Wednesday, November 17, 2010

Tornar-se

Há tempos eu o notava pelo campus, sempre com seu jeans surrado e sua camiseta branca, comum, que lhe marcava o tórax. Tinha os olhos escuros, cabelos curtos e a barba sempre por fazer. Um jeito moleque, de riso fácil que cativava qualquer que se aproximasse sem intenção. Ele nunca tinha intenção. Talvez lhe faltasse a malícia dos que experimentam e conhecem a maldade do mundo, dos que conhecem o mundo.


E foi na sexta, antes do feriado de todos os santos, enquanto eu caminhava absorta e perdida nos cálculos mentais de minha vida acadêmica, que eu o topei de supetão e fui lançada ao chão. Ele também quase caiu e eu, vermelha, não me cabia de vergonha. Não conseguia levantar o rosto e ouvia um dos cães a ladrar quase uníssono com o riso dele, que se divertia a mirar-me.

Tateei o chão, cega, em busca de meus óculos. Ele se inclinou e ajudava-me a levantar, repetindo sua falta de intenção. O cão, em algum lugar, continuava a ladrar e em mim um calor descia.


Quanto não quis sua aproximação e agora, ali, meu desejo crescente se perdia em um misto de vergonha de mim mesma, com minha saia de barra de calça e minhas sandálias franciscanas. Senti seu perfume e, de repente, tomada de coragem, eu lhe sorri de volta, tentando minimizar o quanto estava perturbada. Aceitei sua ajuda e, ainda bamba pelo inusitado da situação, levantei-me.


Agradeci e desculpei-me. Sentia-me desnudada, sem muita coragem de me permitir sonhar ou fantasiar com ele agora a minha frente. Adorei-o.  Um adorar mudo, sem intenção e sem o riso fácil que imaginava quando solitária. Ele me responde de pronto e sai, sem que o registro daquele encontro lhe passasse percebido. Mesmo abalada, retomei minha direção a caminhada. Tive-o próximo por um instante, mas notei que estávamos distantes e não sabia, naquilo, se poderíamos nos aproximar.


Passei da euforia ao silêncio e assim permaneci durante todo o feriado. Algo crescia em meu íntimo e eu sabia que de nada adiantaria exigir da vida que me respondesse, de imediato. Como se, de repente, eu deixasse de ser o que sempre fora para me tornar algo estava adormecido em mim, há tempos.  E mesmo sem intenção, foi ele quem me despertara em mim o que recrudescia, o que tomava forma e surgia como um novo ser, um novo mim. Ainda que eu buscasse sentido, de nada me seria possível me alimentar agora, pois eu desconhecia o alimento de que meu corpo necessitava.


O feriado terminou e voltei. A ressaca pairava sobre o campus e percebi-me a caminhar com passos firmes, eu simples e leve ao mesmo tempo. Não mais a saia de barra de calça, mas um vestido claro e longo, de decote ousado e detalhes em vermelho. Passei pela cantina em direção à quadra e sorri, sem intenção, quando um dos cães perdidos vem até mim saudando-me com seu rabo a abanar. Abaixo-me suave e brinco com suas orelhas. Meu riso vem fácil e sinto-me bem com isso. Talvez seja a flor que coloquei em meus cabelos, ou o novo adorno com que me brindo. Tornei-me...


E então o vejo em seu grupo de amigos, distante. Ao se aproximar, quase sem me reconhecer, espanta-se com meu jeito leve e meu riso fácil. Assusta-se com minha falta de intenção e apenas mira-me, suave, antes de continuar sua caminhada. Dou-me por satisfeita, pois finalmente ele me notou pelo que sou e não sabia e não pelo que sonhava em encontrar nele.


Laura P – Nov-11-2010 – 8:04 PM

Saturday, November 13, 2010

A Caixa

E deu-se durante seu aniversário de sete anos, ao abrir o presente que ganhara de sua madrinha Júlia. Ela, eufórica, perscrutava os adultos com tamanha volúpia que todos seus sentidos se assemelhavam a bocas que os devoravam com a altivez das crianças inteligentes. Ela, Ananda, buscava nos adultos alguma nesga de sentido que a arrebatasse de seu mundo onde, livre, poderia simplesmente ser. Eles, os adultos, não lhe notavam qualquer traço de anormalidade e acreditavam que eram o suficiente os antigripais durante o inverno. Diria, quem os visse, tratar-se de algo comum, mas era um ritmo distinto em que giravam as rodas de existência.


