Amor sem afeto

Claire,

hoje uma alegria imensa invadiu meu ser. Acordei em paz, bem, animado por viver.

Ontem, enquanto comia pizza com alguns colegas da faculdade, descobri algo. 

Olhei-os como se os visse pela vez primeira. Observei como falavam, como expressavam suas idéias e se deleitavam com o futebol na TV. Mastigavam com rapidez e, mesmo com a boca cheia de alimentos, cuspiam suas teorias sobre a vida.

Claire, foi uma clareza imensa que me veio a mente: eu não gosto deles. Eu não me pareço com eles. Eu não sou amigo deles. 

Comecei a rir com essa descoberta, pois junto a ela me veio outra coisa: eu não tenho de gostar deles.

Que liberdade! Que libertação do espírito! Que paz!

Claire, não sou obrigado a gostar deles e não preciso me culpar por isso. Eu simplesmente não preciso gostar porque convivem comigo, porque comem da mesma comida ou dormem na mesma cama. Não, eu não preciso, eu não tenho, eu não vou!

De repente é uma clareza plena. Eu não sou obrigado a ter afeto e não preciso me culpar por isso. Eu não preciso achar que há um Deus criador que me olhará feio por que não gostar de suas criaturas, porque esse Deus juiz não existe.

É tudo tão claro, Claire, que a paz que sinto me faz bem. Eu não preciso ter afeto, Claire. Eu não sou obrigado a ter afeto.

Eu posso ajudar a senhora idosa no farol, contribuir para uma obra beneficente, sorrir para os que precisam de amparo em meio a dor. Eu posso me apiedar e dar carinho, ser educado e atencioso, ouvir aquele que está em desespero. Mas eu não preciso ter afeto por nenhuma dessas pessoas.

Eu posso chorar ao lado dos que sofrem e tentar junto buscar solução para o problema. Eu posso ajudar e dar minhas mãos e tempo para contribuir ao bem... mas não preciso ter afeto!

E é essa máxima, Claire, que me liberta. É essa máxima, que me traz paz. É essa certeza de que não existe esse Deus, não existe essa lei, não existe a necessidade de ter afeto para ter amor... essa paz, Claire, é o que não tem preço.

Bem, é isso. amanhã será mais um dia em nossa distância, enquanto celebro seu aniversário e trago meu cigarro, sem culpa, sem medo, sem tempo.

Um beijo,

Sol.

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