Friday, December 30, 2011

A fuga do peixe

Há uma pequena abertura no aquário da sala, por onde fugiu meu peixe. Embora ele fosse eminentemente cinza, seu dourado se destacava entre os móveis e a porcelana branca do armário.  Ao perceber sua ausência, tive um pequeno aperto no peito. Ele partiu. Agora minha casa está vazia, a velha cadeira de balanço onde ficava por oras a admirá-lo parece sem sentido e necessidade. Falta o cinza do peixe, o seu dourado e a certeza de que toda manhã se renovaria.

Não amanheceu essa noite. Não houve uma renovação de atmosfera e as flores que ontem estavam a enfeitar minhas roupas murcharam pela ausência da luz do peixe. É como se o aperto de meu peito parasse, quando ele estivesse em mim. É como se minha vida fosse poupada, tivesse uma razão de ser ao alimentá-lo todos os dias.

Abro a geladeira e não sinto a fome me visitar. Tudo gira, não reconheço minha imagem e aos poucos me desconcerto em mim. Como aquela música. Como aquela diferença entre tudo o que era comum. Meu peixe fugiu. Parte de mim fugiu. Minha música fugiu. Sua foto no canto da prateleira está distante. A própria vida que tinha, está distante.

Vou tirar as flores do vaso, tirar minha roupa da atmosfera e brindar o branco de minha sala com uma saudade de quando estávamos no Velho Mundo. Grande viagem. Conhecemos Veneza e o Sena sempre pareceu mais belo, quando admirado dos cafés parisienses onde relembrávamos da poesia de Pessoa. Ah, Pessoa... o Tejo e a saudade de sua família!

Antes de ir, ele deixou um bilhete com a última canção que tivemos juntos. Lembrou-se da primeira voz que soltou nosso riso e me emocionou com a caligrafia singela. Ele tinha anseio de novos oceanos e de uma vida fora do aquário. Ele tinha anseio de encontrar a si mesmo em mares de fúria e calmaria, longe da rotina de móveis e porcelanas que tiravam seu dourado pelo cinza.

Acho que consigo entender minha dor e aceitar sua distância: meu peixe era livre, ainda na prisão de cristal. Seu canto aumentava ao sabor de sua consciência de liberdade. Seu canto o fazia ímpar e mesmo os objetos o saudavam a majestade. Era o meu peixe, belo, livre. Hoje, é uma lembrança que me leva às lágrimas na casa vazia...

Elton Francisco

26/10/2005

Wednesday, September 28, 2011

"...deixai com que os mortos enterrem seus mortos!"

 

É uma manhã ensolarada com gosto de primavera. Sinto uma mescla entre frio e calor enquanto, caminhando, passo pela igreja de São Francisco.  Emociono-me. Paro diante da construção. Faço uma mesura e entro, tímido, nesse templo que há tempos está presente no alto da Penha.

 

Percorro com os olhos por toda a nave e vejo-me sozinho. Entro em um corredor e saúdo os bancos vazios que ali estão. Paro novamente e ajoelho-me. Abaixo os olhos e uma oração sincera sai de meus lábios. Meu peito enche-se de um calor suave e tenho nada a dizer senão agradecer, sinceramente, pela força que tive até aqui.

 

Mais alguns minutos e algumas lágrimas cortam-me o rosto. Emociono-me. O calor torna-se mais intenso e tenho certeza de que ali, naquela epifania, estou em paz. Calo-me e continuo minha oração. Agradeço pela alegria que me invade o peito, pelas mãos marcadas, pela saúde em meus pés descalços. Agradeço, sobretudo, por poder chorar e celebrar, em meu íntimo, a transformação por que passo.

 

Lembro-me do Mestre e de suas palavras sublimes que me confortam o coração: “...deixai que os mortos enterrem seus mortos”, diz a passagem. É como se deixasse ali, depositado em suas mãos, o pranto que me aflige. Deixasse ali, em suas mãos, o motivo de toda dor. Os mortos estão a caminhar pelas ruas e suas palavras não me podem ferir enquanto estou ali, com o conforto do Divino. As palavras dos mortos não me podem atingir se eu estiver na paz de meu Divino Amigo...

