Wednesday, December 30, 2009

Sou teu...

Ainda que os falos se prostem à minha frente,

Ainda que a virilidade se faça presente,

Ainda que haja mil corpos com desejos

e duas mil imagens de beleza...

Ainda que se faça silêncio em todos os corpos

e que castrem toda juventude...

Serei teu, amado amigo, serei teu!

 

Mesmo com imagens de homens,

Mesmo com o desejo dos meninos,

Mesmo com o assédio masculino,

Mesmo com as dores da saudade,

Mesmo com a nossa distancia física,

Sou teu e teu serei até o fim,

Terás meu corpo, mente e coração.

 

Serás leão e domador de minhas farsas,

o senhor que assegura minha vida,

e o ar que faz o meu viver.

Dono de meus pensamentos e

sempre do meu gozar.

Sem pudor. Por ti tenho amor.

Eu sou teu, amado amigo, eu sou teu!

 

Os falos morrem e as imagens somem,

os meninos envelhecem e partem.

Nada é eterno. Mas sou teu enquanto existir.


Michael - Maio, 18. 1995

A dulce paz...

Aconteceu novamente, Claire. Como sempre há um vento frio que entra pelos meus poros e me faz repensar se há vida. É um vento intenso, dorido, que ainda assim não me arrebata a paz! É estranho ser indiferente ao vento.


Ele, sempre ele. Ele, o outro. Como ele foram tantos, e tantos passaram. Não é a nossa sina? Não é essa nossa verdade, nossa vida? Ter o inferno no outro, porque é o outro que nos conta quem somos. E quem somos senão aquelas pequenas imagens por que nos tomam? Não somos, Claire...


Se fôssemos, nossas imagens seriam sempre as mesmas. E não são, porque o outro – assim como ele – só pode ver o que sabe, o que conhece ou o que já experimentara de fato ou por um conto que ouvira em um lugar qualquer...


Não, Claire... nossas imagens não são as mesmas. Elas são o que o outro – e ele – quer que elas sejam. Somos vítimas de nossas imagens e são elas – e somente elas – que contam aos outros o que somos (e são os outros que nos dizem!).


Mas como eu dizia, aconteceu novamente. Ele veio e me disse, de repente. Ele veio, Claire, como o próprio vento frio que entrava pelos meus poros e me fez ser eu mesmo por um momento. Ele viu, assim, uma essência que trago lá dentro, em mim e para mim. Ele me viu e reconheceu o que será em tempos, o que terá em tempos, o que sentirá... em tempos!


E, de repente, foi minha paz que saiu e se sobressaiu como algo acima de tudo. Foi minha paz, Claire, que me disse entáo finalmente quem eu era. Não a imagem, não o outro, não... foi minha paz, uma paz de certeza, de ser. Eu sou e agora, mais que nunca, tenho certeza disso...


Ele é meu inferno, porque me diz o que vê e pensa que sou... mas eu, Claire, encontrei o céu em uma paz profunda chamada indiferença...


Até a próxima,


S.


P.s.>> Não é sempre assim?

Monday, December 28, 2009

O Trem


O trem que passa, passa e passa

Não vê os patos que sobrevoam a relva,

E tampouco reconhece a asa quebrada daquele

que se desvia do bando a cair..

 

O  trem  corre.

O  pato  cai.

 

Sabe onde vai o trem,

Sabe onde cairá o pato!

 

Sem sorrisos no céu o sol escalda

E testemunha o fim:

O trem pára.

O pato cai.

Monday, December 14, 2009

Concubina, a louca

Ela tinha dedos largos, cumpridos e cheios de marcas do tempo. Do cigarro barato e dos bordéis que freqüentava no centro da Lapa. Da cabeleira vasta e vermelha, poucos fios caiam-lhe sobre as têmporas acinzentados pela escolha da vida que tinha. Poucos dentes compunham-lhe a face cansada, sua boca rota e os olhos vítreos como se mortos para a luz ofuscantes e mofos das camas onde se vendia. E se declarava concubina, a louca. Sim, em sua insanidade imaginava-se capaz de sonhos, de devaneios onde seu poder se misturava às bebidas quentes de final de noite e suas roupas, rasgadas, seu preço barato pago pelos caixeiros viajantes.

