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Mostrando postagens de 2008

Para pensar...

Homens agindo como mulheres. Homens querendo estar com outros, tocando-se uns aos outros. Estes pervertidos roçando-se uns nos outros. Tocando-se uns aos outros. Mãos másculas... tocando os cachos de cabelos balançantes. Um cigarro ocasional após o barbear. As graves vozes de barítonos... suspirando, sussurrando... Eles se abraçam com fortes braços masculinos, abraçam outros. Apertados.

A feia

Há tempos não se via no espelho. Não se sabia gorda ou magra, alta ou baixa. Por não se enxergar, esquecia-se de si mesma e do mundo: e essa era a grande paz de seu espírito! Sentia-se suficiente em si, não se relacionava com os outros e, por isso, experimentava a solidão singularmente. Era calada. Se lhe falavam, respondia através de monossílabos; se não, permanecia por dias trancada em seu mutismo, com nada a se envolver ao seu redor. Essa era a sua paz que a invadia e a desnudava por se acreditar cega. Fizeram-na acreditar, por insistência, que recobraria a consciência de si mesma ao enxergar. Com a luz a lhe invadir novamente a retina, poderia mudar o seu destino. Aceitou para que lhe permitissem o seu silêncio, enquanto esperava. Quase muda, tomou óculos de avançado grau para que enxergasse como uma garota de sua idade. Não compreendia a necessidade de ser apenas mais uma garota, mas assim se deixou conduzir. E foi então que se descobriu feia. Reconheceu-se magricela, branca como ...

Delivery

Sabia que em alguns minutos seria o fim. Aquele incômodo seria finito e se sentiria leve e em maior paz. Fechou os olhos e as lágrimas caíram livremente. Um pequeno soluço e a certeza de que tudo estaria bem. Resignado deixou-se conduzir. Nu sobre a mesa fria o pulsar tomava fôlego e outras mãos seguravam as suas. Outras mãos tiravam-lhe o sono, as veias, o soro e algo para que não sentisse tanta dor. Estava sóbrio. Sóbrio e lúcido como antes. Sóbrio e cheio de uma esperança viva de que em alguns minutos seria o fim. Talvez não mentisse mais. Não diria a si mesmo que nunca aconteceu. Não diria de problemas desnudos, criados em sua imaginação quando negava sua intenção. Quando dizia que era farsa a realidade que sempre teve, o sentimento que sempre teve e a vontade que sempre negou. Lembrou-se da primeira vez. Lembrou-se de quando se concebeu. Do coito e sua entrega plena àquele que o tirou das trevas do medo. Das trevas da dúvida do que era e sempre foi. Suas comparações esdrúxulas che...

Fluir

Ela fechou os olhos lentamente e deixou-se sangrar. Cerrou-se internamente para que o sangue fluísse de si. Cada gota a se esvaír de seu interior como uma lembrança que ia e vinha. Como uma vida que suspirava e transpirava em si. Ela suavemente se permitia, se conduzia enquanto o sangue vertia de si. Sentia o cheiro de Anne. O doce sabor da juventude de Anne ainda corria em suas veias. Anne, que em delírios tomava seu amor para que se sentisse viva e feliz. Era Anne que saía de suas entranhas enquanto sonhava ali, perdida em um passado que não sabia esquecer. Anne e Su. Su e Anne. Como se tolerou enganar-se tanto tempo. Como pudera amar tão profundamente aquela que profanava sua mãe. Su. Lágrimas correram livre por seu rosto. Lágrimas que cortavam e dividiam sua angústia. Onde estava? Onde se poderia perder senão em si mesma? Fugitiva. Distante por não aceitar quem era. E era como Anne. Jovem como Anne. Tão livre e jovem que ali sentia a vida pela primeira vez. Olhou novamente seu vent...