A caixa do presente era grande e púrpura, com laços dourados e fazia um barulho estranho ao balançar. Ananda ainda tentou imaginar que surpresa lhe traria aquela caixa, mas em sua infância faltavam-lhe dores para se comparar aos adultos e suas ansiedades. Sorriu e agradeceu à madrinha com um gesto quase doce, quase suave, simplesmente seu. Abraçou-se com tamanha propriedade a caixa, para surpresa de todos que esperavam que lhe abrisse o presente. Mas ela, satisfeita com a beleza da caixa, percebeu-se como uma noiva com seu buque à entrada da igreja, sozinha e possuída por seu desejo de ser algo, de ser alguém, de ser livre.


Seu estado de graça durou apenas alguns minutos. A estranheza dos adultos fez com que a mãe, que observava a distância, tomasse de seus braços o embrulho e o rasgasse para revelar o conteúdo. Assustada, não soube pela urgência se deveria sorrir ou chorar, agradecer sua mãe por esse resvalar de lucidez ou apenas, passiva, deixar com que os adultos continuassem com o ritual de seu aniversário, tão seu e tão não seu ao mesmo tempo.


A caixa possuía um conjunto de cozinha para bonecas. Constituídos em rosa, branco e amarelo, tinham o mesmo aspecto triste da cozinha de sua casa. É para que sempre se possa lembrar de sua mãe, disse-lhe a madrinha. Lacônica percebeu-se pela primeira vez que sua liberdade estava em não estar ali, em meio aos adultos, em meio ao mundo, em meio ao seu aniversário. Por um instante ela sentiu-se plena e feliz por não ser adulta. Feliz, com seus olhos vívidos a olhar para sua madrinha Júlia, num questionamento mudo se ela tinha também a mesma felicidade. E também sua mãe, e qualquer outro adulto sem nomear que via ali em seu aniversário de sete anos, onde somente ela tinha idade inferior a dois dígitos. Não obteve respostas.


Tomou da caixa e subiu lentamente a escada. Bem se viu que adorou o presente, alega sua mãe aos presentes. Naquele silêncio tácito, ela sai para curtir o que havia descoberto ali. Abraçou-se a caixa, docemente, e soube por aquele momento de sua liberdade.

 

E.

Jun-28.

Wednesday, November 10, 2010

Galinhas de Angola

Talvez as galinhas estivessem apenas com frio, isoladas na periferia e esquecidas pelos transeuntes que  não as reconheciam como parte do local. Eram apenas galinhas, diriam. Poderiam servir de alimento ou então de entretenimento aos que tivessem tempo para compreendê-las.


Tive pena delas, com frio. Compadeci da situação e das pessoas que não as viam, que talvez pela constante vida que passaram na periferia não poderiam reconhecer nenhuma imagem distante da vida que tinham. Não me achava como elas. Eu, parte da periferia e de seus cheiros, não era uma delas. Tinha uma outra imagem que fluia de mim e me fazia à parte, nesse mundo tão meu.


Aproximei-me das galinhas e tentei me comunicar, em silêncio, como se a ausência de palavras fosse o código que utilizávamos ao falar. Ajoelhei-me e as olhei com complacência. Elas, relutantes, soltavam um pio ou outro quando viravam a cabeça, desconfiadas, para que pudessem me ver de ambos os lados. Seus olhos brilhavam de frio e suas penas, eriçadas, demonstravam que sofriam pela ausência de compreensão. Assim como eu, estavam ali, mas não eram dali.


Nesse momento as desejei como se fossem parte de mim. Elas se tornaram parte de mim, eram elas eu. Estabelecemos contato e éramos, as galinhas e eu, um ser apenas naquele momento em que nossos olhos se encontraram. Um ser quando nossos desejos ficaram unidos em uma só vibração de sobrevivência.

Sunday, October 31, 2010

e Carmem...

Era tarde quando me sentei na poltrona, recostei-me e pensei em distrair-me durante o trajeto de volta. Levaria um tempo ou dois até que chegasse e, após a toalete noturna, estivesse novamente a repousar em meu leito. Mais um tempo e seria um novo dia, quando sol me saudaria como convite ao trabalho e tudo se iniciaria, como sempre.