Apelidavam-lhe de bruxa. Sempre em desalinho, tentava sanar sua carência nos jogos de azar onde apostava sua indecência por moedas de barro. Dizia-se conhecedora dos segredos da vida, mas os únicos que habitavam sua mente eram das lembranças pérfidas de quando tentava exalar maldade e despertava alguma compaixão. E se declarava concubina, a louca.

Viveu até os 40 anos, quando a peste finalmente a recolheu. Em seu último suspiro, dado ao lado de uma foto, declarava-se inocente por ter dado a luz a única criatura que um dia amou...

 

Sunday, November 08, 2009

Charles Chaplin

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato. E então, pude relaxar. 

 

Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.


Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.

Hoje sei que isso é...Autenticidade.


Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.

Hoje chamo isso de... Amadurecimento.


Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.

Hoje sei que o nome disso é... Respeito.


Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.

Hoje sei que se chama... Amor próprio.


Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.

Hoje sei que isso é... Simplicidade.


Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muitas menos vezes.

Hoje descobri a... Humildade.


Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.

Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.


Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.

Tudo isso é... Saber viver!!!

 

 

Wednesday, September 30, 2009

Apenas até logo

Já fazia tempo que não me preocupava tanto com a beleza ou qualquer outro aspecto externo ao me encontrar com pessoas. Muitas vezes ainda questionava em minha mente se havia algo mais por detrás da imagem, se em nudismo haveria de se revelar algo de extraordinário ou até mesmo bizarro... uma vez foi com um desses que se conhece pela Internet, no momento em que ele se descreveu comecei a criar em mim a idéia de como ele seria sem roupa, pelado e indefeso diante de mim: ri muito! Ele não era de todo magro ou feio no sentido laico da palavra, mas tinha um ar tão inocente quanto viril. Sim, conseguia ser viril e, ao mesmo tempo, perdido em seu corpo esguio e marcado pela ausência de experiência.

 

Mas isso foi antes, quando eu ainda habitava longinquos espaços e acreditava que estava apaixonada. Foi antes de ir a uma festa, em alguma sexta-feira, e ter experiências novas com pessoas novas e ambientes novos.

 

Lembro-me de que cheguei e pedi um dry martini enquanto sentava-me, sozinha, em um canto do bar. Soltei meus cabelos e passei a brincar com a azeitona do copo, distraída e curtindo o som antes de começar a dançar. Foi quando o vi, distante, a fitar-me despretensiosamente. Sorriu como se me fosse interessante, como se me quisesse chamar a atenção quando no fundo eu sequer o reconheceria como humano. Ri. Ri muito do quanto ele se achava seguro de si ao me ver ali, pensando em se aproximar para um papo bobo e sem intenção.

 

Continuei a sorrir e a passar a mão pela minha nuca enquando afastava o cabelo em um sinal de que a bebida fazia em mim algum efeito. Inclinava-me suave e virava o rosto como a procurar algum sinal de lucidez em meu dry martini que aos poucos se esvaía de meu copo. Engoli o último gole e tomei de meu echarpe: fui dançar. Uma boa música, um som animador e passei a agitar-me ritmadamente sem qualquer pudor. Fingia-me como uma dama a se descobrir, mas no fundo provocava aquele que ainda fitava-me sem coragem de se aproximar.

 

Lembrei-me do magro esguio e tímido da Internet, de seu olhar perdido em dogmas provincianos e seu ruborizar quando lhe questionei sobre seu falo. Ele julgava-me ninfeta ou santa, mas eu ria da insegurança que ele tinha de sua beleza quando eu nada mais queria senão conhecer-lhe o sexo. Não, ele não seria belo e nem príncipe, nem rico e nem homem. Era para mim o magro da Internet, perdido e sem chance alguma de ter-me por uma noite sequer.

