Wednesday, December 31, 2008

Para pensar...

Homens agindo como mulheres.

Homens querendo estar com outros, tocando-se uns aos outros.

Estes pervertidos roçando-se uns nos outros. Tocando-se uns aos outros.

Mãos másculas... tocando os cachos de cabelos balançantes.

Um cigarro ocasional após o barbear.

As graves vozes de barítonos... suspirando, sussurrando...

Eles se abraçam com fortes braços masculinos, abraçam outros.

Apertados.

Tuesday, December 02, 2008

A feia

Há tempos não se via no espelho. Não se sabia gorda ou magra, alta ou baixa. Por não se enxergar, esquecia-se de si mesma e do mundo: e essa era a grande paz de seu espírito! Sentia-se suficiente em si, não se relacionava com os outros e, por isso, experimentava a solidão singularmente. Era calada. Se lhe falavam, respondia através de monossílabos; se não, permanecia por dias trancada em seu mutismo, com nada a se envolver ao seu redor. Essa era a sua paz que a invadia e a desnudava por se acreditar cega.

Fizeram-na acreditar, por insistência, que recobraria a consciência de si mesma ao enxergar. Com a luz a lhe invadir novamente a retina, poderia mudar o seu destino. Aceitou para que lhe permitissem o seu silêncio, enquanto esperava. Quase muda, tomou óculos de avançado grau para que enxergasse como uma garota de sua idade. Não compreendia a necessidade de ser apenas mais uma garota, mas assim se deixou conduzir.

E foi então que se descobriu feia. Reconheceu-se magricela, branca como cera e com a boca torta – entendeu que por isso quase não se comunicava. Tinha orelhas grandes, braços exageradamente compridos e muitas sardas por todo rosto. Riu timidamente para o espelho e limitou-se a reproduzir em um som quase inaudível seu próprio nome: Eveline! Gostou do que ouviu. Repetiu novamente como se somente agora se encontrasse e se admirasse com seus próprios olhos: eram tristes, longínquos, como se possuíssem o segredo da paz que emanava por todo seu ser. Amou-se intensamente nesse momento, percebeu o sentido que existia em seu espírito e compreendeu o significado de sua feiúra, pois era livre.

Em sua liberdade, o mundo lhe pareceu mais ausente por não entender sua diferença. Assim, passou a permanecer horas na janela de seu quarto, de onde se encantava com as cores e os cheiros de Ipanema, os burburinhos das pessoas e, principalmente, da vida comum que tinham. Alegrava-se em vê-las em suas próprias atitudes, em suas próprias vidas. Ria por sentir-se alheia e como em um canto sacro, sua alma exultava a cada pequenino ao longe na praia. Sentia-se ainda mais feia e amada por si. Sentia-se ainda mais presa ao seu silêncio, e era nessa prisão que tinha uma experiência única ao som de sua própria humanidade: sozinha, absoluta e perdidamente feliz.

Retornou ao colégio para concluir o ano letivo. Durante sua cegueira, a tranqüilidade repousava na ignorância de si mesma; mas, agora, ela era absoluta em sua feiúra: as pessoas se afastavam e comentavam em cochichos, sentavam-se longe e não a cumprimentavam. Eveline tinha prazer nesse distanciamento e sentia profundamente por nunca poder lhes ofertar o seu amor ou a luz de seu espírito. Nunca a conheceriam e isso só aumentava o abismo entre ela e o mundo...

Um dia, em seu quarto, chorou pela primeira vez. Assistia ao pôr-do-sol de sua janela e o mar lhe pareceu sublime. Ouviu um canto celeste que, retumbante, invadia todo seu ser. Sentiu-se leve e uma felicidade tomou-lhe o âmago com tal furor que arrancou de si o que lhe restava de humanidade. Virou-se ao espelho e, translúcida, despediu-se pela derradeira vez de seu corpo esquálido e sua boca torta para voar pela janela de seu quarto em direção a luz que a chamava. Abriu suas asas, soltou seu canto e se despediu do mundo, que nunca lhe pareceu tão distante. No horizonte, apenas se ouviu clamar Eveline!

Sunday, November 23, 2008

Delivery

Sabia que em alguns minutos seria o fim. Aquele incômodo seria finito e se sentiria leve e em maior paz. Fechou os olhos e as lágrimas caíram livremente. Um pequeno soluço e a certeza de que tudo estaria bem. Resignado deixou-se conduzir. Nu sobre a mesa fria o pulsar tomava fôlego e outras mãos seguravam as suas. Outras mãos tiravam-lhe o sono, as veias, o soro e algo para que não sentisse tanta dor. Estava sóbrio. Sóbrio e lúcido como antes. Sóbrio e cheio de uma esperança viva de que em alguns minutos seria o fim.