 

Em meio ao burburinho, vejo quando ele se aproxima e se senta na poltrona ao lado. A sua frente, o outro se equilibrava com as bolsas de fraldas, mamadeiras e outros tantos apetrechos do pequeno. Era Carlos. Ele e Carlos que distraidamente riam a minha frente do dia que tiveram. O filho, no colo dele, dava sinais de que já dormia há um outro tempo. O chacoalhar do trem embalava seu sono, quase o meu sono, quase o nosso sono. O corpo relaxava e movia-se levemente a cada parada nas estações seguintes. Carlos sorria, mesmo em pé, embevecido pela conversa que mantinha com o outro.

 

Eram felizes e completos no que diziam, sobre o que diziam e como diziam. Havia uma alegria nos olhos de Carlos que eu desconhecia há tempos. Uma alegria muda e simples, dos que conhecem a vida e aceitam sua paz. Uma alegria de tranqüilidade, como o sono do pequeno no colo do amante. Reparei sua roupa, suas mãos e seus gestos enquanto falava. Eu quase poderia tocar aquela alegria que dele emanava, tamanha hipnose me provocava sua presença.

 

E, de repente, lembro-me de Carmen, minha amante, quando terminávamos às vésperas de ano novo. Carmem tinha um outro tempo e ainda posso ver seus olhos galantes, pretos e secos, quando se despediram de mim. Ela dizia que o tempo era o único absoluto em nossas vidas, mesmo quando pensávamos que tudo era relativo. Ela tinha uma sabedoria popular, quase simples, quase tão bela quanto ao que dizia agora Carlos, a minha frente, sobre os planos para aniversário do menino.

 

Eles saltariam na próxima estação, o tempo de viagem era curto. Um tempo preciso, mas pleno para que eu os notasse. Para que eu os visse e pudesse me lembrar de Carmem. Era estranho pensar no amor que passou enquanto celebrávamos. Era estranho pensar nas viagens que fazíamos e nas risadas que dávamos. Era estranho pensar que tudo passa, que tudo passará ou ainda poderia passar. Era estranho pensar no tempo, absoluto, que fez com que tudo não passasse de um sonho. De uma passagem. De um pequeno tempo que dividíamos uma viagem pela existência. Um tempo que ria de minha saga quase infantil de tentar contê-lo (ele, o tempo) quando ela se foi (ela, a Carmem).

 

O trem pára após anunciarem Lapa. Carlos, cuidadosamente, segura a mão dele antes que se levante com o pequeno. Há uma cumplicidade em seus olhos que os isenta de qualquer palavra agora. Em silêncio continuam sorrindo, passam por todos e caminham, juntos, em direção à saída da estação. Naquele pequeno momento, antes que o trem tivesse as portas fechadas e a viagem continuasse, percebi o quanto estava sozinho e o quanto nunca amei Carmem.

Sunday, October 24, 2010

Faz bem amar

Faz bem amar, um bem tão intenso e bom que me renova o espírito. Faz bem amar quem quer que seja, amar com intensidade, carinho, coragem.

Faz bem amar o amigo e rir do jeito engraçado com que ele brinca sozinho, com que ele fala sozinho, com que ele come um sanduíche de pasta de amendoim sem amendoim... rs

Faz bem amar aquela doce garota que nos atende no balcão da padaria e sempre tem um sorriso pela manhã, ainda que o dia tenha começado antes pelo horário de verão e todos estão ainda a dormir em suas casas.

Faz bem amar quem senta ao nosso lado no metrô ou no trem, ainda que esteja distante do ideal de companhia silenciosa que gostaramos de ter ao nosso lado. Faz bem amar...

É bom ter saudade e aprender a continuar mesmo distante. É bom sentir alegria ao receber um telefonema, ainda que em plena manhã de domingo quando dormir seria melhor que acordar... É bom amar, é bom conseguir olhar o que temos de bom mesmo quando tudo parece perdido. É bom escolher ver a beleza ainda que a tragédia nos visite. É bom acreditar que Deus existe, que Seu amor nos envolve e é isso que nos faz amar o que quer que seja.

Faz bem amar...

E.

Saturday, July 10, 2010

Respiração



Não tenho problemas com o centro da cidade. Na verdade, acho que poucas vezes tive algum problema com a cidade em si, com as coisas que a cidade oferece ou seus cheiros e particularidades. Mas hoje foi diferente. Acho que hoje, estou diferente.

Andar pela praça do correio é um desafio que exige requinte. Passar por entre inúmeras barracas a tocar o som dos salões de bairro é repugnante. Olhar nos olhos vazios das pessoas que comem seus sanduíches de cinqüenta centavos, enquanto outras se oferecem por sexo a troca de passe de metrô é a prova de que se está vivo!