 

De repente parei de dançar e olhei ao garoto que ainda discretamente me paquerava ao longe. Passei novamente a mão pela nuca e deixei-o se aproximar: ele era magro, usava aparelhos e tinha mãos grandes. Cheirava a colônia nacional, usava jeans nacional e seus cabelos foram cortados em algum lugar barato e sem estilo. Voltei a rir.

 

Não me lembro de palavra qualquer que ele tenha falado e se fui eu ou ele quem deu o primeiro beijo. Ele dizia estudar finanças, ter 25 anos e morar em alguma cidade no interior do estado. Sabia que era apenas uma diversão e passei a brincar com meu echarpe em volta de seu pescoço como em uma dança de sedução. Queria conhecer um pouco mais daquele corpo e depois esquecer-me dele, do magro tímido da Internet e do amor que deixei passar! Ele nao entendia a mensagem, embora seu corpo demonstrasse vida e seu talo rijo me desejasse claramente. Toquei-o. Avancei e ele, desnorteado, perdeu-se em mim...

 

Em poucos minutos um táxi nos deixava a porta do hotel e ele, ansioso, devorava-me, finalmente, com os olhos. Devorava-me avidamente sem tocar-me, apenas com o olhar, apenas a exibir seu rijo sexo que aspirava cada gota de mim. Calei-me e fechei os olhos enquanto o elevador subia em direção ao quarto. Hesitei por um momento ou dois e, quando paramos, antes mesmo que abrisse a porta de seu quarto, virei as costas e saí em silêncio pelo corredor. Ele seguiu-me, arfante, perguntando-me porque iria deixá-lo ali se eu mesma fui quem quis ir até lá. Disse-lhe que havia mudado de idéia e com um aceno e um beijo no ar deixei-o ali, parado, corpo teso e sem esperança qualquer de conhecer-me...

 

Bea

Monday, August 31, 2009

Uma nesga de felicidade

Ela tinha as mãos enrugadas pelo tempo, dedos marcados e sulcos profundos na face que denotavam um sofrimento passado. Entrou e sentou-se sem cerimônia. Olhou ao lado, repousou sua bolsa, tomou seus óculos de algum pacote e os colocou, suave. Abriu a sacola que trazia, tirou algum pedaço de pano com agulha e linha e passou a trabalhar, suave. Olhos compenetrados, mãos que rapidamente davam vida a um pedaço de pano, branco. Como seus cabelos, brancos. Como suas unhas e um pedaço de dente que se via no sorriso...

Havia um prazer incomensurável no que fazia, enquanto embalada ao ritmo do vagão se perdia alheia aos dramas alheios que se misturavam aos cheiros do sábado, da vida, da solidão de tantos que se uniam em busca de um destino qualquer, suave e distante.

Chega seu destino. Recolhe seu patuá, guarda na sacola e pega sua bolsa, ao lado. Tira seus óculos e suave desce, em sua estação, em seu ritmo em sua vida...

 

Monday, August 10, 2009

J.

Ainda que eu busque contatos e fatos, nenhum me levará ao sentimento que tenho por você. Ainda que todos me julguem pela loucura de meu peito, ainda que eu seja condenado por invadir sua família... ainda que eu sofra e caia em esquecimento, sei o que trago no peito.

 

Não há motivos que me levem a desistir de você. Não, não há razões que me possam me impedir de amá-lo, de desejá-lo e lutar para que fiquemos juntos.

 

Sim, eu te amo J., te amo muito mais do que eu mesmo imaginava.

 

Até logo, muito logo.

 

E.

Tuesday, July 14, 2009

Caipiras

Não posso mentir que me sinto traído pelo desejo quando aspiro essa simplicidade tão tosca.

 

Não, eu não posso. Jamais poderia negar que me atrai essa sertaneja vida, essa beleza rústica que me obriga viajar.

 

Aspiro, por um momento, a fala que possuem e o jeito com que tocam.

 

Volto. E de dentro de mim percebo que sou um deles.

