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Mostrando postagens de 2010

Tornar-se

Há tempos eu o notava pelo campus, sempre com seu jeans surrado e sua camiseta branca, comum, que lhe marcava o tórax. Tinha os olhos escuros, cabelos curtos e a barba sempre por fazer. Um jeito moleque, de riso fácil que cativava qualquer que se aproximasse sem intenção. Ele nunca tinha intenção. Talvez lhe faltasse a malícia dos que experimentam e conhecem a maldade do mundo, dos que conhecem o mundo. E foi na sexta, antes do feriado de todos os santos, enquanto eu caminhava absorta e perdida nos cálculos mentais de minha vida acadêmica, que eu o topei de supetão e fui lançada ao chão. Ele também quase caiu e eu, vermelha, não me cabia de vergonha. Não conseguia levantar o rosto e ouvia um dos cães a ladrar quase uníssono com o riso dele, que se divertia a mirar-me. Tateei o chão, cega, em busca de meus óculos. Ele se inclinou e ajudava-me a levantar, repetindo sua falta de intenção. O cão, em algum lugar, continuava a ladrar e em mim um calor descia. Quanto não quis sua aprox...

A Caixa

E deu-se durante seu aniversário de sete anos, ao abrir o presente que ganhara de sua madrinha Júlia. Ela, eufórica, perscrutava os adultos com tamanha volúpia que todos seus sentidos se assemelhavam a bocas que os devoravam com a altivez das crianças inteligentes. Ela, Ananda, buscava nos adultos alguma nesga de sentido que a arrebatasse de seu mundo onde, livre, poderia simplesmente ser. Eles, os adultos, não lhe notavam qualquer traço de anormalidade e acreditavam que eram o suficiente os antigripais durante o inverno. Diria, quem os visse, tratar-se de algo comum, mas era um ritmo distinto em que giravam as rodas de existência. A caixa do presente era grande e púrpura, com laços dourados e fazia um barulho estranho ao balançar. Ananda ainda tentou imaginar que surpresa lhe traria aquela caixa, mas em sua infância faltavam-lhe dores para se comparar aos adultos e suas ansiedades. Sorriu e agradeceu à madrinha com um gesto quase doce, quase suave, simplesmente seu. Abraçou-se com...

Galinhas de Angola

Talvez as galinhas estivessem apenas com frio, isoladas na periferia e esquecidas pelos transeuntes que   não as reconheciam como parte do local. Eram apenas galinhas, diriam. Poderiam servir de alimento ou então de entretenimento aos que tivessem tempo para compreendê-las. Tive pena delas, com frio. Compadeci da situação e das pessoas que não as viam, que talvez pela constante vida que passaram na periferia não poderiam reconhecer nenhuma imagem distante da vida que tinham. Não me achava como elas. Eu, parte da periferia e de seus cheiros, não era uma delas. Tinha uma outra imagem que fluia de mim e me fazia à parte, nesse mundo tão meu. Aproximei-me das galinhas e tentei me comunicar, em silêncio, como se a ausência de palavras fosse o código que utilizávamos ao falar. Ajoelhei-me e as olhei com complacência. Elas, relutantes, soltavam um pio ou outro quando viravam a cabeça, desconfiadas, para que pudessem me ver de ambos os lados. Seus olhos brilhavam de frio e suas penas, er...

e Carmem...

Era tarde quando me sentei na poltrona, recostei-me e pensei em distrair-me durante o trajeto de volta. Levaria um tempo ou dois até que chegasse e, após a toalete noturna, estivesse novamente a repousar em meu leito. Mais um tempo e seria um novo dia, quando sol me saudaria como convite ao trabalho e tudo se iniciaria, como sempre.   Em meio ao burburinho, vejo quando ele se aproxima e se senta na poltrona ao lado. A sua frente, o outro se equilibrava com as bolsas de fraldas, mamadeiras e outros tantos apetrechos do pequeno. Era Carlos. Ele e Carlos que distraidamente riam a minha frente do dia que tiveram. O filho, no colo dele, dava sinais de que já dormia há um outro tempo. O chacoalhar do trem embalava seu sono, quase o meu sono, quase o nosso sono. O corpo relaxava e movia-se levemente a cada parada nas estações seguintes. Carlos sorria, mesmo em pé, embevecido pela conversa que mantinha com o outro.   Eram felizes e completos no que diziam, sobre o que diziam e como dizia...