Entrei em um bar qualquer e pedi o que comer. Logo atrás de mim, vestido como os outros seres da praça, entra um garoto que também pede por comida. Ele se coça com freqüência e desconfio de que tenha se utilizado de algum serviço de meretrício. Veste uma blusa azul suja e uma calça rota feita de jeans. Suas mãos são limpas e a pele é clara. Unhas bem cortadas e cabelos aparados ao ombro. Olhos fundos, também perdidos, denotam claramente o que não é. E é um garoto belo, que se perde em meio à sujeira de sua alma.

Enquanto comíamos, assistimos a Escrava Isaura. Algumas pessoas entraram para se utilizarem do banheiro. Figuras míticas, próprias de locais do Olimpo se perdem em nossos pães e arroz. Alguns trôpegos que riem da própria imagem e outro que canta ao som imaginário de sua alegria. Sorrio.

Em silêncio tínhamos um contato estabelecido. Em silêncio continuávamos a representar e a pensar em problemas nunca resolvidos: Na grana que não tínhamos e no prazer que buscávamos em corpos sem face. Percebi que voltava a se coçar. Percebi que se assustava com alguma dor que tinha e que talvez fosse febre a incerteza de sua paz. Percebi que ainda tinha fome, apesar do grande bife devorado. Percebi que tinha sede, mas pouco dinheiro para que pudesse beber.

Levantei, ainda no mesmo silêncio, e a haustos fortes me embriaguei com o cheiro da rua, da vida e do centro...

Elton Michael

Dez., 15 - 2004

Sunday, June 27, 2010

De agora

Enquanto meu sorriso voa pelas sombras, sua imagem paira sobre a cama e me espera. Um silêncio surdo, de cheiro acre, faz com que o tempo entre nós se torne denso e tranquilo.

 

Seus pés são marcados e mancham meu lençol. Ele se despe suavemente e diz que nunca me amaria novamente, mas se entrega apenas para que eu me machuque uma vez mais. Seus lábios contém o veneno de minha ventura e fico a imaginar mil maneiras de torturá-lo em que sinto.

 

O vento se quebra à janela e uma voz doce sai de meu pesar. Peço-lhe que me encare. Ele confessa sua ventura errante e faz com que suas lágrimas lhe salguem a face. Levanta-se, nu, e vem ao meu encontro. Afasto-me. Paro diante do batente da porta e lembro da nossa música de outono. Do dia em que na chuva escrevemos nossos nomes na árvore... Não quero ser romântico, mas ainda assim dou dois passos em direção ao seu encontro e sorrio novamente.

 

Ele volta, senta-se na cama e nada diz. Abaixa seus olhos. Percebe meu transtorno. Faz menção de se vestir, mas corro agora em seu encontro e selo seu pecado com as mãos. Beijo-o...

 

Fazemos amor intensamente. Ávidos pelo momento deixamos as mágoas e tudo o que jamais confessamos. Deixamos todas as marcas...

 

Enquanto encerramos nossos corpos, banhamo-nos a sombra do vento e apenas abandonamos, ao amanhã, o nosso pesar...

 

E. Michael – Jan-18-2006

 

Wednesday, June 02, 2010

O caçador de mariposas

O livro estava aberto sobre a escrivaninha e, ao lado, havia um pequeno retrato de sua mãe quando criança. Estranho recordar de sua mãe com uma foto tão antiga, mas sentia-se seguro por não ter que pensar em como se foi e, também, como a ausência era tão presente em seu íntimo. Por um momento eu o compreendi e emocionei-me com sua alma. E também com o livro, aberto, falando de contos de solidão e presença.

 

Era uma história curta, sobre um caçador de borboletas que passou a colecionar mariposas. O caçador dizia que a beleza das mariposas estava em que nem todos a poderiam enxergar. Um dia em suas viagens, foi convidado para um chá com a rainha das mariposas. Ao chegar ao seu castelo, percebeu que todos os soldados eram borboletas, coloridas, vívidas e de porte altamente elegante. Ao ser recebido pela rainha das mariposas, questionou-a por que da corte tão diversa e ela, complacente, responde-lhe que nenhuma beleza é real se não puder ser útil para alguém. Intrigado, ele se silencia sem entender. Pensa que sua própria luz estava em ver o belo onde todos viam falta de luz.