O cachecol

Eu nunca havia conhecido uma ex-puta.   Não sabia ao certo se elas existiam, ou se eram apenas menções honrosas usadas em ofensas às mães. E conheci Cleuza. Conheci Cleuza sem saber quem era. Morava nas vizinhanças do bairro. Sempre a via recatada, calada. Tinha um ar quase triste, quase discreto. Era uma pessoa quase comum. Sempre quase. Morava com seu marido, Nélio, e seu pequeno cão, cujo nome me olvidei. Sempre me esqueço do nome das coisas. Das pessoas. Mas era Cleuza mesmo seu nome. Seu nome de casada, de puta. Ela tinha um olhar sereno e falava de suas bromélias, enquanto costurava. Ela fazia receitas de milho como ninguém, cuidava dos filhos das vizinhas e quase não saía de casa durante o dia. Cleuza era assim mesmo: boa vizinha, boa costureira e uma boa mão para pamonha. Um dia, em uma festa de família, passei a observar Cleuza. Foi então que percebi o quanto se continha no papel que vivia. Ela escondia seus olhares de soslaio aos solteiros e discretamente media os c...

Salomão Negão

"Seu nome era Salomão. Não como aquele do livro sagrado, que tinha como pressuposto uma sabedoria divina. Era Salomão na simplicidade. Na ignorância. Salomão negão. Era quase um trocadilho. Era quase uma realidade que se expressa em seus gestos toscos da periferia que habitava.   Eu o reconheci na piscina como alguém da região. Ele andava tranqüilamente pelo local, exibindo-se como uma pequena mercadoria que tinha entre as pernas mais que uma ferramenta de trabalho. Era negro. Tão alto quanto rebelde. Tão quente quando o calor da piscina e os gestos obscenos que fazia para atrair a freguesia.   Ele me olhou profundamente e sorriu como animal. Ele demonstrava um cio em que me reconhecia. Ele sabia de meus desejos e, fortunadamente, envolvia-me em uma crosta de lascívia que tanto me excitava. Salomão. Salomão negão. Alto e quente. Magro e feio como são os que habitam o longínquo leste da cidade.   O SESC estava inabitado quando finalmente me aproximei. Ele so...

A Dança do Fogo

Meus armários foram abertos. Joguei fora tudo o que não mais usaria. Joguei fora tudo o que me faria recordar a fraqueza e a dor. Perdi com isso, mas aprendi. Ontem estava solitário e contratei uma puta para massagear minhas costas. Ela me ofendeu, mas eu não me defendi. Senti-me irracional e sujo, como se isso fosse possível. Descobri que ela tinha apenas isso a oferecer: uma cantada barata e um pouco mais que mãos para massagear minhas costas. Ela não era sadia e tampouco merecia meu respeito. A bandida merecia a morte e assim será feito. A bandida merecia com que os céus a cegasse, mas não desejo essa benção ao seu espírito. Rezarei para que tenha um dia um encontro com a luz, assim saberá o mal que fez. Colhi de meu jardim o amargo de suas palavras, mas aprendi com elas. Hoje estou forte, aprendi a rir e coloquei uma fita no pescoço. Talvez isso simbolize a morte da puta. Talvez seja apenas uma fita que sobrou do incêndio de minha casa. Coloquei fogo na casa. Incendiei tudo o que n...

Garotos

A noite ainda tem seus doces mistérios, deixo meus pensamentos vagarem perdidamente enquanto observo atentamente os sabores que invadem a minha mente...   Seres vis e grotescos habitam as tumbas mais escuras nas ruas desertas, vejo os seus desejos emanarem e me perseguirem em silêncio, conheço as suas vidas, compartilho das insinuações e cultuo a malícia que sai de seus espíritos...   Ainda exibem uma postura falsa, mentem com jogos e fingem com garotas são apenas garotos levados, são apenas aqueles que curtem a solidão e o prazer básico da sodomia viril...   Sentem dores de parto, mostram uma beleza que me seduz, entregam-se por nada e depois partem com lágrimas nos olhos... Ainda desconhecem o amor, Ainda procuram por uma vida que nunca encontrarão... São meninos, Garotos levados que tem sua força expressa no sexo e seus sonhos levados pelo vento!   Sonham com meu corpo e o desejam no frenesi em segredo, Procuram-me em sonhos e torn...