Faz bem amar

Faz bem amar, um bem tão intenso e bom que me renova o espírito. Faz bem amar quem quer que seja, amar com intensidade, carinho, coragem. Faz bem amar o amigo e rir do jeito engraçado com que ele brinca sozinho, com que ele fala sozinho, com que ele come um sanduíche de pasta de amendoim sem amendoim... rs Faz bem amar aquela doce garota que nos atende no balcão da padaria e sempre tem um sorriso pela manhã, ainda que o dia tenha começado antes pelo horário de verão e todos estão ainda a dormir em suas casas. Faz bem amar quem senta ao nosso lado no metrô ou no trem, ainda que esteja distante do ideal de companhia silenciosa que gostaramos de ter ao nosso lado. Faz bem amar... É bom ter saudade e aprender a continuar mesmo distante. É bom sentir alegria ao receber um telefonema, ainda que em plena manhã de domingo quando dormir seria melhor que acordar... É bom amar, é bom conseguir olhar o que temos de bom mesmo quando tudo parece perdido. É bom escolher ver a beleza ainda que a tra...

Respiração

Não tenho problemas com o centro da cidade. Na verdade, acho que poucas vezes tive algum problema com a cidade em si, com as coisas que a cidade oferece ou seus cheiros e particularidades. Mas hoje foi diferente. Acho que hoje, estou diferente. Andar pela praça do correio é um desafio que exige requinte. Passar por entre inúmeras barracas a tocar o som dos salões de bairro é repugnante. Olhar nos olhos vazios das pessoas que comem seus sanduíches de cinqüenta centavos, enquanto outras se oferecem por sexo a troca de passe de metrô é a prova de que se está vivo! Entrei em um bar qualquer e pedi o que comer. Logo atrás de mim, vestido como os outros seres da praça, entra um garoto que também pede por comida. Ele se coça com freqüência e desconfio de que tenha se utilizado de algum serviço de meretrício. Veste uma blusa azul suja e uma calça rota feita de jeans. Suas mãos são limpas e a pele é clara. Unhas bem cortadas e cabelos aparados ao ombro. Olhos fundos, também perdidos, de...

De agora

Enquanto meu sorriso voa pelas sombras, sua imagem paira sobre a cama e me espera. Um silêncio surdo, de cheiro acre, faz com que o tempo entre nós se torne denso e tranquilo.   Seus pés são marcados e mancham meu lençol. Ele se despe suavemente e diz que nunca me amaria novamente, mas se entrega apenas para que eu me machuque uma vez mais. Seus lábios contém o veneno de minha ventura e fico a imaginar mil maneiras de torturá-lo em que sinto.   O vento se quebra à janela e uma voz doce sai de meu pesar. Peço-lhe que me encare. Ele confessa sua ventura errante e faz com que suas lágrimas lhe salguem a face. Levanta-se, nu, e vem ao meu encontro. Afasto-me. Paro diante do batente da porta e lembro da nossa música de outono. Do dia em que na chuva escrevemos nossos nomes na árvore... Não quero ser romântico, mas ainda assim dou dois passos em direção ao seu encontro e sorrio novamente.   Ele volta, senta-se na cama e nada diz. Abaixa seus olhos. Percebe meu transtorno. Faz m...

O caçador de mariposas

O livro estava aberto sobre a escrivaninha e, ao lado, havia um pequeno retrato de sua mãe quando criança. Estranho recordar de sua mãe com uma foto tão antiga, mas sentia-se seguro por não ter que pensar em como se foi e, também, como a ausência era tão presente em seu íntimo. Por um momento eu o compreendi e emocionei-me com sua alma. E também com o livro, aberto, falando de contos de solidão e presença.   Era uma história curta, sobre um caçador de borboletas que passou a colecionar mariposas. O caçador dizia que a beleza das mariposas estava em que nem todos a poderiam enxergar. Um dia em suas viagens, foi convidado para um chá com a rainha das mariposas. Ao chegar ao seu castelo, percebeu que todos os soldados eram borboletas, coloridas, vívidas e de porte altamente elegante. Ao ser recebido pela rainha das mariposas, questionou-a por que da corte tão diversa e ela, complacente, responde-lhe que nenhuma beleza é real se não puder ser útil para alguém. Intrigado, ele se s...