 

Fechei o livro e o devolvi à escrivaninha, ao lado do retrato. Saí e fui terminar o almoço porque logo Ele chegaria. Faria cenouras refogadas, salada de aspargos e um assado de batatas com cordeiro. Sei o quanto Ele estima de minha comida e dos assados tão peculiares. Sei do quanto se ocupa em suas íntimas viagens e, por mais um momento, invejei-o. Talvez Ele também tivesse a luz do caçador, convertido, que via a beleza onde ela não poderia existir. Talvez, em suas viagens, encontrou-se com sua mãe, criança, e aprendeu com ela a ser quem era.

 

Terminei e coloquei a mesa. Abri uma garrafa de vinho e servi a mim mesmo uma taça dupla. O negro rubro do vinho misturou-se à minha imagem, refletida, e vi o quanto o tempo havia passado. Ri. Um riso nervoso e quase alegre invadiu-me e pensei nos discursos sobre razão que sempre levavam-me a lugar nenhum senão ao quanto estava longe de mim, de meu silêncio, de meu prazer. Ri novamente e logo Ele chegou. Ele parou, em silêncio, e questionou-me sobre minha alegria. Calei-me. De alguma forma em silêncio dizíamos muito um ao outro. Dizíamos nada e o tudo simplesmente fluía de nós mesmos. Rimos juntos e comemos.

 

Durante o café disse-me que iria a Petrópolis, no feriado. Precisava desfrutar do clima e visitar a avó. Pedi-lhe que levasse o Pedro, nosso cão. Pedi-lhe que colocasse a louça na pia, apagasse a luz e não demorasse para dormir. Recolhi-me. De alguma forma aquele vinho me havia afetado. De alguma forma a foto e o caçador. De alguma forma eu precisaria dormir, apenas. E viajar, rir, tanto faz.

 

E.

 

 

 

 

 

Sunday, May 30, 2010

Ainda o encontro

Não me lembro sequer do nome. Ele comentava sobre sua avó, seu pai que ficara adoecido e até mesmo das idiossincrasias que o faziam tão lúdico diante dos meus olhos. Os caracóis enegrecidos, que radiavam sua origem italiana, atiçavam os desejos de minha mente e meu corpo aspirava compenetrar-lhe no âmago.

 

Exalava o cheiro de sua elegância e ostentava a beleza dos seus dias juvenis. Dias onde visitava tios, passava os natais em família e acompanhava sua avó em terços pela saúde do carro antes da viagem. Bons tempos, seriam. Sua tez delicada e seu sorriso franco denotavam a nudez de seu espírito. Amei-o no primeiro instante e ofusquei-me com seu brilho. Levantei-me e toquei seu corpo.

 

De súbito minha fantasia perdeu-se. Seu beijo não me arrebatou e não senti mais o cheiro doce que emanava do íntimo... ele queria a fera em mim e lutou para libertá-la. Ele se tornou como meu fantasma e tornamo-nos amantes, na sombra, com meu pensamento distante fora de mim.

 

Meu fantasma foi domado pela fera. Debateu-se inutilmente enquanto, com fremência, possuí seu corpo e utilizei-me de seus atributos. Sua beleza tornou-se nauseante e seu ar lúdico insolente aos meus olhos. Era a fera em mim!

 

Por um momento a fera apossada de meu corpo parou. O pequeno debatia-se, mas calou-se quando o clímax instaurado o livrou de mim. Partiu. Com suas lembranças, seus caracóis e sua elegância familiar...

 

E.

 

Jun-24/2006

O encontro

Foi uma tarde feliz, quando chegamos. Foi uma tarefa difícil de se cumprir, quando nos vimos. Agora, em silêncio, percebo o quanto era preciso e ainda o será.

 

Espero que ele esteja bem onde quer que vá. Espero que ele veja luz por onde passar. Que encontre paz.

 

Vamos nos ver novamente, um dia. Vamos sim, eu sei. Ainda que tenhamos o mesmo escrúpulo, medo, fobia. Ainda que nos percamos novamente, nos encontremos depois, deixemos de lado o pesar e a culpa.

 

Foi um encontro feliz, acredito.

 

Foi um momento feliz, ainda sei.

 

Até breve, eu lhe disse. Vamos nos ver novamente, um dia. Sem culpa. Sem medo. Sem jogos.

 

Até lá eu penso na tarde feliz, o encontro.