Talvez não mentisse mais. Não diria a si mesmo que nunca aconteceu. Não diria de problemas desnudos, criados em sua imaginação quando negava sua intenção. Quando dizia que era farsa a realidade que sempre teve, o sentimento que sempre teve e a vontade que sempre negou. Lembrou-se da primeira vez. Lembrou-se de quando se concebeu. Do coito e sua entrega plena àquele que o tirou das trevas do medo. Das trevas da dúvida do que era e sempre foi.

Suas comparações esdrúxulas chegariam ao fim: nove meses. Nove meses em que acomodou em seu interior aquele fruto da entrega. O fruto da sua auto-descoberta sob as estrelas no rio. Sob a lua minguante, o som das águas e o cigarro apagado em um vinho qualquer. E ainda lembrava-se dele, daquele. Daquele que o conhecendo o fez homem. O fez livre para vivenciar sua natureza sem que fugisse do que tinha. Sem que se afastasse das libélulas que incendiavam suas camas e saciavam seus hormônios. Ele e aquele que juntos faziam par às tantas outras que habitavam o vazio. O vazio onde ficam todas que não compreendem a natureza deles. Deles que quando juntos se tornavam apenas um.

E o fruto deles pairava ali, sob a luz e os cateteres. Agulhas e ansiedades para o milagre do nascimento. Da descoberta. Do reencontro. Ele viria ao seu encontro. Seguraria sua mão o tempo todo. Soltaria um riso tímido, um riso pleno, um riso vivo. Ambos partilhavam do segredo. Partilhavam da descoberta. Do reencontro. Do milagre. Sabiam dos problemas desnudos e da farsa superada. Das mentiras de negativas de nunca mais. Das idas e vindas de nunca mais. Da vontade de verdade de nunca mais. E ansioso ele esperava. Segurava a respiração sob o bip das máquinas. Das agulhas. Das máscaras de tantos que ali estavam.

Ele chegava. Eis que algo vem e suas mãos se seguram fortes. Tão fortes como quando se conheceram. Como quando se afastaram e voltaram. Como quando se aproximaram para que ambos resistissem. Ao pecado. Ao desejo. Ao proibido do prazer. Mas é algo que vem e sentem o alívio advento do incomodo. Aos poucos a forma se vai e novamente se olham. Se beijam e saúdam o choro que se espalha por todo o lado. Ele está ali.

Emocionados se abraçam com os olhos em silêncio. Em reverência se abaixam ao que nasce e percebem a vida que criaram. Ele e aquele. Juntos. Em um e com um.



E.
Nov., 23 – 1:56 AM

Sunday, November 16, 2008

Fluir

Ela fechou os olhos lentamente e deixou-se sangrar. Cerrou-se internamente para que o sangue fluísse de si. Cada gota a se esvaír de seu interior como uma lembrança que ia e vinha. Como uma vida que suspirava e transpirava em si. Ela suavemente se permitia, se conduzia enquanto o sangue vertia de si.

Sentia o cheiro de Anne. O doce sabor da juventude de Anne ainda corria em suas veias. Anne, que em delírios tomava seu amor para que se sentisse viva e feliz. Era Anne que saía de suas entranhas enquanto sonhava ali, perdida em um passado que não sabia esquecer.

Anne e Su. Su e Anne. Como se tolerou enganar-se tanto tempo. Como pudera amar tão profundamente aquela que profanava sua mãe. Su. Lágrimas correram livre por seu rosto. Lágrimas que cortavam e dividiam sua angústia. Onde estava? Onde se poderia perder senão em si mesma? Fugitiva. Distante por não aceitar quem era. E era como Anne. Jovem como Anne. Tão livre e jovem que ali sentia a vida pela primeira vez.

Olhou novamente seu ventre. Suas coxas vermelhas pela rabeca: sorriu. Entre lágrimas se viu no incêndio. A veneziana quebrada por onde sua mãe se retirou. Ele, o padrasto, a ameaçá-la entre gritos. Ele, que não compreendia o amor de Anne e Su. Que não se entregaria a perda. A perda de Su, a mãe, para Anne, a amante.

De repente notou-se nua. Olhou o chão e viu sua imagem refletida no fluxo quente de si. Riu. Era mulher. Tornava-se mulher aos doze anos. Juntou seus cabelos em um pequeno gesto. Apanhou de papel e limpou-se devagar. Era preciso continuar. Era preciso sair e celebrar a juventude. A juventude que Su tomava de Anne. A juventude que ela mesma possuía de Anne. A juventude dos doze anos e de seu primeiro catamênio.

