A Caixa

E deu-se durante seu aniversário de sete anos, ao abrir o presente que ganhara de sua madrinha Júlia. Ela, eufórica, perscrutava os adultos com tamanha volúpia que todos seus sentidos se assemelhavam a bocas que os devoravam com a altivez das crianças inteligentes. Ela, Ananda, buscava nos adultos alguma nesga de sentido que a arrebatasse de seu mundo onde, livre, poderia simplesmente ser. Eles, os adultos, não lhe notavam qualquer traço de anormalidade e acreditavam que eram o suficiente os antigripais durante o inverno. Diria, quem os visse, tratar-se de algo comum, mas era um ritmo distinto em que giravam as rodas de existência.


A caixa do presente era grande e púrpura, com laços dourados e fazia um barulho estranho ao balançar. Ananda ainda tentou imaginar que surpresa lhe traria aquela caixa, mas em sua infância faltavam-lhe dores para se comparar aos adultos e suas ansiedades. Sorriu e agradeceu à madrinha com um gesto quase doce, quase suave, simplesmente seu. Abraçou-se com tamanha propriedade a caixa, para surpresa de todos que esperavam que lhe abrisse o presente. Mas ela, satisfeita com a beleza da caixa, percebeu-se como uma noiva com seu buque à entrada da igreja, sozinha e possuída por seu desejo de ser algo, de ser alguém, de ser livre.


Seu estado de graça durou apenas alguns minutos. A estranheza dos adultos fez com que a mãe, que observava a distância, tomasse de seus braços o embrulho e o rasgasse para revelar o conteúdo. Assustada, não soube pela urgência se deveria sorrir ou chorar, agradecer sua mãe por esse resvalar de lucidez ou apenas, passiva, deixar com que os adultos continuassem com o ritual de seu aniversário, tão seu e tão não seu ao mesmo tempo.


A caixa possuía um conjunto de cozinha para bonecas. Constituídos em rosa, branco e amarelo, tinham o mesmo aspecto triste da cozinha de sua casa. É para que sempre se possa lembrar de sua mãe, disse-lhe a madrinha. Lacônica percebeu-se pela primeira vez que sua liberdade estava em não estar ali, em meio aos adultos, em meio ao mundo, em meio ao seu aniversário. Por um instante ela sentiu-se plena e feliz por não ser adulta. Feliz, com seus olhos vívidos a olhar para sua madrinha Júlia, num questionamento mudo se ela tinha também a mesma felicidade. E também sua mãe, e qualquer outro adulto sem nomear que via ali em seu aniversário de sete anos, onde somente ela tinha idade inferior a dois dígitos. Não obteve respostas.


Tomou da caixa e subiu lentamente a escada. Bem se viu que adorou o presente, alega sua mãe aos presentes. Naquele silêncio tácito, ela sai para curtir o que havia descoberto ali. Abraçou-se a caixa, docemente, e soube por aquele momento de sua liberdade.

 

E.

Jun-28.

Comentários

vinícius reis disse…
impossível não notar o tom de ironia presente. uma ironia convincente. uma ironia flagelada e flamejante. uma raiva enorme de não ter uma caixa aqui, neste exato momento

Postagens mais visitadas deste blog

Um dia, Marina

Feliz Aniversário

A mediocridade não vivida