 

Levanto-me.  Tenho um suave sorriso nos lábios e um novo ânimo em meu íntimo. Saio, ainda timidamente, e o sol continua a me saudar. Uma brisa me toca o rosto e apenas sigo, a caminhar, na certeza de que há mais vida em mim...

 

E quanto aos mortos, vou seguir orando para que um dia consigam descobrir um sentido.

 


Linked in: www.linkedin.com/in/breltonsilva

 

Tuesday, September 20, 2011

na casa de meu Pai há muitas moradas...

Há realmente muito o que compreender nesse Universo em que estamos inseridos. Dias em que fico a pensar e minha ação é nenhuma senão agradecer, e muito, a cada momento em que desfruto da existência. Fogem-me as palavras para celebrar, com propriedade, a benesse de viver!

 

E basta viver, amigo, com tanta intensidade e entrega que não haverá tempo para lutar contra os desíginios do Divino. Basta aceitá-los e entregar-se, por opção, e viver com Ele sem que haja o que nos atrasar. E esse Divino, que pode se manisfestar de acordo com a crença que professarmos, estará sempre a nos guiar para que cheguemos à plenitude do que somos... somos divinos, meu caro, e como divinos a responsabilidade de praticarmos a divindade a todo momento, testemunharmos a divindade de nossa transformação e vencer o que nos afasta daquilo que somos.

 

A caminhada é íngrime e nos leva a deparar com muito que nunca habitou a imaginação. Conheci os cães infernais que trabalham para lei e os rastejantes que, obedientes ao Divino, limpam as fileiras de desgraças que os homens optam por praticar. São seres Divinos, claro, moradores do inferno para equilibrarem o Universo. Seres esses obedientes à luz e submissos ao plano por que ainda passam. E tudo evolui, sempre, com a velocidade que foi determinada pelo grande criador.

 

Mas há uma estranheza que teima em persistir: quanto ainda temos de apego aos nossos desejos e limitações. Quanto ainda dependemos de falos e prazeres fugidios pela humanidade que temos. Talvez venhamos aprender a cultivar a humildade e nos aproximemos do que é etéreo. Talvez aprendamos a praticar o amor e o sexo será como um vinho envelhecido tomado diligentemente: um prazer raro e valorado.

 

É o que tenho, hoje.

 

Val

 

 

Monday, September 19, 2011

Exultai e alegrai-vos...

Há dias que sinto lágrimas brotarem em meus olhos e emociono-me com mais frequência que antes.  É uma sensação completa e complexa, pois desenvolve-se, em mim, uma confiança intensa de que tudo está correto e tudo o que passamos só nos faz crescer. A lágrima diz que estou vivo e tenho emoções que me fazem humano. Abro os braços e as chagas de minhas mãos crucificam meu antigo eu resistente à evolução, preso aos pequenos prazeres e distante da realização do meu eu-Espírito.

 

E pensei sobre a dor, mas não posso exaltá-la a ou elevar apologias ao sofrimento: aceito-a, apenas, como um meio de desenvolvimento, de aproximação com o Divino, como oportunidade de crescer em espírito. Essa vontade intensa de participar do Divino, na magia que está ao de redor, é quem conduz a essa crucificação diária de quem não sou – e penso que sou. Esse ser –não ser que se perde no egoísmo e não entende que o “deixar viver” é permitir a cada um seu ritmo próprio de crescimento.

 

As pessoas passam e deixam algo conosco. Algumas saem de repente, permite-nos um choro sentido e por pouco não caímos na tentação de manter a situação sem que haja evolução: tudo tem seu tempo, todos têm o seu tempo ao nosso lado e, quando esse tempo passa, não somos deuses do destino para definir que continuem... somos deuses sim, mas para que nossa vontade e poder permita o crescimento e nunca o estacionar de quem quer que seja.

 

Volto a dizer que não há mal e não há choro que persista. Retorno àquele princípio de que desenvolvemos nossos potenciais e aprendemos a mudar a realidade em que estamos quando realmente desejamos isso. E a realidade de que precisamos está além da que vemos, pois ela é integrada com o Divino e todos os seus estagiários de todos os elementos.