Eram felizes juntas. Cozinhavam tacos e iam a saraus. Diziam sobre a vida aos 30, mas Su não tinha 30. Anne era 20 e ela doze. Sim, apenas doze. Doze sozinha no vestiário feminino. Aos doze, com a lembrança de Anne e Su juntas, rindo ao vento na praia. No churrasco de natal e nos brinquedos do parque.

Refez-se e parou para lavar as mãos. Refez-se em uma nova maquiagem, clara, bela para uma jovem de 20. Desejou ter 20 anos. Desejou ser Su, a mãe. Desejou ser Anne, a amante. Mas era apenas ela. Repetiu que era apenas si mesma. Que era jovem e lúdica. Que tinha desejos infantis. Que tinha cheiro infantil. Repetiu uma vez mais e quis acreditar nisso. Repetiu, saiu célere e perdeu-se entre as pessoas no shopping.

Friday, July 04, 2008

O cachecol

Eu nunca havia conhecido uma ex-puta.  Não sabia ao certo se elas existiam, ou se eram apenas menções honrosas usadas em ofensas às mães. E conheci Cleuza. Conheci Cleuza sem saber quem era.

Morava nas vizinhanças do bairro. Sempre a via recatada, calada. Tinha um ar quase triste, quase discreto. Era uma pessoa quase comum. Sempre quase. Morava com seu marido, Nélio, e seu pequeno cão, cujo nome me olvidei. Sempre me esqueço do nome das coisas. Das pessoas. Mas era Cleuza mesmo seu nome. Seu nome de casada, de puta.

Ela tinha um olhar sereno e falava de suas bromélias, enquanto costurava. Ela fazia receitas de milho como ninguém, cuidava dos filhos das vizinhas e quase não saía de casa durante o dia. Cleuza era assim mesmo: boa vizinha, boa costureira e uma boa mão para pamonha.

Um dia, em uma festa de família, passei a observar Cleuza. Foi então que percebi o quanto se continha no papel que vivia. Ela escondia seus olhares de soslaio aos solteiros e discretamente media os casados. Tempos depois eu percebi que era algo mais em sua essência, algo que ela mesmo desconhecia e sabia: era puta.

Como na ativa, havia o mesmo desejo, a mesma intenção ainda que escondida nas pamonhas que fazia com esmero, com carinho, com medidas milimétricas na palha que dobrava antes de encher com o caldo de milho ralado. Como no jeito fraternal com que cuidava das crianças e brincava com seu cão. Como nos longos vestidos que escondiam seu corpo e a maquiagem discreta que raramente usava ao ir a missa.

Aos poucos passei a vigiá-la. A observá-la enquanto lavava a calçada, varria a varanda e limpava as crianças após brincarem com barro. Aproximei-me e passei aos poucos a freqüentar sua casa, sua rotina, seu cotidiano. Tornei-me amigo de seu Nélio e aprendi com ela algumas receitas de milho. Alguns cuidados com as bromélias. Algumas dicas de costura.

Não precisei que me dissesse de seu passado. Na intimidade, seu gesto lhe denunciava o íntimo. Sua mão bem cuidada e as ervas com que temperava. Seu sorriso contido, quando a gargalhada lhe vinha à garganta... ela se continha para não demonstrar quem fora, quem era e sempre foi! Cleuza, Cleuza...

Quando meu irmão fez anos ela deu-lhe em bom presente. Um cachecol feito à mão, de tricô seco e marrom. Meu irmão ergueu-o como troféu e mamãe se preocupou. Era um cachecol caro, raro, sensual. Era um cachecol fino e antigo. Meu irmão agradeceu e saiu para brincar com os amigos, celebrando seus treze anos bem vividos... foi então que percebi! Era esse seu segredo. Era esse seu destino: ela cuidava dos meninos. Ela cuidava de quem era em essência e assim nunca deixou de ser.

Temi por descobrir e me afastei. Temi por ela, por seu Nélio e seu cão. Calei-me e resolvi apenas cumprimentá-la, de longe, na missa. Ela continuava com seu olhar triste, seu jeito discreto. Mas se alguém se aproximasse, veria em seus olhos uma luz marota, sedenta e com uma paixão que a consumia...

Laura P.

Wednesday, June 25, 2008

Salomão Negão


"Seu nome era Salomão. Não como aquele do livro sagrado, que tinha como pressuposto uma sabedoria divina. Era Salomão na simplicidade. Na ignorância. Salomão negão. Era quase um trocadilho. Era quase uma realidade que se expressa em seus gestos toscos da periferia que habitava.