Ainda o encontro

Não me lembro sequer do nome. Ele comentava sobre sua avó, seu pai que ficara adoecido e até mesmo das idiossincrasias que o faziam tão lúdico diante dos meus olhos. Os caracóis enegrecidos, que radiavam sua origem italiana, atiçavam os desejos de minha mente e meu corpo aspirava compenetrar-lhe no âmago.   Exalava o cheiro de sua elegância e ostentava a beleza dos seus dias juvenis. Dias onde visitava tios, passava os natais em família e acompanhava sua avó em terços pela saúde do carro antes da viagem. Bons tempos, seriam. Sua tez delicada e seu sorriso franco denotavam a nudez de seu espírito. Amei-o no primeiro instante e ofusquei-me com seu brilho. Levantei-me e toquei seu corpo.   De súbito minha fantasia perdeu-se. Seu beijo não me arrebatou e não senti mais o cheiro doce que emanava do íntimo... ele queria a fera em mim e lutou para libertá-la. Ele se tornou como meu fantasma e tornamo-nos amantes, na sombra, com meu pensamento distante fora de mim.   ...

O encontro

Foi uma tarde feliz, quando chegamos. Foi uma tarefa difícil de se cumprir, quando nos vimos. Agora, em silêncio, percebo o quanto era preciso e ainda o será.   Espero que ele esteja bem onde quer que vá. Espero que ele veja luz por onde passar. Que encontre paz.   Vamos nos ver novamente, um dia. Vamos sim, eu sei. Ainda que tenhamos o mesmo escrúpulo, medo, fobia. Ainda que nos percamos novamente, nos encontremos depois, deixemos de lado o pesar e a culpa.   Foi um encontro feliz, acredito.   Foi um momento feliz, ainda sei.   Até breve, eu lhe disse. Vamos nos ver novamente, um dia. Sem culpa. Sem medo. Sem jogos.   Até lá eu penso na tarde feliz, o encontro.   E.

Eu desisto

Eu desisto de pensar em humanidade e no humano como criador de sua história. Desisto de investigar a curiosidade, a indignação e a imaginação que poderia beneficiar a busca do incomum. Desisto de tentar entender os conceitos, pós conceitos e pré conceitos. Desisto da filosofia e de toda lógica que um dia me empregou. Desisto. Por um momento, enquanto em silêncio, quero agir como macaco. Quero ser como macaco. Quero andar como macaco. Gritar todos os palavrões que me vierem à mente e rasgar todas as teorias que me fizeram aceitar a racionalidade. Não quero raciocinar. Quero ficar em pé e olhar pela janela as ilações de minha alma. Quero olhar a fumaça de meu cigarro se misturar com a fumaça dos trens, dos carros, dos homens. Ah, os homens. Os humanos homens remanescentes de racionalidade. Vou soltar meu riso de macaco, perturbado pela contaminação de meus pulmões pelo tabaco. Perturbado pela elucubração que me retira o racional. Não, não quero pensar pois desisti. Desisti de man...

Tempo que foge

Descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicentemente, mas percebendo que faltavam poucas, passou a roer o caroço. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio. Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordiná...

Palavras que busquei na web

" Há pessoas que querem ser bonitas para chamar a atenção, outras desejam a inteligência para serem admiradas. Mas há algumas que procuram cultivar a alma e os sentimentos. Estas alcançam o carinho de todos, porque além de belas e inteligentes tornam-se realmente pessoas... Eu só me preocupo com a minha CONSCIÊNCIA e não com a minha REPUTAÇÃO.!!.Porque a minha CONSCIÊNCIA é o que SOU.!!.e minha REPUTAÇÃO é o que os OUTROS pensam de MIM.!!.isso não é problema MEU e sim DELES ...” "...mãe, você me pergunta se eu acredito em Deus. Eu te pergunto que deus? Tem sido minha missão te mostrar Deus nos homens, pois somente no homem ele pode existir.Não há homem pobre ou insignificante que pareça ser, que não tenha uma missão.Todo homem por si só influencia a natureza do futuro. Através de nossas vidas, mãe, nós criamos ações que resultarão na multiplicidade de reações, esse poder que todos nós possuímos, esse poder de mudar o curso da historia é o poder de Deus. Co...

Eternamento menino

Quase nada posso dizer e minha boca seca diante do que penso. Há um silêncio mudo e sem cor que se instala em mim. Um arrependimento quase real, quase vivo, de quando não me lembro de ser melhor. E nunca o fui. Pensei ter sufocado para sempre aquele desejo de morte que havia em meu íntimo. Pensei ter sufocado e perdido, para sempre. Mas esse para sempre insiste em me visitar enquanto nas paredes desse hotel procuro te ver uma vez mais. Enquanto na solidão que escolhi ainda vejo teu riso maroto, quase infantil. Teu riso da infância perdida, roubada pelos anos de trabalho, pelos anos de quando não sabias sorrir. Talvez o excesso de champagne me tenha tragado a consciência ou me arrebatado à lucidez. Não sei dizer, não sei confessar, não sei procurar. Não teremos sexo. Não te posso ter amor. Não te posso confessar por nossa indistinção e pelos laços de família que nos proíbem o amor, a paixão, o tesão. Tampouco sei o quanto me desejarias. O meu sonho insiste em ter-te sempre men...