 

E.

Wednesday, April 21, 2010

Eu desisto

Eu desisto de pensar em humanidade e no humano como criador de sua história. Desisto de investigar a curiosidade, a indignação e a imaginação que poderia beneficiar a busca do incomum. Desisto de tentar entender os conceitos, pós conceitos e pré conceitos. Desisto da filosofia e de toda lógica que um dia me empregou. Desisto.

Por um momento, enquanto em silêncio, quero agir como macaco. Quero ser como macaco. Quero andar como macaco. Gritar todos os palavrões que me vierem à mente e rasgar todas as teorias que me fizeram aceitar a racionalidade. Não quero raciocinar.

Quero ficar em pé e olhar pela janela as ilações de minha alma. Quero olhar a fumaça de meu cigarro se misturar com a fumaça dos trens, dos carros, dos homens. Ah, os homens. Os humanos homens remanescentes de racionalidade.

Vou soltar meu riso de macaco, perturbado pela contaminação de meus pulmões pelo tabaco. Perturbado pela elucubração que me retira o racional. Não, não quero pensar pois desisti. Desisti de manipular poderes e pensar em deuses astronautas, astrônomos, astrólogos de big ben. Vou cultuar os tarólogos, adivinhos e mentirosos que com coragem expressam sua humanidade. Vou cultuar os bandidos de idéias que se jogam em poças lamacentas da ignorância por simples opção. Vou cultuar, falicamente, todos que, como eu, buscam o macaco em si.

Eu desisto: de pensar, de humanidade, de ser humano.

 

Elton Michael

 

Saturday, April 17, 2010

Tempo que foge




Descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicentemente, mas percebendo que faltavam poucas, passou a roer o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e se perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, para “tirar fatos a limpo”. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.

Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Gosto, e ponto final! Lembrei-me de Mário de Andrade, que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.

Já não tenho tempo para ficar explicando se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia de Chico Buarque e de Vinicius de Moraes; a voz de Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, de Thomas Mann, de Ernest Hemingway e de José Lins do Rego.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus.
Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo.

 


Ricardo Gondim

Sunday, April 11, 2010

Palavras que busquei na web

" Há pessoas que querem ser bonitas para chamar a atenção, outras desejam a inteligência para serem admiradas. Mas há algumas que procuram cultivar a alma e os sentimentos. Estas alcançam o carinho de todos, porque além de belas e inteligentes tornam-se realmente pessoas...

Eu só me preocupo com a minha CONSCIÊNCIA e não com a minha REPUTAÇÃO.!!.Porque a minha CONSCIÊNCIA é o que SOU.!!.e minha REPUTAÇÃO é o que os OUTROS pensam de MIM.!!.isso não é problema MEU e sim DELES ...”


"...mãe, você me pergunta se eu acredito em Deus. Eu te pergunto que deus?
Tem sido minha missão te mostrar Deus nos homens, pois somente no homem ele pode existir.Não há homem pobre ou insignificante que pareça ser, que não tenha uma missão.Todo homem por si só influencia a natureza do futuro.


Através de nossas vidas, mãe, nós criamos ações que resultarão na multiplicidade de reações,
esse poder que todos nós possuímos, esse poder de mudar o curso da historia é o poder de Deus.


Confrontado com essa responsabilidade eu me curvo diante do deus dentro de mim, mãe..."

 

Fonte: http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=7290694565981663950

Monday, April 05, 2010

Eternamento menino

Quase nada posso dizer e minha boca seca diante do que penso. Há um silêncio mudo e sem cor que se instala em mim. Um arrependimento quase real, quase vivo, de quando não me lembro de ser melhor. E nunca o fui.

Pensei ter sufocado para sempre aquele desejo de morte que havia em meu íntimo. Pensei ter sufocado e perdido, para sempre. Mas esse para sempre insiste em me visitar enquanto nas paredes desse hotel procuro te ver uma vez mais. Enquanto na solidão que escolhi ainda vejo teu riso maroto, quase infantil. Teu riso da infância perdida, roubada pelos anos de trabalho, pelos anos de quando não sabias sorrir.

Talvez o excesso de champagne me tenha tragado a consciência ou me arrebatado à lucidez. Não sei dizer, não sei confessar, não sei procurar. Não teremos sexo. Não te posso ter amor. Não te posso confessar por nossa indistinção e pelos laços de família que nos proíbem o amor, a paixão, o tesão. Tampouco sei o quanto me desejarias.