Partida

O final é inevitável. Lentamente, assisto Elizabeth se esvair pelos meus dedos e sinto que em breve não verei mais luz em seus olhos. Docemente ela me diz algumas palavras e confessa em um ato sagrado suas transgressões mais sublimes. Sorri. Não vejo tristeza ou dor em seu rosto. Não sinto que há culpa ou qualquer outra emoção de repressão. Ela, envolta em sua liberdade, se vai com ares da rainha que sempre foi. Um júbilo invade meu peito e canto em silêncio. Talvez tenha me deixado contaminar por sua liberdade, por sua crença na urgência da vida. Não sei ao certo como definir essa sensação em meu peito. Elizabeth constantemente se soltava e se deixava conduzir ao sabor de seus desejos. Rompantes de uma alma jovial! Ela, e só ela, transpassava qualquer obstáculo para satisfazer o pedido de sua alma. Agora ela fecha os olhos e pende a cabeça ao lado. Como se adormecesse em mim para não ver a lágrima que me corta a face. Ela se foi, digo a mim mesmo. Elisabeth se foi. E. ...

Meu cão

  Está tarde e eu preciso soltar o meu cão. Meu cão misógino e uranista, meu cão. O cão que late na noite fria e escura. O cão que não enxerga e nem pertence ao beco escuro. Preciso soltar o meu cão que ladra, preciso soltar o meu cão. A noite está absorvendo o meu pensamento e fazendo-me sonhar, irracionalmente. Está tarde, já disse, preciso apagar todas as luzes e repousar o meu corpo. Vou perseguir um gato. O gato. Vou soltar o meu cão, e buscar a resposta que quero. Está tarde, agora, preciso soltar o meu cão.   Lucas D'Antonio, 09/julho/1997

Corre

Não posso impedir que os bandidos toquem em sua pele e tampouco posso apagar sua lágrima quando não verdadeira ao chorar. Não, eu não tenho esse direito. Todos dormem durante a noite em que procuro essa nova geração de ursos que invadem minhas ruas, todos dormem enquanto profano esses túmulos sagrados e arranco da morte o direito de escolha... todos dormem! E não posso impedir que você seja apenas mais um que dorme ou habita as ruas hibernando sua índole... Não posso impedir que escolha ser mártir e queime-se a si mesmo na fogueira que criou com mentiras e incestos. Não, eu não tenho esse direito. Não posso condenar sua mãe por amá-lo mais que a si mesma, não posso condenar seu pai por não enxergar a verdade através do vidro que existe em seu peito, não posso matar seu irmão que faz de seu corpo o depósito de seu prazer. Não, eu não tenho esse direito. Cai a noite e nem velas e candelabros afastam a escuridão das ruas, onde brincam meninos nus que carregam brasas em seus corpos, por ...

Parte

Não me lembro de quando deixei de fazer parte. Talvez me faltem as datas e as ocorrências, mas, sobretudo, falta-me o entendimento para saber que estou "de fora". É estranho: todos param e se envolvem em cumprimentos singelos, com beijos no rosto e abraços sentidos como se fossem uma própria família de que não posso mais pertencer.   Eles se encorajam e freqüentam a escola que podem, falam de suas dores e dissidências e atribuem ao acaso a ausência que possuem. São tolos e felizes, vazios e sem as nuances dos que pertencem à alta classe. Invejo-os por não fazer parte. Invejo-os porque não recebo seus beijos e tampouco sei do que sentem sozinhos. Invejo-os porque me cumprimentam formalmente e atribuem à sorte a sorte que tive de sair. É cedo e ainda não sei por onde andei.   Ao chegar a minha casa percebo uma certeza suave que entra pela porta junto à solidão do outono. Há um vento doce que vem do norte e traz em si a mácula da nova vida que tenho. Uma nova vida e um nov...

A despedida do peixe

Há uma pequena abertura no aquário da sala, por onde fugiu meu peixe. Embora ele fosse eminentemente cinza, seu dourado se destacava entre os móveis e a porcelana branca do armário.   Ao perceber sua ausência, tive um pequeno aperto no peito. Ele partiu. Agora minha casa está vazia, a velha cadeira de balanço onde ficava por oras a admirá-lo parece sem sentido e necessidade. Falta o cinza do peixe, o seu dourado e a certeza de que toda manhã se renovaria. Não amanheceu essa noite. Não houve uma renovação de atmosfera e as flores que ontem estavam a enfeitar minhas roupas murcharam pela ausência da luz do peixe. É como se o aperto de meu peito parasse, quando ele estivesse em mim. É como se minha vida fosse poupada, tivesse uma razão de ser ao alimentá-lo todos os dias. Abro a geladeira e não sinto a fome me visitar. Tudo gira, não reconheço minha imagem e aos poucos me desconcerto em mim. Como aquela música. Como aquela diferença entre tudo o que era comum. Meu peixe fugiu. Par...

