar, imagino seu toque doce a me embalar. E que saudade do pecado que vivemos e das mentiras que contávamos. Que saudade daquele tempo onde não tínhamos culpa e rir era o que nos mantinha juntos. Tiziano continua seu ritmo e agora grita “te amo” da mesma forma com que fazíamos um ao outro quando ouvíamos. Não tenho mais o vinho que nos embriagara e nem as taças que quebramos em enlouquência. Nem mais somos os mesmos, doce criança. Mas não haverá outro sentimento senão amor. Talvez será eterno o que sinto e nunca me esquecerei de você. Mas agora, sobretudo, respondo ao seu apelo e di...

talvez...

é tarde e preciso dormir. é tarde. preciso guardar meu canto e apenas adormecer. sonhar. talvez sonhar com você ou com quem quer que seja. talvez não. talvez o que sinto seja apenas ansiedade. talvez eu tema pelo desconhecido. talvez eu tema pela distância do amigo mais amado. talvez esse amigo mais amado aceite meu convite. talvez... vou apenas dormir, amigo, amado, irmão, amante. não amante de sexo, amante de ouvido. amigo de ouvido. amigo mais amado. esteja em paz. E.

Feliz o que mesmo?

Tenho uma sensação estranha, Wilson. Como se a saída do ano e o início de uma nova fase não fosse o suficiente. E já faz tempo que o ano começara. Como se eu precisasse tomar ar puro e mesmo por aqui, na USP, o ar se pesasse com promessas alheias que me enchem de tédio e insatisfação: desisti de confiar nessas promessas e de olhar aos outros com condescendência.   É uma sensação estranha.   Fico a procurar um rosto para reconhecer o motivo dessa sensação e me perco em um exercício inócuo: o que faria se não estivesse nessa procura? E quem seria se soubesse o que procuro? E como reagiria se encontrasse o que procuro?   Volto a ter a mesma sensação estranha e o ar continua pesado pelas falas absurdas do campus. Aos poucos ele se contamina de fadinhas coloridas que com asas cintilantes me convidam a um passeio fantástico onde borboletas e abóboras conversam como gente grande. Aos poucos vejo os fantasmas de meus mártires e essa loucura me invade completamente. Sim, tornei-me um már...

Comum

Saiu atordoado. Desceu pela gamelinha em direção a estação da Lapa, sem pensar. Triste, talvez. Tinha apenas a imagem de Janaína em sua mente. Tinha a sensação de sua ausência. Entrou na estação. Alcançou a plataforma. Parou e aguardou a chegada do trem. Entrou e sentou-se em um canto qualquer, sozinho. Calou-se. Sentiu-se estranho pelas pessoas a sua volta. Sentiu-se mal pelo cheiro arrependido das palavras com que machucara Janaína. Sentiu-se dorido por não ter sido mais simples, meigo, presente. Sentiu-se comum em meio às pessoas do vagão. Alguém se aproximou, sentou-se ao seu lado e perguntou seu nome: era um homem qualquer carente que precisava se abrir. O homem tinha cheiro de tabaco barato, daqueles comprados nas estações do Brás. Sua roupa exalava cachaça do centro da cidade, era rota e azul. Ele se permitiu ouvir o homem. Não se moveu sequer para olhar em sua direção. O homem falava algo sobre o acidente de construção que matara três de seus amigos. Ele nada dizia. O homem ent...

Onibus

Os nomes são iguais em sua mente doente, apesar dos rostos diferentes que giram simultaneamente a sua frente. O ônibus para. Acelera. Continua. Os pontos são vários, são várias as paradas e as idéias que passam. Traz pequenos tragos na memória, chora o desatino de vida fugaz e vazia. Está sóbrio e sozinho.               O sol bate forte pela janela, queima sua pele branca e ofusca seus olhos claros. Preferia a noite. Na noite as pessoas não descobrem os seus enganos. A velha gorda pedia, com os olhos, um canto ao seu lado. Fingiu que dormitara, a velha negra estava suja e fedia a peixe. O garoto a sua frente pigarreou um resto de vida pela janela e, então, o fitou fechando a cara.               Talvez a manhã estivesse começando, na tarde que viria se esqueceria das palavras amargas da noite anterior. Ainda tinha nos lábios o impacto do beijo roubado e no corpo a sensação do perfume neutro... Onde estava indo? Onde estaria?   O ônibus continuou o seu trajeto, seu pensamen...