 

Celebro minha alegria, ainda que com um aperto de saudade no peito, a saber que nosso tempo será sempre dosado para que cresçamos e aprendamos que tudo é perfeito no universo e, deterministicamente, iremos nos tornar parte dessa perfeição.

 

Abraço, como sempre.

 

E.

Friday, September 02, 2011

Se a dor o visita, é tempo de mudar!

Daniel,

há dias que não paro para escrever e hoje meus pensamentos estão quietos e tumultuados ao mesmo tempo. Escrever, talvez, me faça sentir melhor. Acho diferente perceber que a dor e o incômodo servem para que mudemos, para que queiramos mudar e retornar a uma situação de maior conforto. É desconfortável perceber o erro: de julgamento, de expectativa, de desejo.

Decepção é a melhor palavra para descrever meu interior nesse instante. Uma decepção comigo mesmo, de me permitir a um novo embuste. Errei, Daniel, ao esperar e acreditar em quem não é nada além do que sempre foi. Sinto-me estranho, mas acho que é o aprendizado ao perceber que ser humano é permitir-se ao erro.

Ele, a quem julguei, parecia-me terno e inteligente. Alguém merecedor de confiança e amor. Sim, o meu sentimento mais nobre e sincero que não hesitei em entregar pelo juízo de minha intuição. Errei, Daniel, errei profundamente e minha intuição que parecia tão treinada me desperta à humildade. Desço de minha arrogância para me reconhecer falível, para me conceber capaz de aprendizado. Eu posso aprender com isso e a dor nada mais é que o alento ao crescimento.

Quando os amigos se afastam é porque nunca o foram de verdade. Quando os amigos deixam de ser amigos é porque a palavra que diziam não era suficientemente real para durar a eternidade. 

E como adivinhar, Daniel, quando entregamo-nos e  o retorno é não recíproco? E como adivinhar, Daniel, que o amor de repente é apenas unilateral? Como adivinhar que, às vezes, entregamo-nos por completo e o que recebemos é nada além do que a pessoa é capaz de dar? E se esse limite, dela, não nos for o suficiente? Como deixar de sentir o mesmo amor que sentíamos antes? Não deixamos, Daniel... não deixamos!

E é por isso que aprendo com essa dor da decepção. A decepção do castelo de expectativas que construí em minha mente, mas nunca existiu. Um castelo que não poderá existir porque ele, objeto de meu amor, está longe de ser mais do que é: uma criança que tem os pés descalços e limpos do pecado. Uma criança que ainda não aprendeu a falar e perceber algo que vá além de seu próprio conforto. Uma criança, carente, que acaba de perder a minha mais nobre intenção: eu desiti. Desisti de cativar, de conviver, de partilhar quem sou.

O erro, Daniel, me ensina a valorizar a mim e a aceitar quem sou. É preciso que eu sinta  a solidão antes de me tornar o que escolhi ser. E brilhar pelo que escolhi ser. E viver pelo que escolhi ser.

Foi apenas um desabafo,  meu caro. De alguém que de repente se sente humano demais para falar.

Um beijo saudoso,

E.

Wednesday, August 31, 2011

O novembro mais doce

Acho que foi o novembro mais intenso que vivi, ao seu lado.

Agora, enquanto ouço Tiziano Ferro, lembro-me de quando fazíamos amor e tudo parecia possível. Acho que tudo era possível.

Ainda é tudo possível.

Sei que por agora seus passos estão maculados e seu desejo dista do meu. Quantas vezes, entretanto, ao dormir recordo-me de seus beijos e seu carinho intenso. Quantas vezes, ao despertar, imagino seu toque doce a me embalar. E que saudade do pecado que vivemos e das mentiras que contávamos. Que saudade daquele tempo onde não tínhamos culpa e rir era o que nos mantinha juntos.

Tiziano continua seu ritmo e agora grita “te amo” da mesma forma com que fazíamos um ao outro quando ouvíamos.