O meu sonho insiste em ter-te sempre menino, milagrosamente e eternamente menino. Como se habitasses minha aldeia e eu te levasse ao Tejo para te apresentar ao mundo ainda a descobrir. Como se habitasses em minha tenda e te alimentasses das flores de meu jardim, das cores de meus sonhos, da vida dentro de mim. E és eternamente terno e menino, capaz e vivo, mesmo sem que estejas em minha aldeia.

Ontem comprei-te um pequeno gracejo que te darei quando me visitares. Um gracejo lúdico, para que te recordes de mim quando eu partir novamente. Sim, partirei. Irei para meu Tejo e minha aldeia que não te podem ainda abrigar. Para onde ainda somente em sonho sinto tua presença viva, lúbrica e doce, a saciar meu espírito rebelde. Dar-te-ei teu gracejo e brindarei com mais champagne nossa derrocada distância.

Preciso partir agora e direi a todos que ainda és menino.

E.

Monday, March 22, 2010

A vida como no cemitério

A mãe faz tricô,

O pai negocia,

O filho luta na guerra,

Tudo muito natural, acha o pai e mãe,

O filho

A mãe faz tricô, o pai negocia e o filho luta na guerra.

Quanto tiver terminado a guerra, negociará com o pai.

A mãe e o pai vão ao cemitério,

Tudo muito natural, acha o pai e a mãe.

A vida continua,

A vida com o tricô, os negócios e a guerra...

A guerra, os negócios e o tricô.

O filho morto não negocia mais,

A mãe e o pai vão ao cemitério,

Tudo muito natural, acha a mãe e o pai

A vida continua,

A vida com o tricô, os negócios e a guerra

A guerra, os negócios e o tricô,

A vida como o cemitério...

 

Jacques Prevert

 

Wednesday, February 24, 2010

Superação

Enquanto caminhava pelo calçadão, confessava a si mesma que o melhor a ser feito era esquecer. Repetia como um mantra o quanto teria de força para se esquecer, para superar e continuar sem se prender ao que passou.

 

Ainda que se lembrasse de Fausto, de Goethe, e ressentia-se por não haver um Diabo a quem confessar seu medo e frustração. Ressentia-se porque o que havia, em seu íntimo, nada mais era que uma canção mórbida para matar sua raiva, seu rancor e seu desejo real de devolver cada lágrima que caiu de seus olhos.

 

Não seria um deles, dizia. Não, não seria. Conseguiria prender uma vez mais seu lado nefasto e deixaria que sua luz, ainda que fraca, brilhasse. Não queria a luz, todavia. Não queria ter bondade alguma ou qualquer outra coisa que não deixasse seu íntimo sair e tomar todo seu corpo.

 

Parou. Sentou-se em um banco qualquer e, alquebrada, balançava-se para frente e para trás em um ritmo suave, como as ondas às suas costas, como os pássaros que paravam diante de si a pedir uma migalha qualquer de alimento. Um ritmo suave como as batidas de seu coração, como a lembrança de quando menina levou sua primeira surra, deu seu primeiro beijo e perdeu seu primeiro amor. De quando adolescente corria na areia deixando seu cabelo solto ao vento, à chuva, ao sonho. De quando as opiniões ainda eram importantes porque as pessoas eram importantes.

 

Epifania, assim definiu sua iluminação. Viu-se acima daquele mal infante que não mais importava. Viu-se acima daquele que diria dela limites que não a definiam. Viu-se acima do julgo daquele que sequer a conhecia.

 

Levantou-se e riu por um momento. Um riso tímido, quase escondido, brotou em seus lábios. Aos poucos tomou força e tornou-se uma gargalhada, desmedida, viva, cheia da graça. Uma gargalhada sem término, sem compromisso, sem qualquer outra necessidade senão soltar-se e durar-se.

 

Ao longe quem quiser ouviria o som dessa alegria repente, dessa liberdade crescente, dessa vida nascente. Viva, ela soltou seus braços e continuou sua caminhada. Cônscia. Plena. Energicamente capaz de qualquer coisa.

 

O calçadão nunca foi tão belo e a luz da tarde nunca tão perfeita. Nada mais importava, pois sua raiva havia se tornado indiferença. Seu rancor perdeu-se e o desejo real de devolver as lágrimas não mais importava. O motivo não mais importava. Eles não mais importavam...