Mais dos domingos (todo dia agora é domingo!)

[Novembro, 27 -2007] Sentava-se e sempre pedia a mesma coisa: bananas, mel e coca cola. Quando eu via, e nem sempre eu via, procurava não transparecer a estranheza que ia em meu peito. Às vezes fingia que lia o jornal, outras vezes sorria laconicamente como a desejar "bom apetite"! Era diferente, nos domingos de manhã, observar aquela senhora idosa com coisas tão comuns que juntas apetecia seu ser.   Na última semana ela não foi. Pensei que talvez se atrasasse, fiquei um pouco mais que o costume na padaria, sentado no mesmo lugar a torcer que ela aparecesse para tornar meu dia como os outros. Mas ela não veio. Eram 10h quando tive a ousadia de perguntar ao garçom que sempre a atendia... ele disse que ela havia mudado e fora se despedir de todos, iria morar com os filhos!   Por um momento me enfureci: como seus filhos poderiam tirar de mim o prazer de observa-la aos domingos? Como tiraram de mim aquela epifania tão doce que rotineiramente habitava meus domingos? Levantei-m...

A decadencia da verdade

[Agosto, 23-2006] Hoje eu queria fingir que sou uma pessoa diferente.  Vou me deixar acreditar que é natal, que estou na casa de amigos acompanhado de Elenice, minha querida esposa e nosso filho João Francisco está conosco. À meia noite abrimos a garrafa de vinho e cantamos alegres ao trocarmos presentes... Elenice me abraça com carinho e me beija nos lábios. Ela diz que esse será mais um natal feliz, que seremos sempre felizes e nada irá nos separar.   Lembro-me de quando nos conhecemos em uma excursão para Rio Bonito. Era primeira vez que ela viajava sozinha e eu passei a ampará-la em todos os passeios pelos lugares inusitados. Acho que nos apaixonamos ainda no ônibus, mas como eu era tímido, só depois de alguns meses é que aconteceu o primeiro beijo. Depois de um ano de casados veio nosso grande afeto: João Francisco. Nasceu com 3,5 kg, cabeludo e vermelho. Ela dizia que seus olhos verdes se pareciam com os meus, e eu dizia que seus cabelos claros eram da herança de seus avós. A...

tempo e eu: aniversário

a vida e o tempo :: viviane mosé *** eu acho que a vida anda passando a mão em mim eu acho que a vida anda passando a mão em mim eu acho que a vida anda passando eu acho que a vida anda a vida anda em mim a vida anda eu acho que há vida em mim há vida em mim acho que a vida anda passando a vida anda passando a mão em mim e por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo se bem que já faz tempo, mas eu escondia porque ele me pegava a força e por trás até que um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo, se você tem que me comer que seja com meu consentimento, e me olhando nos olhos… eu acho que eu ganhei o tempo de lá pra cá ele tem sido bom comigo dizem que ando até remoçando. Poema do livro:  Pensamento do Chão , poemas em prosa e verso.