A Bela e a Rosa

As tardes do centro sempre são povoadas por seres retumbantes de luz. Brilhos e paetês cobrem as belas que se mostram ao crepúsculo, ávidas por serem admiradas e, ao mesmo tempo, tomadas pelos seres que as admiram. São as belas do centro: as bacantes. Usam grandes sapatos com saltos, vestidos curtos e coloridos com pequenos truques que escondem o que carregam no íntimo.   Ontem, pela avenida principal, uma das belas caminhava impávida, olhando intensamente para seu reflexo no pequeno espelho, como se em cada rosto que encontrasse pela rua o avistasse fulgurante. Suas curvas finas se contrastavam com o frio das ruas, por onde seus pensamentos tomavam as formas místicas de seu desejo interior. Usava óculos grandes, unhas imensas e bem pintadas, dedos cobertos de anéis e outras jóias dignas de sua classe.   Mesmo quando tropeçava nos paralelepípedos, mantinha sua pose altiva, capaz de conduzir o último dos distraídos a um banquete real... Tivesse asas e voaria como Ícaro, a...

O nada

  Há um silêncio negro que me corta o corpo de maneira que eu perceba o quanto estou só. Não uma solidão apenas física, ilustrada por meu quarto vazio e sem camas, mas uma dor intensa, moral, que me retira qualquer alegria que possa existir. Uma solidão sem vontade, onde o desejo se esvai e a única atração que tenho é de calar-me nesse escuro e permanecer inerte como se fosse partir da vida.   Já não me recordo do riso que possa ter tido, assim como também não sei de efêmeros sonhos que tenham se passado. Nada me seduz e o que faço é comer, num prazer oral desmedido, para que assim o tempo se vá rapidamente. E assim aumentei dez quilos como resposta de meu corpo.   Estou saturado de filosofia e toda administração científica me causa pesadelos diuturnos. O tédio se instaura, como órfão permanente, e não sei mais o que posso fazer para me livrar das companhias que se aproximam sem me tirar o sentimento de solidão. Há uma necessidade desse silêncio negro, ainda que ...

Missa

Os olhos estavam carregados de morte, sabia que cedo ou tarde se perderia no lodo e barro... Sentia a vida abaixo da batina, a castidade o castigava como feitor ao escravo, Sua sede de sangue só seria saciada se afiasse as garras e desnudasse todos os santos...   O corpo em luto se confrontava com o inimigo, Seres vis e grotescos habitavam seus pensamentos bajulando-o de tal maneira que Proteus, o deus das trevas, o abraçava em segredo! Sua lascívia o arrebatava em devaneio e, no meio a missa, ofereceu o sêmen como hóstia e seu desejo como vinho.   Seus olhos não viam as crianças gritando de fome e tampouco as mães que se prostituíam. Em sua face a piedade tornara-se   tirania e   vingança contra todas as falanges angelicais. O altar estava plúmbeo como suas meninas sedentas que procuravam presas pelo recinto, Talvez delirasse, talvez se ocultasse de si próprio... mas vivia, ainda!   Precisaria de um novo corpo após a missa e de um novo reg...

Simples demais

Tudo começa pelo olhar. Ela usa um tênis velho, uma camiseta surrada e uma saia feita de barra de calça de veludo da tia. Não sei exatamente que tipo de veludo ou de gosto ela tem, mas interpreto no olhar que é apenas um contato. Ela diz sobre a combinação de chocolate e canela que irá desfrutar no intervalo e eu digo que prefiro morango com sorvete ou iogurte natural. E tudo é muito natural: o olhar, o tênis e o jeito como eu olho quando ela não está olhando. Acredito que existe algo além do contato.   Também lhe contei sobre meu besouro de estimação. Ela riu sem graça e disse ter um gato, pois isso é mais comum. Eu a acho comum. Incrivelmente comum e adorável. Às vezes me pergunto o que fui fazer na USP senão encontrá-la. Ela não sabe. O que sabe é que há muitos ao seu redor e qualquer um pode ser escolhido, qualquer outro, qualquer que seja simplesmente comum...   Ela cantarola algo e brinca com os cachinhos do cabelo enquanto espera seu chocolate com c...