 

Eu o reconheci na piscina como alguém da região. Ele andava tranqüilamente pelo local, exibindo-se como uma pequena mercadoria que tinha entre as pernas mais que uma ferramenta de trabalho. Era negro. Tão alto quanto rebelde. Tão quente quando o calor da piscina e os gestos obscenos que fazia para atrair a freguesia.

 

Ele me olhou profundamente e sorriu como animal. Ele demonstrava um cio em que me reconhecia. Ele sabia de meus desejos e, fortunadamente, envolvia-me em uma crosta de lascívia que tanto me excitava. Salomão. Salomão negão. Alto e quente. Magro e feio como são os que habitam o longínquo leste da cidade.

 

O SESC estava inabitado quando finalmente me aproximei. Ele sorriu novamente e hesitei em retribuir o gesto repentino com que me tomou. Ele me fez de presa, levou-me a um canto qualquer e copulou-me tão imediatamente quanto possível aos animais no cio. Fez-me de fêmea, de conquista, de utilidade por um momento.

 

Deixei-me conduzir pelo momento. E por outro. E por outros tantos durante os meses que se seguiram. Ele fazia acrobacias e tomava-me com uma violência desejada. Ele penetrava-me com tanta força e maestria que me sentia possuído por seres diferentes a cada vez. Tocava-me e abria-me repetidamente. Cuspia-me e penetrava-me uma vez mais enquanto gritava em um misto de prazer e dor. Salomão. Salomão, negão. Salomão que falava pouco e errado. Que gostava de forró e ritmos próprios dos que freqüentavam lugares ermos para lembrarem as origens.

 

Um dia cansei-me de Salomão. Precisava experimentar outros ritmos e me esquecer de que pertencia àquele mundo. Cansei-me de ser negão. Tão quanto Salomão. Cansei-me do extremo leste, da violência amável com que me possuía. Cansei-me de que éramos e arrisquei por outros caminhos.

 

Ainda sinto por Salomão negão. E sinto ainda mais por sentir que em mim ainda insiste o desejo. O desejo que sou. O desejo que tenho."


Wednesday, June 18, 2008

A Dança do Fogo

Meus armários foram abertos. Joguei fora tudo o que não mais usaria. Joguei fora tudo o que me faria recordar a fraqueza e a dor. Perdi com isso, mas aprendi.

Ontem estava solitário e contratei uma puta para massagear minhas costas. Ela me ofendeu, mas eu não me defendi. Senti-me irracional e sujo, como se isso fosse possível.

Descobri que ela tinha apenas isso a oferecer: uma cantada barata e um pouco mais que mãos para massagear minhas costas. Ela não era sadia e tampouco merecia meu respeito.

A bandida merecia a morte e assim será feito. A bandida merecia com que os céus a cegasse, mas não desejo essa benção ao seu espírito. Rezarei para que tenha um dia um encontro com a luz, assim saberá o mal que fez.

Colhi de meu jardim o amargo de suas palavras, mas aprendi com elas. Hoje estou forte, aprendi a rir e coloquei uma fita no pescoço. Talvez isso simbolize a morte da puta. Talvez seja apenas uma fita que sobrou do incêndio de minha casa.

Coloquei fogo na casa. Incendiei tudo o que não mais usaria de meu armário. Os vizinhos chamaram o síndico enquanto eu dançava em volta da fogueira. O síndico ameaçou chamar os bombeiros. A fumaça infestou todo o andar. Minha dor era queimada e todo o andar sentia o cheiro da carne fresca queimada. A carne da puta. A carne do meu erro e da minha solidão.

A confusão foi instaurada, mas eu me recuperei.

A puta jaz em um saco de lixo cheio de cinzas e meu humor finalmente retornou...

Abraços,

De mim

P.s.: Conseguiram chegar em casa antes do término do incêndio, logo ainda restou algo além das cinzas. Mas a puta foi incendiada e morreu!

Monday, May 19, 2008

Garotos

A noite ainda tem seus doces mistérios, deixo meus pensamentos vagarem perdidamente

enquanto observo atentamente os sabores que invadem a minha mente...

 

Seres vis e grotescos habitam as tumbas mais escuras nas ruas desertas,

vejo os seus desejos emanarem e me perseguirem em silêncio,

conheço as suas vidas,

compartilho das insinuações

e cultuo a malícia que sai de seus espíritos...