Não tenho mais o vinho que nos embriagara e nem as taças que quebramos em enlouquência. Nem mais somos os mesmos, doce criança. Mas não haverá outro sentimento senão amor. Talvez será eterno o que sinto e nunca me esquecerei de você. Mas agora, sobretudo, respondo ao seu apelo e digo que passou.

Ficamos bem distantes um do outro. Tornamo-nos piores, eu sei, porque continuamos sem culpa e o que fazemos não necessita de personagens. Precisamos desse alimento doce, dessa dor que provocamos ao alheio para seguirmos vivos.

Talvez mudemos um dia, mas até lá, sigamos nossos caminhos, separados.

Um beijo suave,

E.

Tuesday, August 30, 2011

talvez...


é tarde e preciso dormir.

é tarde. preciso guardar meu canto e apenas adormecer.

sonhar.

talvez sonhar com você ou com quem quer que seja.

talvez não.

talvez o que sinto seja apenas ansiedade.

talvez eu tema pelo desconhecido.

talvez eu tema pela distância do amigo mais amado.

talvez esse amigo mais amado aceite meu convite.

talvez...

vou apenas dormir, amigo, amado, irmão, amante.

não amante de sexo, amante de ouvido.

amigo de ouvido.

amigo mais amado.

esteja em paz.

E.

Monday, July 04, 2011

Feliz o que mesmo?


Tenho uma sensação estranha, Wilson. Como se a saída do ano e o início de uma nova fase não fosse o suficiente. E já faz tempo que o ano começara. Como se eu precisasse tomar ar puro e mesmo por aqui, na USP, o ar se pesasse com promessas alheias que me enchem de tédio e insatisfação: desisti de confiar nessas promessas e de olhar aos outros com condescendência.

 

É uma sensação estranha.

 

Fico a procurar um rosto para reconhecer o motivo dessa sensação e me perco em um exercício inócuo: o que faria se não estivesse nessa procura? E quem seria se soubesse o que procuro? E como reagiria se encontrasse o que procuro?

 

Volto a ter a mesma sensação estranha e o ar continua pesado pelas falas absurdas do campus. Aos poucos ele se contamina de fadinhas coloridas que com asas cintilantes me convidam a um passeio fantástico onde borboletas e abóboras conversam como gente grande. Aos poucos vejo os fantasmas de meus mártires e essa loucura me invade completamente. Sim, tornei-me um mártir, Wilson. Tornei-me louco e acabo a taça do vinho antes de dormir...

 

Será ano novo e me esquecerei de todas as promessas. Esquecerei do tédio e serei apenas mais um... E quando é a no novo mesmo?

 

Feliz ano novo!!!!!!!!
 
E.
 
P.s.>> Algum dia já disse o quanto que o adoro?

Comum

Saiu atordoado. Desceu pela gamelinha em direção a estação da Lapa, sem pensar. Triste, talvez. Tinha apenas a imagem de Janaína em sua mente. Tinha a sensação de sua ausência. Entrou na estação. Alcançou a plataforma. Parou e aguardou a chegada do trem.

Entrou e sentou-se em um canto qualquer, sozinho. Calou-se. Sentiu-se estranho pelas pessoas a sua volta. Sentiu-se mal pelo cheiro arrependido das palavras com que machucara Janaína. Sentiu-se dorido por não ter sido mais simples, meigo, presente. Sentiu-se comum em meio às pessoas do vagão.

Alguém se aproximou, sentou-se ao seu lado e perguntou seu nome: era um homem qualquer carente que precisava se abrir. O homem tinha cheiro de tabaco barato, daqueles comprados nas estações do Brás. Sua roupa exalava cachaça do centro da cidade, era rota e azul.

Ele se permitiu ouvir o homem. Não se moveu sequer para olhar em sua direção. O homem falava algo sobre o acidente de construção que matara três de seus amigos. Ele nada dizia. O homem então falou do Datena e do banho que tomaria ao chegar em sua casa. Ele nada dizia. O homem desceu com um pequeno sorriso, sentindo-se leve por ter falado. O homem lhe disse até logo. Ele nada disse.