Amor sem afeto

Claire, hoje uma alegria imensa invadiu meu ser. Acordei em paz, bem, animado por viver. Ontem, enquanto comia pizza com alguns colegas da faculdade, descobri algo.  Olhei-os como se os visse pela vez primeira. Observei como falavam, como expressavam suas idéias e se deleitavam com o futebol na TV. Mastigavam com rapidez e, mesmo com a boca cheia de alimentos, cuspiam suas teorias sobre a vida. Claire, foi uma clareza imensa que me veio a mente: eu não gosto deles. Eu não me pareço com eles. Eu não sou amigo deles.  Comecei a rir com essa descoberta, pois junto a ela me veio outra coisa: eu não tenho de gostar deles. Que liberdade! Que libertação do espírito! Que paz! Claire, não sou obrigado a gostar deles e não preciso me culpar por isso. Eu simplesmente não preciso gostar porque convivem comigo, porque comem da mesma comida ou dormem na mesma cama. Não, eu não preciso, eu não tenho, eu não vou! De repente é uma clareza plena. Eu não sou obrigado a ter afeto e não prec...

E então...

Resolvi descer as escadas e ganhar a rua. Rever pessoas, andar pelos becos e sentir o cheiro doce da civilização. Encontrei-me com aquele branco que canta músicas sob minha janela, vestido de roxo e inconformado com a derrota do corinthians. Nada pude fazer senão me aproximar e sorrir com o que vi. E nada vi, certamente. Estou sonolento pelo tempo que passei cercado em minha toca. Não me acostumo novamente com essa vida que insiste existir fora de meu apartamento. Não reconheço isso. Paro em um boteco qualquer, sento-me e peço uma cerveja acompanhada de uma porção de amendoins. Sorrio por ver que ao meu lado cantam um pagode qualquer e ali perto avisto um do meu time de futebol. Ele se aproxima e pergunta porque tenho faltado tanto, ele se aproxima e puxa uma cadeira. Depois mais um e logo estou rodeado por todos, com porções de calabresas e outras cervejas abertas. Contamos piadas, acompanhamos o ritmo do pagode e saboreamos as pequenas que se aproximam a dançar. Sinto-me vivo, e estr...

Amar, verbo intransitivo

  Claire,   Reli o poema de Drummond enquanto tomava conhaque, ontem, com meu cão. Há dias que paramos, cansados, e ficamos sentados com nossos cachimbos em silêncio, a meditar em tudo o quanto fizemos ultimamente. Discutimos horas, meu cão e eu, a pensar no quanto amar nos torna o que somos, ainda que pela nossa natureza, nos limitamos a conceituar o amor e passamos a vida sem amar.      Por que circundamos o amor no outro quando podemos deixá-lo fluir de nós? Por que, Claire, nos afastamos de Deus e nos culpamos por cada ato que fazemos? Por que nos limitamos tanto e não nos permitimos experimentar?   Nenhum de nós tivemos respostas, Claire. Meu cão silenciava-se por não saber o que dizer quando questiono a culpa. O que é a culpa senão o limite que nos impomos? O que é a culpa senão o que aceitamos para pertencer a um grupo? O que é a culpa, Claire, senão a negação de amar?   Como amar, minha irmã, se não conseguimos aceitar o que somos - e quem somos - senão por um...

Redescobrir a amar

Queria que estivesse aqui, minha irmã. É estranha essa distância entre a gente quando há tanto que gostaria de compartilhar. Quando há descobertas que gostaria de dizer e discutir horas com você para que me dissesse o quanto estou louco. Estou louco, Claire. Louco. Há tempos tenho notado minha fragilidade, uma sensação estranha que não faz sentido, que não tem sentido, que não tem motivo. O que antes era, já não mais é. Não vejo graça no que antes me retinha tanto prazer, é como se Paulo, o apóstolo, estivesse certo ao dizer que deixamos as coisas de menino quando não mais somos meninos. Tenho um novo desejo, Claire. Um desejo vivo que pulsa em mim e toma forma: gesta em meu ventre e sobre às minhas entranhas como algo que ali sempre esteve  nunca o conheci. É algo que faz meu dia ser mais claro e minha vida mais repleta de energia... ah, Claire... quanto tempo perdido entre falos e peles que hoje não mais estão, não mais são, não mais têm importância... Estou a redescobrir a am...