Silêncio

Esquece a moça de vermelho, escute a música do silêncio – disse-lhe o velho sentado ao seu lado. Fechou os olhos, permitiu-se parar e apreciar a si mesmo, naquela praça, durante o almoço. Tudo pareceu ficar em um estado de suspensão, enquanto, em seu íntimo, algo acontecia sem que ainda compreendesse.

A imagem da pequena igreja onde passou a adolescência veio-lhe à mente, o pastor falando sobre o céu e o estado de graça: era assim que se sentia, pleno e em estado de graça. Era Ian, a graça e o presente de D’us. Mas a imagem logo sumiu, deixando apenas a sensação leve e o sorriso de gratidão pelo tempo em que lá esteve.

Sentiu sua angústia se aproximar e a abraçou. Ela então o tomou em seus braços e em seu peito. A voz do velho agora nada dizia e a moça de vermelho já não mais existia. A moça, o velho e o silêncio tornavam-se uma única e mesma coisa. Tornavam-se sua angústia, como um feto amargo que pedia lugar para existir. Um feto há tempos rejeitado que agora reclamava seu espaço à vida.

Viu a si mesmo brincando sozinho com seus amigos imaginários, na pequena infância, onde criava histórias sem sentido para vida que conseguia ter. As histórias que contava e os mundos que visitava. Aquela solidão companheira, onde tinha apenas a si mesmo e o que criava com sua graça. Onde conversava com flores e animais que sempre respondiam, onde viajava por espaços e universos onde sempre pertencia. E então riu de si mesmo e do tempo em que o único que tinha era sua própria companhia.

Tudo parecia sincronizar em seu interior, naquele momento. Sua angústia, companheira, o abraçou forte e pelo seu rosto algumas lágrimas se permitiram surgir. Ian sentia. E era como se, finalmente, pudesse sentir. Sentia a suspensão do momento, parado no tempo, e o estado de graça de sua própria solidão. Tudo fazia sentido, agora.

Ele abriu os olhos, o sol continuava forte e a praça estava do mesmo jeito, com todos que comiam e celebravam a primavera. O velho e a moça não mais estavam ali, nunca estiveram. Ele se levantou, sorriu de forma tímida e voltou para o trabalho, lembrando-se do rapaz que o ajudara no dia anterior.

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Elton Francisco – Cruz Alta-RS – Out-08, 2020 – 11:30 AM

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