Continuava de olhos fechados. A figura terna de Janaína ainda pairava em seus pensamentos. Talvez nunca, nem mesmo os anos, o fariam esquecê-la. Sabia que nunca a esqueceria. Lembrou-se daquele echarpe rosa que ela usava na primeira vez que se viram, do sorriso tímido com que ela brindava o final das frases, do jeito quase doce com que o agredia para parecer comum. Ele amava Janaína e talvez nunca a tivesse provado isso. E talvez nunca o fizesse, pois não era comum.

Depois de algum tempo resolveu abrir os olhos. Ainda estava arrependido pelas palavras que disse. Ainda confuso e contaminado pelo cheiro das pessoas que não existiam ao seu redor. Sentiu-se sozinho e triste. Sentiu-se alegre e capaz. Sentiu-se forte e fraco ao mesmo tempo. Sentiu-se com amor por Janaína.

Tanto faz, pensou consigo mesmo. Talvez comesse apenas tomates ao chegar em casa. Talvez tomates com ovos. Comeria e depois arrotaria como um simples mortal. Comeria ao lado de todos seus fantasmas e até riria de suas piadas. Iria ao banheiro depois, escovaria os dentes, sendo simples, sendo comum.

Ligaria a Janaína e diria algo simples. Diria que ele era simples. Diria que os simples, finalmente, são alegres. Depois deitaria e dormiria. Sim, como fazem os simples.

Onibus

Os nomes são iguais em sua mente doente, apesar dos rostos diferentes que giram simultaneamente a sua frente. O ônibus para. Acelera. Continua. Os pontos são vários, são várias as paradas e as idéias que passam. Traz pequenos tragos na memória, chora o desatino de vida fugaz e vazia. Está sóbrio e sozinho.

 

            O sol bate forte pela janela, queima sua pele branca e ofusca seus olhos claros. Preferia a noite. Na noite as pessoas não descobrem os seus enganos. A velha gorda pedia, com os olhos, um canto ao seu lado. Fingiu que dormitara, a velha negra estava suja e fedia a peixe. O garoto a sua frente pigarreou um resto de vida pela janela e, então, o fitou fechando a cara.

 

            Talvez a manhã estivesse começando, na tarde que viria se esqueceria das palavras amargas da noite anterior. Ainda tinha nos lábios o impacto do beijo roubado e no corpo a sensação do perfume neutro... Onde estava indo? Onde estaria?

 

O ônibus continuou o seu trajeto, seu pensamento encheu-se de pensamentos incertos e sem nexo. Via o verde de matos e as pragas que invadiam as calçadas. Avistou o cigarro do homem em um portão e ouviu, de súbito e por um instante, o rádio com um sertanejo ao longe. "A mesma música de ontem" - pensou consigo.

 

            O ônibus chegou ao seu final. Ele desceu. Avistou a casa branca, logo a frente. Chamou por alguém. Chegou. Descarregou nele o seu revólver. E sumiu.

Horácio

 

Wednesday, June 08, 2011

Mais dos domingos (todo dia agora é domingo!)

[Novembro, 27 -2007]

Sentava-se e sempre pedia a mesma coisa: bananas, mel e coca cola. Quando eu via, e nem sempre eu via, procurava não transparecer a estranheza que ia em meu peito. Às vezes fingia que lia o jornal, outras vezes sorria laconicamente como a desejar "bom apetite"! Era diferente, nos domingos de manhã, observar aquela senhora idosa com coisas tão comuns que juntas apetecia seu ser.

 

Na última semana ela não foi. Pensei que talvez se atrasasse, fiquei um pouco mais que o costume na padaria, sentado no mesmo lugar a torcer que ela aparecesse para tornar meu dia como os outros. Mas ela não veio. Eram 10h quando tive a ousadia de perguntar ao garçom que sempre a atendia... ele disse que ela havia mudado e fora se despedir de todos, iria morar com os filhos!

 

Por um momento me enfureci: como seus filhos poderiam tirar de mim o prazer de observa-la aos domingos? Como tiraram de mim aquela epifania tão doce que rotineiramente habitava meus domingos? Levantei-me enfurecido, paguei e saí...