 

E.

Tuesday, July 07, 2009

Lucía

Lucía tinha olhos grandes e negros, como seus cabelos. Cabeleireira farta, sem corte definido que emolduravam seu rosto ao natural. Ela era natural. Algo de místico e torpe, um sorriso maroto, quase tímido, que arrancava de mim suspiros inocentes.

Perdemos contato após a adolescência, quando me mudei para capital. Manaus já era uma cidade próspera, cheia de migrantes que vinham para conhecer o fenômeno econômico. Foi no último baile, enquanto dançávamos frenéticos ao som de “L’ amour”, que a percebi bela. Um sentimento forte me veio ao peito e tudo o que via era seu nome, seu cheiro, seu som. Foi nossa despedida, sem um beijo qualquer, sem um abraço qualquer ou um sorriso de até logo como fazíamos todas as noites.

Ela continuou em Autazes. Eu lhe escrevia para dizer sobre o mundo que despontava, mas ela insistia em seus búfalos e as corridas matutinas. Lembrava-se de nossas idas ao Ribeira, quando pulávamos a cerca e mergulhávamos refrescados nas águas do Madeira. Foi uma boa infância, eu diria. E ela nunca se percebeu disso. Do sentimento que nascia. De minha admiração de sua beleza, quase selvagem, quase nativa, quase feminina.

Formei-me e passei a clinicar. Foi em Berlim, em uma temporada de inverno, que me lembrei de Lucía. Distraidamente, ao cruzar a Pariser Platz, vejo um vulto quase seu. Volto ansioso, penso que a via, mas foi apenas impressão. Fico horas a imaginá-la e todo sentimento se volta: Lucía, torpe e natural.

Não sei se há em mim alguma lembrança do que fui no tempo em que vivemos. Já não sabia se ainda havia em mim algum resquício de Autazes ou de toda criação que tive. Lembrei-me de minha mãe, que ao morrer deixou-me aos cuidados da madrinha que me levara à capital. Mamãe sempre dizia que haveria de retornar à terra natal, ainda que por um dia, para resolver o que deixei. Mamãe, sábia, já intuía que eu deixaria ali meu coração pobre, habitado pela figura de Lucía e sem qualquer outro desejo senão de possuí-la.

Após seis meses em Berlim retornei ao Amazonas: tinha que ir a Autazes.

Com o coração forte, revi cada pedaço meu naquelas ruas, estradas e pequenos córregos onde brinquei. As árvores por que passei chamavam-me lentamente, em um saudoso apelo ao que deixei ali de mim. Visitei o túmulo de mamãe, fui à velha casa onde cresci e perguntei aos roceiros se sabiam de Lucía.

Encontrei-a próxima ao Madeira, onde fizemos o último baile e despedimo-nos em silêncio. Ela, envolta em um leve pano, levantou seus olhos negros e viu-me aproximar. Tranqüila, como se estivesse a me esperar, abriu-se em um sorriso tímido, torpe, vivaz. Aguardou até que me aproximasse, tomou-me as mãos cansadas e com uma voz suave saudou-me... naquele momento, lembrei-me de mamãe e fui feliz!.

 

Elton Michael

Jul/07/2009 – 2:50 AM

 

Monday, June 22, 2009

Fausto

...e ainda que eu quisesse, não lhe poderia responder com sinceridade. Naquele momento eu me sentia a própria dor, eu me sentia a própria angústia. A intensidade com que vivia me fez pensar em Fausto, em sua exacerbação de sentimentos e sua obsessão por construir. Não que eu tivesse em mim o Diabo para dar-me o que pedi, mas o percebia na sua mais nobre clareza, em cada centímetro de meu egoísmo, de minha vaidade, de meu orgulho.

 

Eu era o Diabo em mim e poderia amar-me. Doce ou amargo, tinha ambos sem julgamentos que pudessem corromper a minha essência, a minha unidade, o meu ser. Quis remover a máscara e já não faria diferença. Eu não era aquela máscara, mas aquela máscara se tornou parte de mim. Sim, eu a havia construído e ela nada mais foi do que reflexo do que tinha em meu interior.

