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Mostrando postagens de outubro, 2020

Ele, o demônio

Hoje meu demônio me visitou novamente. Chegou em silêncio, sentou-se ao meu lado e permaneceu... como sempre, não interagia, mas ali estava, altivo e completo. Eu entendia sua presença, entendia sua manifestação quando meu peito estava repleto de vazio. Ele, o demônio, não era o vazio e, tampouco, habitaria meu vazio. Ele, o demônio, era o que eu traria para evitar o vazio sem perceber que ele sempre se esquivava dessa tarefa: a ele não cabia preencher o que não lhe pertencia. Foi uma semana intensa, comecei a dizer. Ele, o demônio, acenou com a cabeça como se quisesse que eu continuasse a falar. Foi uma semana intensa, repeti. Os desequilíbrios emocionais me trariam rompantes de raiva e tinha de me conter para a ninguém ofender. Em alguns momentos, minha melancolia tomava corpo e me afundava em um sono intenso de horas a fio. Ele, o demônio, continua impassível e nada dizia. Seus olhos fitavam-me como se me perscrutassem, mas não me sentia incomodado. E continuei a falar. E continue...

Silêncio

Esquece a moça de vermelho, escute a música do silêncio – disse-lhe o velho sentado ao seu lado. Fechou os olhos, permitiu-se parar e apreciar a si mesmo, naquela praça, durante o almoço. Tudo pareceu ficar em um estado de suspensão, enquanto, em seu íntimo, algo acontecia sem que ainda compreendesse. A imagem da pequena igreja onde passou a adolescência veio-lhe à mente, o pastor falando sobre o céu e o estado de graça: era assim que se sentia, pleno e em estado de graça. Era Ian, a graça e o presente de D’us. Mas a imagem logo sumiu, deixando apenas a sensação leve e o sorriso de gratidão pelo tempo em que lá esteve. Sentiu sua angústia se aproximar e a abraçou. Ela então o tomou em seus braços e em seu peito. A voz do velho agora nada dizia e a moça de vermelho já não mais existia. A moça, o velho e o silêncio tornavam-se uma única e mesma coisa. Tornavam-se sua angústia, como um feto amargo que pedia lugar para existir. Um feto há tempos rejeitado que agora reclamava seu espaç...

A Queda

Naquele dia, acordou com o mesmo sonho, a mesma floresta, a mesma escuridão. Nada temia, enquanto tateava pelas árvores e sempre chegava onde queria estar, como se a própria natureza falasse com ele com intimidade, como se houvesse uma união perfeita entre ambos. Neste sonho, ao ar livre, durante o dia, desnudava-se e corria saltando galhos e rochas, esbaldando-se em pequenos riachos e sentindo no corpo o que na alma há muito estava. E havia uma anciã em seu sonho, com quem vivia, e que o ensinava a misturar ervas e raízes, pequenos frutos e outros elementos para cura dos males daqueles que os procuravam. Ela, a anciã, dizia ser isso um conhecimento antigo, de quando os homens ainda andavam com os deuses e não queriam usurpar o que não lhes pertencia. Enquanto sonhava, ele bebia daquele conhecimento milenar com calma, absorvendo cada palavra e reconhecia-se capaz da plenitude que a anciã lhe confiava. Mas o dia o chamava e despertava, repentinamente, para retomar a vida presente. Pou...

A Serpente

Há tempos, tenho escutado que a realidade ao redor de cada ser humano é reflexo do mundo interior de cada um, que cada ocorrência é uma conexão do inconsciente que se externaliza para que algo venha à consciência. Há tempos, também tenho escutado que há seres humanos capazes de modificar a realidade e alterar a ordem das coisas de acordo com a vontade. Humanos pouco conhecidos, que vivem suas vidas comuns, em meio a nós, sem realizar qualquer alarde. Há um propósito nesse silêncio em que vivem, onde simplicidade não significa penúria e humildade não significa humilhação ou ascetismo. O silêncio vem de não se exporem aos que não estão prontos para receber, em saber o que dar e como dar aos que batem pedindo abrigo de conhecimento e acolhimento espiritual. O silêncio que se rompe quando o verdadeiro buscador bate a porta, pronto para receber e se conectar com o Divino de onde tudo provém. Há anos, tenho vivenciado o contato com o Divino através das sincronicidades e dos reencontros q...