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Mostrando postagens de 2009

Sou teu...

Ainda que os falos se prostem à minha frente, Ainda que a virilidade se faça presente, Ainda que haja mil corpos com desejos e duas mil imagens de beleza... Ainda que se faça silêncio em todos os corpos e que castrem toda juventude... Serei teu, amado amigo, serei teu!   Mesmo com imagens de homens, Mesmo com o desejo dos meninos, Mesmo com o assédio masculino, Mesmo com as dores da saudade, Mesmo com a nossa distancia física, Sou teu e teu serei até o fim, Terás meu corpo, mente e coração.   Serás leão e domador de minhas farsas, o senhor que assegura minha vida, e o ar que faz o meu viver. Dono de meus pensamentos e sempre do meu gozar. Sem pudor. Por ti tenho amor. Eu sou teu, amado amigo, eu sou teu!   Os falos morrem e as imagens somem, os meninos envelhecem e partem. Nada é eterno. Mas sou teu enquanto existir. Michael - Maio, 18. 1995

A dulce paz...

Aconteceu novamente, Claire. Como sempre há um vento frio que entra pelos meus poros e me faz repensar se há vida. É um vento intenso, dorido, que ainda assim não me arrebata a paz! É estranho ser indiferente ao vento. Ele, sempre ele. Ele, o outro. Como ele foram tantos, e tantos passaram. Não é a nossa sina? Não é essa nossa verdade, nossa vida? Ter o inferno no outro, porque é o outro que nos conta quem somos. E quem somos senão aquelas pequenas imagens por que nos tomam? Não somos, Claire... Se fôssemos, nossas imagens seriam sempre as mesmas. E não são, porque o outro – assim como ele – só pode ver o que sabe, o que conhece ou o que já experimentara de fato ou por um conto que ouvira em um lugar qualquer... Não, Claire... nossas imagens não são as mesmas. Elas são o que o outro – e ele – quer que elas sejam. Somos vítimas de nossas imagens e são elas – e somente elas – que contam aos outros o que somos (e são os outros que nos dizem!). Mas como eu dizia, acon...

O Trem

O trem que passa, passa e passa Não vê os patos que sobrevoam a relva, E tampouco reconhece a asa quebrada daquele que se desvia do bando a cair..   O   trem   corre. O   pato   cai.   Sabe onde vai o trem, Sabe onde cairá o pato!   Sem sorrisos no céu o sol escalda E testemunha o fim: O trem pára. O pato cai.

Concubina, a louca

Ela tinha dedos largos, cumpridos e cheios de marcas do tempo. Do cigarro barato e dos bordéis que freqüentava no centro da Lapa. Da cabeleira vasta e vermelha, poucos fios caiam-lhe sobre as têmporas acinzentados pela escolha da vida que tinha. Poucos dentes compunham-lhe a face cansada, sua boca rota e os olhos vítreos como se mortos para a luz ofuscantes e mofos das camas onde se vendia. E se declarava concubina, a louca. Sim, em sua insanidade imaginava-se capaz de sonhos, de devaneios onde seu poder se misturava às bebidas quentes de final de noite e suas roupas, rasgadas, seu preço barato pago pelos caixeiros viajantes. Apelidavam-lhe de bruxa. Sempre em desalinho, tentava sanar sua carência nos jogos de azar onde apostava sua indecência por moedas de barro. Dizia-se conhecedora dos segredos da vida, mas os únicos que habitavam sua mente eram das lembranças pérfidas de quando tentava exalar maldade e despertava alguma compaixão. E se declarava concubina, a louca. Viveu até ...

Charles Chaplin

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato. E então, pude relaxar.    Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima. Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades. Hoje sei que isso é...Autenticidade. Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento. Hoje chamo isso de... Amadurecimento. Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo. Hoje sei que o nome disso é... Respeito. Quando me amei...

Apenas até logo

Já fazia tempo que não me preocupava tanto com a beleza ou qualquer outro aspecto externo ao me encontrar com pessoas. Muitas vezes ainda questionava em minha mente se havia algo mais por detrás da imagem, se em nudismo haveria de se revelar algo de extraordinário ou até mesmo bizarro... uma vez foi com um desses que se conhece pela Internet, no momento em que ele se descreveu comecei a criar em mim a idéia de como ele seria sem roupa, pelado e indefeso diante de mim: ri muito! Ele não era de todo magro ou feio no sentido laico da palavra, mas tinha um ar tão inocente quanto viril. Sim, conseguia ser viril e, ao mesmo tempo, perdido em seu corpo esguio e marcado pela ausência de experiência.   Mas isso foi antes, quando eu ainda habitava longinquos espaços e acreditava que estava apaixonada. Foi antes de ir a uma festa, em alguma sexta-feira, e ter experiências novas com pessoas novas e ambientes novos.   Lembro-me de que cheguei e pedi um dry martini enquanto sentav...