 

E ele se calou com meu silêncio, levantou-se e fez menção de sair. Impedi-o por um momento. Eu o queria por perto, sabia disso. Disse-lhe que ficasse, pois ainda que não o quisesse como amigo, o teria como amante. Menti. Nossas frenéticas fricções eram absolutas, cálidas e perfeitas para que perdurasse mais que um contato, mas não queria a sua alma. Não haveríamos de dividir qualquer alma e eu não lhe poderia responder com sinceridade.

 

Naquela dor sublime e angustiante, abracei-o e voltamos a nos deitar.

 

E.

Tuesday, June 02, 2009

A queda

Aos poucos os sons da noite se rendiam. Aos poucos, enquanto se entregava a Morfeu, silenciava seus próprios pensamentos. Como se sua mente se calasse, leve. Como se o seu corpo, enfim, lhe respondesse. Uma energia branda deu vida aos seus braços, suas pernas. Abriu os olhos e, em silêncio, levantou-se deixando sobre a cama o seu corpo inerte.

Recostou-se no parapeito e viu, ao longe, as vias vazias de trânsito. Abaixo. Milhas de asfalto tão negros, tão longínquos e tão belos quanto o que sentia. Leve. Sentia-se tão leve quanto a brisa que o envolvia. Seu corpo lasso sobre a cama em um sorriso largo e seu eu, à janela, intencionava o vôo noturno.

Tentou-se a si mesmo. Levantou-se e parou a fitar a imensidão à frente, abaixo. Saltou. Caiu imponente em direção ao asfalto. Negro. Belo e vazio. Caiu. Caía. À medida que ia, esquecia-se de sua vida. Da vida que tinha. Da vida que teve. Da vida que teria.

Caía rápido e logo se logrou a subir. Ganhou altura, ganhou força. Passou por entre diversos edifícios e viu vida. Orgulhou-se do que fazia. Do que via. Do vôo libertador que lhe fez planar sobre todas as dores e imobilidade de seu corpo.

Desceu em um ponto próximo às casas noturnas. Encantou-se com a música, a fumaça dos cigarros e as pessoas apressadas que iam e viam embrulhadas em suas vidas loucas. Em suas vidas notívagas e de prazeres. Encantou-se. Desejou ser uma delas: fútil e ágil. Simples e sem destino senão beber-se e dançar-se. Desejou-as, mas retomou de seu destino e saiu.

O lago parecia um grande espelho, quando o sobrevoou. Via a lua e em seu centro seu próprio reflexo. Não se conteve. De repente sentiu-se profundamente sozinho. Profundamente distante e feliz. Desceu e pairou suave sobre seu reflexo no lago. Volitava. Mirava-se e, embevecido, animava-se com o que via. Como Narciso, tocava com as mãos seu rosto, seu peito, seus cabelos. Engrandecia-se e ria, sozinho, a pairar sobre as águas em seu próprio reflexo... em sua própria imagem, leve. Sem limites. Sem amarras. Sem tempo!

Porém deveria voltar. E a aurora, imponente, daria fim a sua catarse. Voltaria sobre o asfalto negro a caminho de sua prisão. De seu corpo. De sua vida. Da vida que tinha. Que teve. Que teria.

Entrou pela janela. Olhou uma vez mais seu corpo inerte e despertou.

E.

Sunday, May 31, 2009

Ana

Penteava seus cabelos preguiçosamente a se mirar no espelho. Tinha um viço profundo, distante do tempo em que ainda não se sabia viva, não se sabia capaz dessa liberdade a se exaurir dos poros quase que involuntariamente.

Olhos grandes e expressivos, lembra-se. Lábios carnudos, firmes e de um vermelho incomum. Amou-se enquanto se penteava. Amou-se tão profunda e lentamente que por um segundo sentiu-se transportar ao tempo recordado. Viu-se. Viu-se tão nítida que se emocionou. Viu-se tão viva que se quis e se quis tanto e tanto que se pôs a chorar.