A vida como no cemitério

A mãe faz tricô, O pai negocia, O filho luta na guerra, Tudo muito natural, acha o pai e mãe, O filho A mãe faz tricô, o pai negocia e o filho luta na guerra. Quanto tiver terminado a guerra, negociará com o pai. A mãe e o pai vão ao cemitério, Tudo muito natural, acha o pai e a mãe. A vida continua, A vida com o tricô, os negócios e a guerra... A guerra, os negócios e o tricô. O filho morto não negocia mais, A mãe e o pai vão ao cemitério, Tudo muito natural, acha a mãe e o pai A vida continua, A vida com o tricô, os negócios e a guerra A guerra, os negócios e o tricô, A vida como o cemitério...   Jacques Prevert  

Superação

Enquanto caminhava pelo calçadão, confessava a si mesma que o melhor a ser feito era esquecer. Repetia como um mantra o quanto teria de força para se esquecer, para superar e continuar sem se prender ao que passou.   Ainda que se lembrasse de Fausto, de Goethe, e ressentia-se por não haver um Diabo a quem confessar seu medo e frustração. Ressentia-se porque o que havia, em seu íntimo, nada mais era que uma canção mórbida para matar sua raiva, seu rancor e seu desejo real de devolver cada lágrima que caiu de seus olhos.   Não seria um deles, dizia. Não, não seria. Conseguiria prender uma vez mais seu lado nefasto e deixaria que sua luz, ainda que fraca, brilhasse. Não queria a luz, todavia. Não queria ter bondade alguma ou qualquer outra coisa que não deixasse seu íntimo sair e tomar todo seu corpo.   Parou. Sentou-se em um banco qualquer e, alquebrada, balançava-se para frente e para trás em um ritmo suave, como as ondas às suas costas, como os pássaros que ...

IGLESIA ABANDONADA

Federico García Lorca (1898 - 1936) (BALADA DE LA GRAN GUERRA) Yo tenía un hijo que se llamaba Juan. Yo tenía un hijo. Se perdió por los arcos un viernes de todos los muertos. Le vi jugar en las últimas escaleras de la misa y echaba un cubito de hojalata en el corazón del sacerdote. He golpeado los ataúdes. ¡Mi hijo! ¡Mi hijo! ¡Mi hijo! Saqué una pata de gallina por detrás de la luna y luego comprendí que mi niña era un pez por donde se alejan las carretas. Yo tenía una niña. Yo tenía un pez muerto bajo la ceniza de los incensarios. Yo tenía un mar. ¿De qué? ¡Dios mío! ¡Un mar! Subí a tocar las campanas, pero las frutas tenían gusanos. y las cerillas apagadas se comían los trigos de la primavera. Yo vi la transparente cigüeña de alcohol mondar las negras cabezas de los soldados agonizantes y vi las cabañas de goma donde giraban las copas llenas de lágrimas. En las anémonas del ofertorio te encontraré, ¡corazón mío!, cuando el sacerdote levanta la mula y el buey con sus fuer...

DO LIVRO POETA EM NOVA YORK (XVI)

IGREJA ABANDONADA (BALADA DA GRANDE GUERRA) Eu tinha um filho que se chamava João. Eu tinha um filho. Perdeu-se pelos arcos numa sexta-feira de todos os mortos. Eu o vi brincar nos últimos degraus da missa e jogava um cubinho de folha-de-flandres no coração do sacerdote. Golpeei os ataúdes. Meu filho! Meu filho! Meu filho! Saquei uma pata de galinha por trás da lua e logo comprendi que minha menina era um peixe por onde se afastam as carretas. Eu tinha uma menina. Eu tinha um peixe morto sob a cinza dos incensários. Eu tinha um mar. De quê? Meu Deus! Um mar! Subi a tocar os sinos, mas as frutas tinham vermes e os fósforos apagados comiam os trigos da primavera. Eu vi a transparente cegonha de álcool aparar as negras cabeças dos soldados agonizantes e vi as cabanas de borracha onde giravam as taças cheias de lágrimas. Nas anêmonas do ofertório te encontrarei, meu coração!, quando o sacerdote levanta a mula e o boi com seus fortes braços, para espantar os sapos noturnos que rondam as...