Uma nesga de felicidade

Ela tinha as mãos enrugadas pelo tempo, dedos marcados e sulcos profundos na face que denotavam um sofrimento passado. Entrou e sentou-se sem cerimônia. Olhou ao lado, repousou sua bolsa, tomou seus óculos de algum pacote e os colocou, suave. Abriu a sacola que trazia, tirou algum pedaço de pano com agulha e linha e passou a trabalhar, suave. Olhos compenetrados, mãos que rapidamente davam vida a um pedaço de pano, branco. Como seus cabelos, brancos. Como suas unhas e um pedaço de dente que se via no sorriso... Havia um prazer incomensurável no que fazia, enquanto embalada ao ritmo do vagão se perdia alheia aos dramas alheios que se misturavam aos cheiros do sábado, da vida, da solidão de tantos que se uniam em busca de um destino qualquer, suave e distante. Chega seu destino. Recolhe seu patuá, guarda na sacola e pega sua bolsa, ao lado. Tira seus óculos e suave desce, em sua estação, em seu ritmo em sua vida...  

J.

Ainda que eu busque contatos e fatos, nenhum me levará ao sentimento que tenho por você. Ainda que todos me julguem pela loucura de meu peito, ainda que eu seja condenado por invadir sua família... ainda que eu sofra e caia em esquecimento, sei o que trago no peito.   Não há motivos que me levem a desistir de você. Não, não há razões que me possam me impedir de amá-lo, de desejá-lo e lutar para que fiquemos juntos.   Sim, eu te amo J., te amo muito mais do que eu mesmo imaginava.   Até logo, muito logo.   E.

Caipiras

Não posso mentir que me sinto traído pelo desejo quando aspiro essa simplicidade tão tosca.   Não, eu não posso. Jamais poderia negar que me atrai essa sertaneja vida, essa beleza rústica que me obriga viajar.   Aspiro, por um momento, a fala que possuem e o jeito com que tocam.   Volto. E de dentro de mim percebo que sou um deles.   E.

Lucía

Lucía tinha olhos grandes e negros, como seus cabelos. Cabeleireira farta, sem corte definido que emolduravam seu rosto ao natural. Ela era natural. Algo de místico e torpe, um sorriso maroto, quase tímido, que arrancava de mim suspiros inocentes. Perdemos contato após a adolescência, quando me mudei para capital. Manaus já era uma cidade próspera, cheia de migrantes que vinham para conhecer o fenômeno econômico. Foi no último baile, enquanto dançávamos frenéticos ao som de “ L’ amour ”, que a percebi bela. Um sentimento forte me veio ao peito e tudo o que via era seu nome, seu cheiro, seu som. Foi nossa despedida, sem um beijo qualquer, sem um abraço qualquer ou um sorriso de até logo como fazíamos todas as noites. Ela continuou em Autazes. Eu lhe escrevia para dizer sobre o mundo que despontava, mas ela insistia em seus búfalos e as corridas matutinas. Lembrava-se de nossas idas ao Ribeira, quando pulávamos a cerca e mergulhávamos refrescados nas águas do Madei...

Fausto

...e ainda que eu quisesse, não lhe poderia responder com sinceridade. Naquele momento eu me sentia a própria dor, eu me sentia a própria angústia. A intensidade com que vivia me fez pensar em Fausto, em sua exacerbação de sentimentos e sua obsessão por construir. Não que eu tivesse em mim o Diabo para dar-me o que pedi, mas o percebia na sua mais nobre clareza, em cada centímetro de meu egoísmo, de minha vaidade, de meu orgulho.   Eu era o Diabo em mim e poderia amar-me. Doce ou amargo, tinha ambos sem julgamentos que pudessem corromper a minha essência, a minha unidade, o meu ser. Quis remover a máscara e já não faria diferença. Eu não era aquela máscara, mas aquela máscara se tornou parte de mim. Sim, eu a havia construído e ela nada mais foi do que reflexo do que tinha em meu interior.   E ele se calou com meu silêncio, levantou-se e fez menção de sair. Impedi-o por um momento. Eu o queria por perto, sabia disso. Disse-lhe que ficasse, pois ainda que não o quisesse como amigo...