A decadencia da verdade

[Agosto, 23-2006]

Hoje eu queria fingir que sou uma pessoa diferente. 


Vou me deixar acreditar que é natal, que estou na casa de amigos acompanhado de Elenice, minha querida esposa e nosso filho João Francisco está conosco. À meia noite abrimos a garrafa de vinho e cantamos alegres ao trocarmos presentes... Elenice me abraça com carinho e me beija nos lábios. Ela diz que esse será mais um natal feliz, que seremos sempre felizes e nada irá nos separar.

 

Lembro-me de quando nos conhecemos em uma excursão para Rio Bonito. Era primeira vez que ela viajava sozinha e eu passei a ampará-la em todos os passeios pelos lugares inusitados. Acho que nos apaixonamos ainda no ônibus, mas como eu era tímido, só depois de alguns meses é que aconteceu o primeiro beijo. Depois de um ano de casados veio nosso grande afeto: João Francisco. Nasceu com 3,5 kg, cabeludo e vermelho. Ela dizia que seus olhos verdes se pareciam com os meus, e eu dizia que seus cabelos claros eram da herança de seus avós. Ah, como amei ser pai desde o primeiro momento.

 

Mas é natal. Amanhã iremos almoçar na casa de seus pais, uma reunião de família que já é tradicional. Eles moram aqui mesmo no Sumaré e todos irão prestigiar o peru preparado por seu pai. Sinto que somos felizes, temos familiares que nos compreendem e amamos um ao outro.

 

Em uma semana voltaremos a correria: Elenice nas aulas de arte na Unesp e eu continuarei com meus projetos na consultoria... tudo muito tranquilo!

 

Talvez daqui a pouco isso passe e eu verei que não consigo acreditar que sou diferente. Não consigo acreditar que não há Elenice, João Francisco ou uma consultoria. Não há natal e não há casa no Sumaré...
 
Estou triste, todavia!
 
El

Sunday, May 22, 2011

tempo e eu: aniversário

a vida e o tempo :: viviane mosé

***
eu acho que a vida anda passando a mão em mim
eu acho que a vida anda passando a mão em mim
eu acho que a vida anda passando
eu acho que a vida anda
a vida anda em mim
a vida anda
eu acho que há vida em mim
há vida em mim
acho que a vida anda passando
a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo
quem anda me comendo é o tempo
se bem que já faz tempo, mas eu escondia
porque ele me pegava a força
e por trás

até que um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo, se você tem que me comer
que seja com meu consentimento, e me olhando nos olhos…
eu acho que eu ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem
que ando até remoçando.


Poema do livro: Pensamento do Chão, poemas em prosa e verso.

Thursday, May 19, 2011

Amor sem afeto

Claire,

hoje uma alegria imensa invadiu meu ser. Acordei em paz, bem, animado por viver.

Ontem, enquanto comia pizza com alguns colegas da faculdade, descobri algo. 

Olhei-os como se os visse pela vez primeira. Observei como falavam, como expressavam suas idéias e se deleitavam com o futebol na TV. Mastigavam com rapidez e, mesmo com a boca cheia de alimentos, cuspiam suas teorias sobre a vida.

Claire, foi uma clareza imensa que me veio a mente: eu não gosto deles. Eu não me pareço com eles. Eu não sou amigo deles. 

Comecei a rir com essa descoberta, pois junto a ela me veio outra coisa: eu não tenho de gostar deles.

Que liberdade! Que libertação do espírito! Que paz!

Claire, não sou obrigado a gostar deles e não preciso me culpar por isso. Eu simplesmente não preciso gostar porque convivem comigo, porque comem da mesma comida ou dormem na mesma cama. Não, eu não preciso, eu não tenho, eu não vou!

De repente é uma clareza plena. Eu não sou obrigado a ter afeto e não preciso me culpar por isso. Eu não preciso achar que há um Deus criador que me olhará feio por que não gostar de suas criaturas, porque esse Deus juiz não existe.

É tudo tão claro, Claire, que a paz que sinto me faz bem. Eu não preciso ter afeto, Claire. Eu não sou obrigado a ter afeto.