Ana, chamou-se a si mesma. Ana de Ana da igreja que foi mãe de sua mãe. Considerou-se filha da virgem. Da virgem que tanto lhe acompanhou nas noites em que chorou sorrateira escondida de todos. Que se escondeu de todos que apontavam seu pecado. Que apontavam Ana por ser João.

Voltou. Um instante mudo lhe mareou os olhos. Corrigiu sua maquiagem e sorriu leve. Quis-se novamente. Não se deixaria abater pelos que condenavam seu amor.

Desceu as escadas, cumprimentou a servente do prédio e ganhou a rua. Ansiava pelo encontro e aquele jantar. Ansiava por um gesto de cavalheirismo e o telefonema do dia anterior a encheu de esperança. A esperança de ser Ana sem medo, sem culpa, sem mácula. Sorriu leve uma vez mais. Sonhava enquanto se amava: profunda e lentamente.

Passou pela marquise, subiu a travessa e chegou à praça. Ele a esperava. Ele tomou-lhe a mão e a beijou. Ela enrubesceu. Tímida. Leve e viça sentia-se no mundo. Viva. Sem mácula: Ana, mãe de sua mãe.

Entrou no carro e tocou o crucifixo em seu peito. O sol se punha ao longe e a medida em que iam o seu cabelo esvoaçava. Vívida. Feliz.

Esqueceu-se de tudo. Olhou seu companheiro ao lado e sorriu novamente. Tocou-lhe o braço, o rosto, as mãos. Amou-se. Amou-o.

E.

Saturday, April 18, 2009

Sublimação

Se fossem todos humanos não teriam do que se arrependerem.

 

Se fossem humanos, meu Deus, eu os justificaria, ou até os absolveria pela piedade que ainda há em minha alma.

 

Mas são simples e ignorantes, desconhecem o deleite do pecado e se perdem apenas na culpa dos atos insanos que cometem.

 

São tolos e perdidos. Tolos, culpados de atos deflatores que cometem sem pensar. Culpados pela ignorância do sublime, da humanidade, da imperfeição.

 

E apenas se permitem a busca do efêmero em telas e idéias escritas, em fantasias que criam e depois decrescem com os príncipes do ócio.

 

Se fossem todos humanos... mas não o são.

 

E agora, meu Deus, que me aproximo deles, se ofuscam em minha rede para não aceitarem o fato de minha sublimação.
 
E.

Thursday, February 05, 2009

Leia até o final, reflita

A marca de cada um
 

Do leitor Ricardo Mainieri: "Como se manter fiel às suas idéias e preferências num mundo cada vez mais estereotipado?"

por Eugenio Mussak

Estereotipia é uma técnica usada em gráficas para produzir cópias que são, então, chamadas de estereótipos. A palavra grega stereos passa a idéia de alguma coisa dura que é capaz de deixar sua marca em uma superfície mole, como o tipo da gráfica sobre o papel. Essa técnica permitiu que se fizessem muitas cópias, não só de textos mas também de obras de arte. Hoje, qualquer pessoa pode ter em casa uma cópia da Monalisa ou de Guernica, por exemplo. O curioso é que, mesmo tendo visto muitas dessas cópias, quando você depara com o original, a emoção é outra.

Por que isso ocorre? Ora, porque a cópia não tem a personalidade que desejamos para nos emocionar. O autor não tocou nela, não deixou ali impressa sua alma junto com a tinta. Cópias são estéreis, não têm DNA, são produto, não são causa, são decoração, não arte. Pegando carona nesse conceito, as pessoas que parecem carregar uma característica forte que foi apenas recebida de outros, sem contestação, começaram a ser chamadas de cópias, clichês, filhotes, e o conjunto de características recebeu o nome de estereótipos.