A queda

Aos poucos os sons da noite se rendiam. Aos poucos, enquanto se entregava a Morfeu, silenciava seus próprios pensamentos. Como se sua mente se calasse, leve. Como se o seu corpo, enfim, lhe respondesse. Uma energia branda deu vida aos seus braços, suas pernas. Abriu os olhos e, em silêncio, levantou-se deixando sobre a cama o seu corpo inerte. Recostou-se no parapeito e viu, ao longe, as vias vazias de trânsito. Abaixo. Milhas de asfalto tão negros, tão longínquos e tão belos quanto o que sentia. Leve. Sentia-se tão leve quanto a brisa que o envolvia. Seu corpo lasso sobre a cama em um sorriso largo e seu eu, à janela, intencionava o vôo noturno. Tentou-se a si mesmo. Levantou-se e parou a fitar a imensidão à frente, abaixo. Saltou. Caiu imponente em direção ao asfalto. Negro. Belo e vazio. Caiu. Caía. À medida que ia, esquecia-se de sua vida. Da vida que tinha. Da vida que teve. Da vida que teria. Caía rápido e logo se logrou a subir. Ganhou altura, ganhou força. Passou por entr...

Ana

Penteava seus cabelos preguiçosamente a se mirar no espelho. Tinha um viço profundo, distante do tempo em que ainda não se sabia viva, não se sabia capaz dessa liberdade a se exaurir dos poros quase que involuntariamente. Olhos grandes e expressivos, lembra-se. Lábios carnudos, firmes e de um vermelho incomum. Amou-se enquanto se penteava. Amou-se tão profunda e lentamente que por um segundo sentiu-se transportar ao tempo recordado. Viu-se. Viu-se tão nítida que se emocionou. Viu-se tão viva que se quis e se quis tanto e tanto que se pôs a chorar. Ana, chamou-se a si mesma. Ana de Ana da igreja que foi mãe de sua mãe. Considerou-se filha da virgem. Da virgem que tanto lhe acompanhou nas noites em que chorou sorrateira escondida de todos. Que se escondeu de todos que apontavam seu pecado. Que apontavam Ana por ser João. Voltou. Um instante mudo lhe mareou os olhos. Corrigiu sua maquiagem e sorriu leve. Quis-se novamente. Não se deixaria abater pelos que condenavam seu amor. Desc...

Sublimação

Se fossem todos humanos não teriam do que se arrependerem.   Se fossem humanos, meu Deus, eu os justificaria, ou até os absolveria pela piedade que ainda há em minha alma.   Mas são simples e ignorantes, desconhecem o deleite do pecado e se perdem apenas na culpa dos atos insanos que cometem.   São tolos e perdidos. Tolos, culpados de atos deflatores que cometem sem pensar. Culpados pela ignorância do sublime, da humanidade, da imperfeição.   E apenas se permitem a busca do efêmero em telas e idéias escritas, em fantasias que criam e depois decrescem com os príncipes do ócio.   Se fossem todos humanos... mas não o são.   E agora, meu Deus, que me aproximo deles, se ofuscam em minha rede para não aceitarem o fato de minha sublimação.   E.

Leia até o final, reflita

A marca de cada um   Do leitor Ricardo Mainieri: "Como se manter fiel às suas idéias e preferências num mundo cada vez mais estereotipado?" por Eugenio Mussak Estereotipia é uma técnica usada em gráficas para produzir cópias que são, então, chamadas de estereótipos. A palavra grega stereos passa a idéia de alguma coisa dura que é capaz de deixar sua marca em uma superfície mole, como o tipo da gráfica sobre o papel. Essa técnica permitiu que se fizessem muitas cópias, não só de textos mas também de obras de arte. Hoje, qualquer pessoa pode ter em casa uma cópia da Monalisa ou de Guernica, por exemplo. O curioso é que, mesmo tendo visto muitas dessas cópias, quando você depara com o original, a emoção é outra. Por que isso ocorre? Ora, porque a cópia não tem a personalidade que desejamos para nos emocionar. O autor não tocou nela, não deixou ali impressa sua alma junto com a tinta. Cópias são estéreis, não têm DNA, são produto, não são causa, são decoração, não arte...