 

Ainda exibem uma postura falsa, mentem com jogos e fingem com garotas

são apenas garotos levados,

são apenas aqueles que curtem a solidão e o prazer básico

da sodomia viril...

 

Sentem dores de parto, mostram uma beleza que me seduz, entregam-se por nada

e depois partem com lágrimas nos olhos...

Ainda desconhecem o amor,

Ainda procuram por uma vida que nunca encontrarão...

São meninos,

Garotos levados que tem sua força expressa no sexo

e seus sonhos levados pelo vento!

 

Sonham com meu corpo e o desejam no frenesi em segredo,

Procuram-me em sonhos e torno-me estátua grega,

Felam-me o falo

e alimentam-se do leite de meu corpo.

Amam-me como se eu fosse o deus e os possuísse na força eterna,

Gozam!

Vivem!

 

Ah, meninos, deixem-me ensinar os mistérios do universo

enquanto penetro os seus segredos,

enquanto os amo na noite fria

e os cubro com a luz da lua...

 

A madrugada é bela, os sonhos terminam ao amanhecer,

Farei com que sejam filhos e sintam a proteção do pai,

Que eu seja belo,

Que eu seja pleno,

Que eu seja senhor!

Que eu seja como luz em suas dúvidas da vida...

 

Anjos caídos,

Bandidos varões,

Quero roçar minha língua nas línguas de suas vontades,

e sentir o doce sabor da morte que está envolvendo  sua dor!

 

Meninos,

Partirei,

Acordarão e amanhã continuarão a ser garotos...

 

 

Elton Michael – Março/1996

Sunday, May 11, 2008

Partida

O final é inevitável. Lentamente, assisto Elizabeth se esvair pelos meus dedos e sinto que em breve não verei mais luz em seus olhos. Docemente ela me diz algumas palavras e confessa em um ato sagrado suas transgressões mais sublimes. Sorri. Não vejo tristeza ou dor em seu rosto. Não sinto que há culpa ou qualquer outra emoção de repressão. Ela, envolta em sua liberdade, se vai com ares da rainha que sempre foi.

Um júbilo invade meu peito e canto em silêncio. Talvez tenha me deixado contaminar por sua liberdade, por sua crença na urgência da vida. Não sei ao certo como definir essa sensação em meu peito. Elizabeth constantemente se soltava e se deixava conduzir ao sabor de seus desejos. Rompantes de uma alma jovial! Ela, e só ela, transpassava qualquer obstáculo para satisfazer o pedido de sua alma.

Agora ela fecha os olhos e pende a cabeça ao lado. Como se adormecesse em mim para não ver a lágrima que me corta a face. Ela se foi, digo a mim mesmo. Elisabeth se foi.

E.


Saturday, April 26, 2008

Meu cão

 

Está tarde e eu preciso soltar o meu cão. Meu cão misógino e uranista, meu cão. O cão que late na noite fria e escura. O cão que não enxerga e nem pertence ao beco escuro. Preciso soltar o meu cão que ladra, preciso soltar o meu cão. A noite está absorvendo o meu pensamento e fazendo-me sonhar, irracionalmente. Está tarde, já disse, preciso apagar todas as luzes e repousar o meu corpo. Vou perseguir um gato. O gato. Vou soltar o meu cão, e buscar a resposta que quero. Está tarde, agora, preciso soltar o meu cão.

 

Lucas D'Antonio, 09/julho/1997

Friday, April 25, 2008

Corre

Não posso impedir que os bandidos toquem em sua pele e tampouco posso apagar sua lágrima quando não verdadeira ao chorar. Não, eu não tenho esse direito. Todos dormem durante a noite em que procuro essa nova geração de ursos que invadem minhas ruas, todos dormem enquanto profano esses túmulos sagrados e arranco da morte o direito de escolha... todos dormem! E não posso impedir que você seja apenas mais um que dorme ou habita as ruas hibernando sua índole...

Não posso impedir que escolha ser mártir e queime-se a si mesmo na fogueira que criou com mentiras e incestos. Não, eu não tenho esse direito. Não posso condenar sua mãe por amá-lo mais que a si mesma, não posso condenar seu pai por não enxergar a verdade através do vidro que existe em seu peito, não posso matar seu irmão que faz de seu corpo o depósito de seu prazer. Não, eu não tenho esse direito.

Cai a noite e nem velas e candelabros afastam a escuridão das ruas, onde brincam meninos nus que carregam brasas em seus corpos, por onde passam carros que pagam por míseros segundos ao lado dos falsos demônios que criaram em suas fantasias. Meninos demônios, anjos palhaços que carregam no pescoço o símbolo da inocência perdida, da idade do erro e do pecado.

