A Queda
Naquele dia, acordou com o mesmo sonho, a mesma floresta, a mesma escuridão. Nada temia, enquanto tateava pelas árvores e sempre chegava onde queria estar, como se a própria natureza falasse com ele com intimidade, como se houvesse uma união perfeita entre ambos. Neste sonho, ao ar livre, durante o dia, desnudava-se e corria saltando galhos e rochas, esbaldando-se em pequenos riachos e sentindo no corpo o que na alma há muito estava. E havia uma anciã em seu sonho, com quem vivia, e que o ensinava a misturar ervas e raízes, pequenos frutos e outros elementos para cura dos males daqueles que os procuravam. Ela, a anciã, dizia ser isso um conhecimento antigo, de quando os homens ainda andavam com os deuses e não queriam usurpar o que não lhes pertencia. Enquanto sonhava, ele bebia daquele conhecimento milenar com calma, absorvendo cada palavra e reconhecia-se capaz da plenitude que a anciã lhe confiava. Mas o dia o chamava e despertava, repentinamente, para retomar a vida presente.
Pouco entendia de seus sonhos e daquela
anciã que lhe parecia tão familiar. Pouco entendia do que sentia e com ninguém se abria sobre o que possuía. Sentia-se cada vez mais
solitário e nada o preenchia, era um vazio nostálgico, que lhe habitava o âmago
e o entristecia cada vez mais.
Desceu para ir ao trabalho. O dia, como sempre, seria intenso
e haveria pouco tempo para pensar sobre o sonho. Temia ser louco e novamente
condenado aos psiquiatras que nada faziam, então ficava em silêncio
e a ninguém confiava seus anseios.
No caminho, lembrou-se da viagem que fizera com amigos no
ano anterior, quando se viu sozinho em uma floresta e começou a caminhar sem
rumo certo. Lembrou-se de quando se achou perdido em um lugar fechado sem saber
como voltar. Lembrou-se, agora, de como se viu rodeado de serpentes e não teve
medo. Simplesmente, as olhou com familiaridade e confiou. De repente, elas
foram rastejando mato adentro e ele passou a segui-las sem titubear: retornou
ao grupo de amigos, após um tempo, e entendeu que as serpentes o guiaram para
que estivesse em segurança. Seus amigos não viram as cobras e ele, tampouco,
lhes falou delas. Foi um episódio inusitado que guardou para si mesmo, e agora
se questionava porque se lembrou dessas cobras que o ajudaram sem que houvesse
qualquer ameaça mútua.
Ele sempre ansiava por respostas que não encontrava e seu
vazio se intensificava cada vez mais. Seus dias tornavam-se duros, seu trabalho
o exauría, os poucos amigos não o entendiam. Qualquer conexão afetiva para intimidade
era raridade, sentia-se condenado àquela solidão estrutural, ao vazio sem
respostas e à vida sem sentido com sonhos estranhos e cobras guias.
Parou a digressão e voltou ao trabalho, havia uma hora ou
duas até que finalizasse o expediente e deveria comprar mantimentos antes de
chegar em casa. Mas, sua mente estava na anciã do sonho, nas cobras da floresta
e no vazio que sentia. Calou-se internamente e finalizou o trabalho. Sua angústia, naquele dia, estava diferente. Sua mente divagava por
lugares diferentes, como se algo pudesse acontecer.
Ao sair do trabalho, distraído, tropeçou e caiu na calçada escorregadia pela chuva. Constrangido, ergueu-se com
dificuldade. Um rapaz que passava ao seu lado lhe perguntou se estava bem. Sem
levantar a cabeça, reconheceu uma familiaridade na voz daquele desconhecido e,
então, lembrou-se do sonho e das serpentes.
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Elton Francisco – Cruz Alta-RS – Out-07-2020 – 3h58 PM
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