Assim ficou fácil qualificar as pessoas e seus grupos, afinal, são marcas duras sobre suas personalidades moles. Simples assim, esse conceito. Ou seria "pré-conceito"? Afinal, todos sabem que as louras são burras, os gaúchos são machistas, os baianos são preguiçosos, os judeus são sovinas, as mulheres são ciumentas, os homens são infiéis e os políticos são corruptos. Nada disso é uma verdade absoluta, mas vá convencer as pessoas de que os estereótipos só existem para dificultar a comunicação e azedar as relações. Os estereótipos são assim, marcam as pessoas com um ferro em brasa imaginário e delimitam seu território.

Sou meu reflexo no espelho?

Repare que, sem querer, estamos esbarrando com situações definidas por estereótipos o tempo todo. Meu amigo Claudio, por exemplo, um argentino gente finíssima, me explicou que só demonstra alguma arrogância quando vem ao Brasil, porque as pessoas simplesmente esperam que ele seja assim. Também tem o Mário, meu amigo de Lisboa, engenheiro, professor, empresário, entendido em vinhos e arte ibérica, uma das pessoas mais inteligentes e antenadas que eu conheço. Impossível aplicar uma das famosas "piadas de português" a esse gentleman lisboeta. Seguindo na mesma linha, poderia citar muitas outras pessoas com profissões, nacionalidades, características físicas, idades e religiões que não apresentam nenhum dos traços preconcebidos pelo estereótipo que os acompanha simplesmente por ser quem são.

Afinal, de onde surgem os estereótipos? Eles são, necessariamente, ruins? Como fazer para evitar que os estereótipos se transformem em caricaturas que enquadram as pessoas e as condenam a viver um papel que não escolheram e que nem sequer aprovam? Como alguém pode manter a identidade e ser fiel aos seus valores em uma sociedade que rotula as pessoas? Perguntas que incomodam, principalmente porque não têm respostas convincentes.

O médico francês Jacques Lacan, que passou da neurologia para a psiquiatria e desta para a psicanálise, disse coisas que podem nos ajudar a entender um pouco o mistério dos estereótipos. Por exemplo: "Eu sou o que vejo refletido sobre mim nos olhos dos outros". Ou ainda: "Com freqüência, os símbolos são mais reais do que aquilo que simbolizam". Pois é, parece que nós, humanos, fazemos a representação da realidade através da identidade com o grupo a que pertencemos. Realmente, não há como negar que o ser humano é um animal gregário, que depende do grupo para sobreviver física e emocionalmente. Quanto a isso, não resta dúvida. Como também não se pode discutir que os traços culturais servem para criar elementos de distinção grupal e que eles conferem uma sensação de conforto e segurança.

Então está explicado por que criamos grupos e classificamos as pessoas, mas – e sempre tem um mas – daí a aceitar que as pessoas sejam carimbadas e recebam atributos artificiais, e se conformem com a situação, há uma imensa distância. Por isso eu gostei muito daquela propaganda na TV que propõe às pessoas uma reflexão, perguntando: "Será que não está na hora de você rever seus conceitos?" E faz isso depois de mostrar algumas cenas em que pessoas reagem mal a determinadas situações, como uma mulher branca casada com um negro, um homem mais velho com uma mulher mais nova, ou o contrário. Em um dos episódios, em um hall de entrada de um edifício de luxo, uma madame recomenda a outra mulher, vestida de maneira simples, que suba pelo elevador de serviço, para depois descobrir que se trata da nova moradora que acabara de comprar o apartamento de cobertura. Realmente, está na hora de rever os conceitos, porque, quando eles são formatados por antecipação, são, na verdade, preconceitos.

Cópias são chatas

Voltando a falar de arte, vamos concordar, as cópias são chatas e têm menos valor. Eu, que gosto muito de arte, vivo às voltas com essa realidade. Em minha primeira viagem a São Paulo, ainda adolescente, visitei o Masp e me apaixonei pela obra de Modigliani. Aqueles pescoços longos exerceram sobre mim um fascínio sensorial e sensual. Em minha ilusão quase infantil, prometi que ainda teria uma obra do pintor italiano de vida breve e desregrada. E cumpri minha promessa. Anos depois, comprei uma gravura dele na loja do museu Thyssen-Bornemisza, em Madri. E hoje, onde está a gravura? Confesso que não tenho a menor idéia. Quando voltei com ela para casa, meu entusiasmo em emoldurar e pendurar a cópia rapidamente arrefeceu, pois ela era apenas isso, uma cópia, uma reprodução barata, ainda que muito bem feita.