Corre agora antes que o mundo novamente se acabe em água, lavando seu espírito e tomando o seu último suspiro de vida. Corre e deixe o fogo de seu corpo se apagar com o tempo.... corre, corre, corre....

Laura P.

(Nucis, vot. Vacation)

Wednesday, March 26, 2008

Parte

Não me lembro de quando deixei de fazer parte. Talvez me faltem as datas e as ocorrências, mas, sobretudo, falta-me o entendimento para saber que estou "de fora". É estranho: todos param e se envolvem em cumprimentos singelos, com beijos no rosto e abraços sentidos como se fossem uma própria família de que não posso mais pertencer.

 

Eles se encorajam e freqüentam a escola que podem, falam de suas dores e dissidências e atribuem ao acaso a ausência que possuem. São tolos e felizes, vazios e sem as nuances dos que pertencem à alta classe. Invejo-os por não fazer parte. Invejo-os porque não recebo seus beijos e tampouco sei do que sentem sozinhos. Invejo-os porque me cumprimentam formalmente e atribuem à sorte a sorte que tive de sair. É cedo e ainda não sei por onde andei.

 

Ao chegar a minha casa percebo uma certeza suave que entra pela porta junto à solidão do outono. Há um vento doce que vem do norte e traz em si a mácula da nova vida que tenho. Uma nova vida e um novo sentir. A saudade perde o sentido, de repente, enquanto uma nova canção de James Blunt enche-me a sala. Abro uma garrafa de vinho francês enquanto acompanho a música e sinto-me levemente livre e feliz. Troco por Chopin e há uma nova vontade em mim. A solidão se intensifica e sinta falta dos passeis de Paris, Roma e Barcelona.

 

Ainda vejo o mesmo perfume do navio, a mesma flâmula dos marinheiros que me acompanharam em passeios silenciosos pelo mar e pelas cidades litorâneas. E Chopin domina o ambiente, o vinho faz efeito e já não me importo com os beijos de que não faço parte. Já não me importo por estar de fora e, sonolento, recosto lasso e me deixo envolver pela distância.

 

Não faço parte de lá, mas aqui me sinto livre.

Sunday, February 10, 2008

A despedida do peixe

Há uma pequena abertura no aquário da sala, por onde fugiu meu peixe. Embora ele fosse eminentemente cinza, seu dourado se destacava entre os móveis e a porcelana branca do armário.  Ao perceber sua ausência, tive um pequeno aperto no peito. Ele partiu. Agora minha casa está vazia, a velha cadeira de balanço onde ficava por oras a admirá-lo parece sem sentido e necessidade. Falta o cinza do peixe, o seu dourado e a certeza de que toda manhã se renovaria.

Não amanheceu essa noite. Não houve uma renovação de atmosfera e as flores que ontem estavam a enfeitar minhas roupas murcharam pela ausência da luz do peixe. É como se o aperto de meu peito parasse, quando ele estivesse em mim. É como se minha vida fosse poupada, tivesse uma razão de ser ao alimentá-lo todos os dias.

Abro a geladeira e não sinto a fome me visitar. Tudo gira, não reconheço minha imagem e aos poucos me desconcerto em mim. Como aquela música. Como aquela diferença entre tudo o que era comum. Meu peixe fugiu. Parte de mim fugiu. Minha música fugiu. Sua foto no canto da prateleira está distante. A própria vida que tinha, está distante.

Vou tirar as flores do vaso, tirar minha roupa da atmosfera e brindar o branco de minha sala com uma saudade de quando estávamos no Velho Mundo. Grande viagem. Conhecemos Veneza e o Sena sempre pareceu mais belo, quando admirado dos cafés parisienses onde relembrávamos da poesia de Pessoa. Ah, Pessoa... o Tejo e a saudade de sua família!

Antes de ir, ele deixou um bilhete com a última canção que tivemos juntos. Lembrou-se da primeira voz que soltou nosso riso e me emocionou com a caligrafia singela. Ele tinha anseio de novos oceanos e de uma vida fora do aquário. Ele tinha anseio de encontrar a si mesmo em mares de fúria e calmaria, longe da rotina de móveis e porcelanas que tiravam seu dourado pelo cinza.

Acho que consigo entender minha dor e aceitar sua distância: meu peixe era livre, ainda na prisão de cristal. Seu canto aumentava ao sabor de sua consciência de liberdade. Seu canto o fazia ímpar e mesmo os objetos o saudavam a majestade. Era o meu peixe, belo, livre. Hoje, é uma lembrança que me leva às lágrimas na casa vazia...

