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Mostrando postagens de março, 2021

A Rezadeira do Pelourinho

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Olhei pela janela e o Pelourinho estava vazio, todos se recolheram para evitar a peste. Meu corvo veio suave e pousou sobre meu ombro esquerdo. Eu estava silente, quieto e compenetrado em mim mesmo na solidão de meu apartamento: sem maconha, sem uísque e sem a companhia de Alice, minha companheira, que foi arrebatada pela peste. Meu corvo gralhou algo e avistei , do outro lado da rua,  uma janela quase aberta, meio escura, onde uma velha sorria por entre as frestas da cortina. Tinha um olhar profundo, da idade e da sabedoria do tempo... era a rezadeira do Pelourinho, deduzi. Aquela tanto procurada em tempos de crise, que benzia as crianças e aconselhava tantas outras que já estavam na fase adulta. Tinha a pele enrugada e cinza, um sorriso perfeito e todos seus dentes eram claros. Senti de ir até ela, pedir um alento nesse luto que me consumia sem Alice. Antes de bater em sua porta, ela a abriu, simplesmente, e disse que me esperava. Usava máscara, agora, e uma grande mesa tinha tan...

A Magia dos Elementos

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Muitos me perguntam sobre o que é Magia ou como é a vida de um Mago (ou Magista?). Embora me pareça uma pergunta ingênua e carregada de preconceitos, eu consigo ter alguma paciência ao responder e perceber que não agradei a pessoa ao fazer.  Talvez, seja pela fantasia que cada um tem de que Magia é ter a vida fácil, sem qualquer problema e ser capaz de ter os desejos atendidos sempre que possível... uma fantasia interessante, eu diria, que pode ser atendida através da Magia, sem dúvida. Mas, daí reduzir Magia apenas a isso é superficial, senão imbecil. Podemos dizer que Magia é a capacidade de transformar a realidade ou se conectar com o Divino, tudo isso foi dito em algum livro em algum lugar por algum ocultista de referência. Outros vão dizer que a Magia é aquele envolvimento que ocorre e faz com que o Ser tenha uma Epifania e se descubra parte do Todo... gosto dessa visão também. E se Magia for tudo isso e nada disso ao mesmo tempo? Talvez seja essa minha visão que me afaste tan...

Naudiz

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Hoje Ela voltou. Veio devagar, logo pela manhã, e se instalou como uma visita inesperada. Não pediu licença, sentiu-se em casa, como sempre. Como se estivesse em seu espaço, em sua razão, em seu motivo. Chegou silente e sem alarde, sorrateira, própria de uma natureza madura e segura. Ela esperou por mim. Que eu me despertasse para um novo dia. E então, finalmente, Ela falou. E Suas palavras vieram como uma grande explosão, sem símbolos, sem rodeios, sem metades. Apenas vieram. E fizeram sentido. E tinham significado. Palavras capazes de mudar o sentir do dia, a consciência do dia. A consciência, Ela diria. A consciência é o que pode nos deixar livres. "Por que continuas preso em teus grilhões", Ela perguntou. "Por que não te libertas se do que precisas é coragem de prosseguir". Ela me questionava e meu café nunca pareceu tão amargo. O sono se foi e o pão sequer me alimentou. Então Ela se calou. Sentou-se em um canto em silêncio, novamente, como se aguardasse eu assi...

A angústia do saber

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Muitas vezes, não conhecemos o que nos prende, sequer sabemos qual é a nossa angústia. Ficamos atordoados com o café que caiu ao pegarmos ou com o carro dos ovos quando estamos ao celular falando com alguém... não sabemos que essas ocorrências externas são apenas referências que tocam algum elemento interno que temos. Desprezamos a angústia e deixamos a vida fluir. É como se vivêssemos na superfície boa parte do tempo, sem saber ao certo quem somos ou o que sentimos, verdadeiramente, diante das coisas em nossas vidas. É como se criássemos uma bolha e nem nos déssemos conta dela, como se o mundo que conhecemos fosse apenas um reflexo superficial do que temos em nosso interior: superficial porque acreditamos que não daríamos conta de descer mais fundo e conhecer mais fundo em nós mesmos. Mas, como somos imagem e semelhança Divina, a onisciência é uma das próprias condições do Ser Divino - ou D'us, para alguns. Somos empurrados pela vida para saber e conhecer, em uma curiosidade inata...

O numinoso em cada um de nós

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Umbanda sempre foi para mim algo como um conjunto de fascínio, receio, respeito e confusão.  Eu achava que, como religião, não me serviria. Como prática de espiritualidade, eu me confundia nessa mistura católica, afro e indígena: caboclos que trazem traços indígenas e se mesclam com as divindades africanas (orixás, negros e negras velhas), espíritos de ancestrais brasileitos (baianos, boiadeiros, malandros, marinheiros) e outros de origem diversas (ciganos, exus e pombo giras ).  Eu ousava dizer que, no limite, tudo isso não passava de um grande caos, misturando tudo e a todos dentro de algo sem regras e incerto... e, no fundo, não é que é isso mesmo? Não é que tudo se parece com um grande caos que traz de tudo um pouco e o pouco em tudo que acontece? Essa é uma das belezas que faz dessa prática espiritual, de grande religiosidade, uma das mais populares de nosso país. Uma prática que é capaz de nos dar elementos de grande significado, capaz de nos levar a busca interior de re...