Respeito as cópias, mas prefiro os originais. Com relação às pessoas, também tenho esse sentimento. Prefiro as originais. Dispenso as cópias, os clichês, os estereótipos. Adoro personalidade, força de opinião, caráter. E digo isso não porque é politicamente correto apoiar a força da personalidade – isso seria um estereótipo –, mas porque pessoas singulares sempre são mais interessantes, atrativas; provocam polêmica, discussão, pensamento. Os estereotipados são chatos, comportam-se como gado obediente, parece que não têm opinião.

Estou sendo cruel?

Possivelmente, mas, acredite, essa crueldade também recai sobre mim, pois com freqüência sinto que eu também obedeço a alguns estereótipos, traços culturais fortes que, quando confrontados, acabam por provocar algum desconforto. Por exemplo, não sou fanático por futebol, mas às vezes me vejo discutindo lances e estratégias em um grupo de torcedores. Por quê? Ora, simplesmente para ter assunto, para rir um pouco, para exercitar minha memória (foi o Carlos Alberto que fez o último gol na Copa de 70, na vitória de 4 x 1 sobre a Itália) e minha capacidade argumentativa (na seleção do Telê faltaram pontas e na do Parreira faltou espírito de equipe) e, sei lá, para me sentir participante. Por tudo isso, mas não pelo estereótipo de que homens têm que gostar de futebol e que as mulheres nunca vão entender isso. Sem chance de ser visto no Maracanã com a camisa de um time, de calça arregaçada até o joelho e radinho de pilha no ouvido.

No ótimo filme Encontrando Forrester há uma discussão velada sobre os estereótipos sociais e o esforço que as pessoas fazem para ser aceitas pelo grupo. Trata da relação entre dois indivíduos antagônicos, um estudante secundarista, negro e pobre, e um excêntrico gênio da literatura. No decorrer da trama, o jovem talento emergente Jamal Wallace é ajudado pelo escritor William Forrester a encontrar seu caminho na literatura, ao mesmo tempo que ajuda o escritor a se libertar de sua condição de ermitão esquisito.

Mas há a trama paralela, que descreve a relação do jovem do Bronx com sua comunidade. Ele é um prodígio, mas esconde sua condição para não ser rejeitado. Seu desempenho escolar é acima da média, mas ele erra propositalmente algumas questões das provas, para não ser considerado "diferente", e trata de se impor pelo esporte, o que lhe dá mais status em um ambiente em que vale a força física.

Ele nega sua condição e aceita o estereótipo do grupo para poder sobreviver. Mas, claro, no fim prevalece sua essência, com ajuda de seu mentor intelectual, que o salva de si mesmo e lhe abre a perspectiva de uma vida mais rica de realizações. O discurso do escritor na reunião da escola vale o filme. O problema das classes sociais, os estereótipos culturais e raciais estão presentes com muita força, ainda que o roteiro dirija a trama para outro foco. Uma história fascinante, que mistura literatura, preconceito, relações humanas e o encontro de pessoas com seus destinos.

Falando em destino, Fernando Pessoa, que interpretou a alma humana como poucos poetas, recomenda: "Para ser grande, sê inteiro/ Nada teu exagera ou exclui/ Sê tudo em cada coisa/ Põe quanto és/ No mínimo que fazes". Parece até que ele está nos lembrando que o que interessa mesmo é o que real mente somos, e não o que os outros querem que sejamos, colocando, em nosso corpo, marcas que às vezes grudam em nossa alma.

Estereotipados são chatos, comportam-se como gado obediente, não têm opinião