Saturday, February 02, 2008

A Bela e a Rosa

As tardes do centro sempre são povoadas por seres retumbantes de luz. Brilhos e paetês cobrem as belas que se mostram ao crepúsculo, ávidas por serem admiradas e, ao mesmo tempo, tomadas pelos seres que as admiram. São as belas do centro: as bacantes. Usam grandes sapatos com saltos, vestidos curtos e coloridos com pequenos truques que escondem o que carregam no íntimo.

 

Ontem, pela avenida principal, uma das belas caminhava impávida, olhando intensamente para seu reflexo no pequeno espelho, como se em cada rosto que encontrasse pela rua o avistasse fulgurante. Suas curvas finas se contrastavam com o frio das ruas, por onde seus pensamentos tomavam as formas místicas de seu desejo interior. Usava óculos grandes, unhas imensas e bem pintadas, dedos cobertos de anéis e outras jóias dignas de sua classe.

 

Mesmo quando tropeçava nos paralelepípedos, mantinha sua pose altiva, capaz de conduzir o último dos distraídos a um banquete real... Tivesse asas e voaria como Ícaro, a buscar sua Vênus para saudá-la no Olimpo, todavia, as únicas ferramentas de vôo eram suas costas marcadas do tempo em que desconhecia sua própria natureza. Mas era Bela, sobretudo.

 

Enquanto continuava sua odisséia entre as fumaças de carros e seu dissimulado dissabor por estar sozinha, parou por um instante diante de um edifício, onde a reluzir singela, uma pequena rosa concorria em sua beleza para também ser admirada. Uma única flor, imponente, a brilhar como Fênix entre os lixos citadinos. A Bela e a flor.

 

Uma rainha carmesim que imperava majestosa, não obstante os súditos que compartilhavam das pedras e espinhos do cenário. A Bela, impassível, não viu quando os moradores se aproximaram da sacada: embevecidos a invejar sua ousadia, cobiçavam seus lábios aumentados em pintura e suas sombras brilhantes. Cobiçavam também seus ombros largos e sua voz pastosa, viciada em cigarros baratos dos lugares onde dançava. Almejavam à sua liberdade, como fôlego para vida que não tinham.

 

De repente, a Bela amarra seus cabelos em um rabo e salta o portão. Vai de encontro a rosa e a arrebata, vitoriosa, de meio dos espinhos e pedras do jardim. A dama de vermelho, a pingar ainda o orvalho matutino, une-se à sua dona sob olhares tantos de um protesto mudo de súditos frustrados. A Bela retorna ao portão, solta seus cabelos e neles pousa sua flor.

 

A Bela e a rosa: traziam no âmago a simultaneidade das almas que escondem seu segredo, numa cidade fria, de pessoas frias, numa tarde fria. De vestes curtas no vermelho sangue da rosa e em suas louras mechas, a bela desfilava triunfante, pela cidade de Morpheu... a brilhar e brilhar...  a Bela e a rosa!

 

Bea

Friday, January 11, 2008

O nada

 

Há um silêncio negro que me corta o corpo de maneira que eu perceba o quanto estou só. Não uma solidão apenas física, ilustrada por meu quarto vazio e sem camas, mas uma dor intensa, moral, que me retira qualquer alegria que possa existir. Uma solidão sem vontade, onde o desejo se esvai e a única atração que tenho é de calar-me nesse escuro e permanecer inerte como se fosse partir da vida.

 

Já não me recordo do riso que possa ter tido, assim como também não sei de efêmeros sonhos que tenham se passado. Nada me seduz e o que faço é comer, num prazer oral desmedido, para que assim o tempo se vá rapidamente. E assim aumentei dez quilos como resposta de meu corpo.

 

Estou saturado de filosofia e toda administração científica me causa pesadelos diuturnos. O tédio se instaura, como órfão permanente, e não sei mais o que posso fazer para me livrar das companhias que se aproximam sem me tirar o sentimento de solidão. Há uma necessidade desse silêncio negro, ainda que me machuque e me faça perceber a finitude de meu corpo.

 

 Nada, absolutamente, é o que vejo: o nada toma forma, manifesta-se como os mosquitos verdes que se sentam em minha pele putrefata da ignorância desse lugar enquanto me escondo no fundo de meu abrigo. Tudo me irrita e já não há prazer em caminhar de moto pelas estradas, em alta velocidade, em um desafio à gravidade. O nada permanece, me acompanha, me diz constantemente que sou parte dele e ele parte de mim.