 

Elton // Fev-24-2010

 

Thursday, January 07, 2010

IGLESIA ABANDONADA

Federico García Lorca (1898 - 1936)


(BALADA DE LA GRAN GUERRA)

Yo tenía un hijo que se llamaba Juan.
Yo tenía un hijo.
Se perdió por los arcos un viernes de todos los muertos.
Le vi jugar en las últimas escaleras de la misa
y echaba un cubito de hojalata en el corazón del sacerdote.
He golpeado los ataúdes. ¡Mi hijo! ¡Mi hijo! ¡Mi hijo!
Saqué una pata de gallina por detrás de la luna y luego
comprendí que mi niña era un pez
por donde se alejan las carretas.
Yo tenía una niña.
Yo tenía un pez muerto bajo la ceniza de los incensarios.
Yo tenía un mar. ¿De qué? ¡Dios mío! ¡Un mar!
Subí a tocar las campanas, pero las frutas tenían gusanos.
y las cerillas apagadas
se comían los trigos de la primavera.
Yo vi la transparente cigüeña de alcohol
mondar las negras cabezas de los soldados agonizantes
y vi las cabañas de goma
donde giraban las copas llenas de lágrimas.
En las anémonas del ofertorio te encontraré, ¡corazón mío!,
cuando el sacerdote levanta la mula y el buey con sus fuertes brazos,
para espantar los sapos nocturnos que rondan los helados paisajes del cáliz.
Yo tenía un hijo que era un gigante,
pero los muertos son más fuertes y saben devorar pedazos de cielo.
Si mi niño hubiera sido un oso,
yo no temería el sigilo de los caimanes,
ni hubiese visto el mar amarrado a los árboles
para ser fornicado y herido por cl tropel de los regimientos.
¡Si mi niño hubiera sido un oso!
Me envolveré sobre esta lona dura para no sentir el frío de los musgos.
Sé muy bien que me darán una manga o la corbata;
pero en el centro de la misa yo romperé el timón y entonces
vendrá a la piedra la locura de pingüinos y gaviotas
que harán decir a los que duermen y a los que cantan por las esquinas:
él tenía un hijo.
¡Un hijo! ¡Un hijo! ¡Un hijo
que no era más que suyo, porque era su hijo!
¡Su hijo! ¡Su hijo! ¡Su hijo!

DO LIVRO POETA EM NOVA YORK (XVI)


IGREJA ABANDONADA
(BALADA DA GRANDE GUERRA)

Eu tinha um filho que se chamava João.
Eu tinha um filho.
Perdeu-se pelos arcos numa sexta-feira de todos os mortos.
Eu o vi brincar nos últimos degraus da missa
e jogava um cubinho de folha-de-flandres no coração do sacerdote.
Golpeei os ataúdes. Meu filho! Meu filho! Meu filho!
Saquei uma pata de galinha por trás da lua e logo
comprendi que minha menina era um peixe
por onde se afastam as carretas.
Eu tinha uma menina.
Eu tinha um peixe morto sob a cinza dos incensários.
Eu tinha um mar. De quê? Meu Deus! Um mar!
Subi a tocar os sinos, mas as frutas tinham vermes
e os fósforos apagados
comiam os trigos da primavera.
Eu vi a transparente cegonha de álcool
aparar as negras cabeças dos soldados agonizantes
e vi as cabanas de borracha
onde giravam as taças cheias de lágrimas.
Nas anêmonas do ofertório te encontrarei, meu coração!,
quando o sacerdote levanta a mula e o boi com seus fortes braços,
para espantar os sapos noturnos que rondam as paisagens geladas do cálice.

Eu tinha um filho que era um gigante,
mas os mortos são mais fortes e sabem devorar pedaços de céu.
Se me filho tivesse sido um urso,
eu não temeria o sigilo dos caimães,
nem teria visto o mar amarrado às árvores
para ser ferido e fodido pelo tropel dos regimentos.
Se meu menino tivesse sido um urso!
Me cobrirei com esta lona dura para não sentir o frio dos musgos.

Sei muito bem que me darão uma manga ou a gravata;
mas no centro da missa eu quebrarei o timão e depois
virá até a pedra a loucura de pinguins e gaviotas,
que dirão aos que dormem e aos que cantam pelas esquinas:
ele tinha um filho.Um filho! Um filho! Um filho
que não era mais que seu, porque era seu filho!
Seu filho! Seu filho! Seu filho!

Tradução: Claudio Daniel