Eu posso ajudar a senhora idosa no farol, contribuir para uma obra beneficente, sorrir para os que precisam de amparo em meio a dor. Eu posso me apiedar e dar carinho, ser educado e atencioso, ouvir aquele que está em desespero. Mas eu não preciso ter afeto por nenhuma dessas pessoas.

Eu posso chorar ao lado dos que sofrem e tentar junto buscar solução para o problema. Eu posso ajudar e dar minhas mãos e tempo para contribuir ao bem... mas não preciso ter afeto!

E é essa máxima, Claire, que me liberta. É essa máxima, que me traz paz. É essa certeza de que não existe esse Deus, não existe essa lei, não existe a necessidade de ter afeto para ter amor... essa paz, Claire, é o que não tem preço.

Bem, é isso. amanhã será mais um dia em nossa distância, enquanto celebro seu aniversário e trago meu cigarro, sem culpa, sem medo, sem tempo.

Um beijo,

Sol.

Saturday, April 09, 2011

E então...


Resolvi descer as escadas e ganhar a rua. Rever pessoas, andar pelos becos e sentir o cheiro doce da civilização. Encontrei-me com aquele branco que canta músicas sob minha janela, vestido de roxo e inconformado com a derrota do corinthians. Nada pude fazer senão me aproximar e sorrir com o que vi. E nada vi, certamente. Estou sonolento pelo tempo que passei cercado em minha toca. Não me acostumo novamente com essa vida que insiste existir fora de meu apartamento. Não reconheço isso.

Paro em um boteco qualquer, sento-me e peço uma cerveja acompanhada de uma porção de amendoins. Sorrio por ver que ao meu lado cantam um pagode qualquer e ali perto avisto um do meu time de futebol. Ele se aproxima e pergunta porque tenho faltado tanto, ele se aproxima e puxa uma cadeira. Depois mais um e logo estou rodeado por todos, com porções de calabresas e outras cervejas abertas. Contamos piadas, acompanhamos o ritmo do pagode e saboreamos as pequenas que se aproximam a dançar.

Sinto-me vivo, e estranho isso. Sinto-me, de repente, como parte da roda, do samba, da cerveja e do amendoim. Esqueço-me de meu apartamento, abraço com mais força a nega que se sentou ao meu lado e deixo acontecer. Prometo que irei ao futebol, prometo que dançarei, prometo...

É uma bosta mesmo isso, não?

Beijos,

E.


Tuesday, March 29, 2011

Amar, verbo intransitivo

 

Claire,

 

Reli o poema de Drummond enquanto tomava conhaque, ontem, com meu cão. Há dias que paramos, cansados, e ficamos sentados com nossos cachimbos em silêncio, a meditar em tudo o quanto fizemos ultimamente. Discutimos horas, meu cão e eu, a pensar no quanto amar nos torna o que somos, ainda que pela nossa natureza, nos limitamos a conceituar o amor e passamos a vida sem amar.   

 

Por que circundamos o amor no outro quando podemos deixá-lo fluir de nós? Por que, Claire, nos afastamos de Deus e nos culpamos por cada ato que fazemos? Por que nos limitamos tanto e não nos permitimos experimentar?

 

Nenhum de nós tivemos respostas, Claire. Meu cão silenciava-se por não saber o que dizer quando questiono a culpa. O que é a culpa senão o limite que nos impomos? O que é a culpa senão o que aceitamos para pertencer a um grupo? O que é a culpa, Claire, senão a negação de amar?

 

Como amar, minha irmã, se não conseguimos aceitar o que somos - e quem somos - senão por um modelo externo do que temos? Temos um mundo interno, Claire, e o negamos em nome do modelo que vemos. Em nome de um modelo que seguimos ao preço de pertencermos a algo: negamos a divindade, negamos o Deus, negamos a nós mesmos porque somente sendo o modelo podemos pertencer a um grupo.

 

Amar em grupo: amar em mim o outro. Pregamos essa ideia e não a reconhecemos. Não reconhecemos o outro senão estiver no modelo do que somos. E culpamos. Imputamos a culpa como forma de des-culpa. E a des-culpa explica: ao outro por não estar no modelo, por não ser o modelo. Ainda não é tempo, ainda não está pronto. Como se fosse possível estar pronto em algum momento, se tornar pronto em algum momento, ser diferente em algum momento.