 

Fogem-me as palavras. Fogem-se todas as citações de tudo quanto li, fogem-se meus desejos carnais e mesmo os mais belos mancebos, com falos em riste à flor da idade, me sucumbem para que me sacie em seus corpos. Foge de mim qualquer explicação teórica para o desespero, de forma que eu compreenda sua origem e possa combatê-lo como algo vil. Sinto-me frágil e sem sentido.

 

De nada adianta escrever, pois ainda assim estarei sem sentido. Ficarei, em silêncio, com o tédio e envolvido por meu nada enquanto tento ter um sono para que o tempo passe.

Sunday, January 06, 2008

Missa

Os olhos estavam carregados de morte, sabia que cedo ou tarde se perderia no lodo e barro...

Sentia a vida abaixo da batina, a castidade o castigava como feitor ao escravo,

Sua sede de sangue só seria saciada se afiasse as garras

e desnudasse todos os santos...

 

O corpo em luto se confrontava com o inimigo,

Seres vis e grotescos habitavam seus pensamentos bajulando-o de tal maneira

que Proteus, o deus das trevas, o abraçava em segredo!

Sua lascívia o arrebatava em devaneio e, no meio a missa, ofereceu o sêmen como hóstia

e seu desejo como vinho.

 

Seus olhos não viam as crianças gritando de fome e tampouco as mães que se prostituíam.

Em sua face a piedade tornara-se  tirania e  vingança contra todas as falanges angelicais.

O altar estava plúmbeo como suas meninas sedentas que procuravam presas pelo recinto,

Talvez delirasse, talvez se ocultasse de si próprio... mas vivia, ainda!

 

Precisaria de um novo corpo após a missa e de um novo regente para

 a sua orquestra íntima.

Estava sozinho, imaginava-se ausente de toda dor...

Mas não estava! O que via em suas mãos eram as lágrimas de todas as mães

e o terror de todos os pais. Era sua dor. Sua realidade. Sua vida...

 

Queria fugir e proclamar o que sentia,

Queria exórdio encontrar no escuro um  abrigo para o seu sexo,

E fugir da mentira uma vez mais...  Não podia,

Falava mais alto os olhos fiéis que o acompanhavam em pensamentos

e clamavam em silêncio pelo silêncio interior. Eram víboras. Eram homens.

 

E no fim da missa seus braços fortes levantariam crianças desejadas em segredo

e apalpariam o sexo de todos companheiros.

A ilusão cegaria a todos,

Talvez soubessem da mentira,

Mas a manteriam mais uma vez...

Com o silêncio de todos os santos

E o clamor de todos os anjos!


Thursday, January 03, 2008

Simples demais


Tudo começa pelo olhar. Ela usa um tênis velho, uma camiseta surrada e uma saia feita de barra de calça de veludo da tia. Não sei exatamente que tipo de veludo ou de gosto ela tem, mas interpreto no olhar que é apenas um contato. Ela diz sobre a combinação de chocolate e canela que irá desfrutar no intervalo e eu digo que prefiro morango com sorvete ou iogurte natural. E tudo é muito natural: o olhar, o tênis e o jeito como eu olho quando ela não está olhando. Acredito que existe algo além do contato.

 

Também lhe contei sobre meu besouro de estimação. Ela riu sem graça e disse ter um gato, pois isso é mais comum. Eu a acho comum. Incrivelmente comum e adorável. Às vezes me pergunto o que fui fazer na USP senão encontrá-la. Ela não sabe. O que sabe é que há muitos ao seu redor e qualquer um pode ser escolhido, qualquer outro, qualquer que seja simplesmente comum...

 

Ela cantarola algo e brinca com os cachinhos do cabelo enquanto espera seu chocolate com canela. Vejo aquele garoto de sardas que se aproxima e faz a corte. Ela pára, repousa a xícara e lhe dá um afago no rosto. Ele sai triunfante, vermelho e submisso para se perder em meio à confusão do intervalo. Ela sorri, suave, e limpa os lábios com o guardanapo antes de sair de braços com um outro de óculos, espinhas pelo rosto e cabelo penteado com gel.

 

Quando falamos de música o seu comum tornou-se distante de mim. Ela conhece compositores e discute melodias enquanto eu me perco entre a MPB de Maurício Ranieri. Seu sorriso agora foi forte e me cortou por dentro. Senti-se estranho: pelo meu besouro, meu gosto de sorvete e minha música simples demais. Nunca lhe seria suficiente.

 

É hora de voltar. Entramos. Sentamo-nos próximos e continuamos a estudar: ela em seu mundo comum, rodeada de súditos e eu, o mortal, preso ao que penso e sem entender aquele primeiro olhar...

 

[E.]