 

Foi quando meu cão sorriu, Claire. Condescendente, sorriu por perceber que o amar de que falava não existiria fora de mim. Amar, Claire, é um estado de espírito e não exige algo como objeto de amor. Elegimos algo para canalizar o amor que temos, mas não reconhecemos o amor que temos, o amor que somos. Porque não reconhecemos Deus e acreditamos que o que fazemos está fora de Deus. O que somos e o desejo que sentimos.

 

Não existe amor igual ou amor amigo: existe o amor, existe o amar. Mas como amar sem gênero se temos o gênero em nós? Como amar o igual? Como aceitar que posso amar o igual? Porque amamos, simplesmente. E amar é intransitivo, não existe o objeto para amar.

 

Como sempre, Claire, é essa saudade de seu espírito que me leva a viajar e escrever. Meu cão, com seu cachimbo e conhaque, diz que essa loucura ainda poderá render bons frutos. Sinto por ele, pois não percebe que essa loucura não existe, essa loucura sou eu.

 

Com amor,

 

E.

Saturday, February 26, 2011

Redescobrir a amar


Queria que estivesse aqui, minha irmã.

É estranha essa distância entre a gente quando há tanto que gostaria de compartilhar. Quando há descobertas que gostaria de dizer e discutir horas com você para que me dissesse o quanto estou louco. Estou louco, Claire. Louco. Há tempos tenho notado minha fragilidade, uma sensação estranha que não faz sentido, que não tem sentido, que não tem motivo. O que antes era, já não mais é. Não vejo graça no que antes me retinha tanto prazer, é como se Paulo, o apóstolo, estivesse certo ao dizer que deixamos as coisas de menino quando não mais somos meninos.

Tenho um novo desejo, Claire. Um desejo vivo que pulsa em mim e toma forma: gesta em meu ventre e sobre às minhas entranhas como algo que ali sempre esteve  nunca o conheci. É algo que faz meu dia ser mais claro e minha vida mais repleta de energia... ah, Claire... quanto tempo perdido entre falos e peles que hoje não mais estão, não mais são, não mais têm importância...

Estou a redescobrir a amar, Claire. E a amar mais que o desejo, mais que a pele, mais que o falo mínimo diante do universo do corpo.

Amar que não é sentimento estático, mas é ação. Amar ao reconhecer a importância de um outro, sem que o outro seja o único objeto de meu afeto. Não há um único objeto de meu afeto. É como se tudo fosse mais claro e o que vejo são belezas, brutas ou lapidadas, a desfilar em meu cotidiano.

Como se eu quisesse tocar o outro que se senta ao meu lado no ônibus e se encosta a cochilar em meu ombro. Como se ele fosse mais que um desconhecido com sua vida, mas fosse parte da minha vida desconhecida. Como se tivéssemos contato sem que contato fosse o que fizéssemos todos os dias nos ônibus que tomamos. Não, Claire, não é apenas ele, do ônibus, que me toma o amor...

É como se amar fosse soltar essa luz adormecida e deixá-la derramar-se, perder-se, tomar-me completamente. E toco as árvores e os cães, Claire. Toco cada ser e me encho de uma alegria plena, pois sinto-me também tão amado quanto o amor de doei.

E é esse amor, Claire, que tenho sentido por cada um dos amigos que se aproximam e me abraçam. Eles não sabem, mas há em cada abraço uma troca energética tão forte que nos tornamos um, apenas um, a pendular suavemente envolvidos naquela paz. São amigos, Claire. Amigos... que vêm sem perceber que deixam em mim a marca indelével do meu próprio amor. Que levam de mim parte deles mesmo que devolvo... é Amar, Claire... amar e amor!

Mas estamos distantes, agora. Deixarei que adormeça novamente e siga, velando-se a si mesma, enquanto celebro (por enquanto) essa sensação nova de amar, amar, amar...

Um beijo doce, minha irmã.

Luis