Delivery

Sabia que em alguns minutos seria o fim. Aquele incômodo seria finito e se sentiria leve e em maior paz. Fechou os olhos e as lágrimas caíram livremente. Um pequeno soluço e a certeza de que tudo estaria bem. Resignado deixou-se conduzir. Nu sobre a mesa fria o pulsar tomava fôlego e outras mãos seguravam as suas. Outras mãos tiravam-lhe o sono, as veias, o soro e algo para que não sentisse tanta dor. Estava sóbrio. Sóbrio e lúcido como antes. Sóbrio e cheio de uma esperança viva de que em alguns minutos seria o fim.

Talvez não mentisse mais. Não diria a si mesmo que nunca aconteceu. Não diria de problemas desnudos, criados em sua imaginação quando negava sua intenção. Quando dizia que era farsa a realidade que sempre teve, o sentimento que sempre teve e a vontade que sempre negou. Lembrou-se da primeira vez. Lembrou-se de quando se concebeu. Do coito e sua entrega plena àquele que o tirou das trevas do medo. Das trevas da dúvida do que era e sempre foi.

Suas comparações esdrúxulas chegariam ao fim: nove meses. Nove meses em que acomodou em seu interior aquele fruto da entrega. O fruto da sua auto-descoberta sob as estrelas no rio. Sob a lua minguante, o som das águas e o cigarro apagado em um vinho qualquer. E ainda lembrava-se dele, daquele. Daquele que o conhecendo o fez homem. O fez livre para vivenciar sua natureza sem que fugisse do que tinha. Sem que se afastasse das libélulas que incendiavam suas camas e saciavam seus hormônios. Ele e aquele que juntos faziam par às tantas outras que habitavam o vazio. O vazio onde ficam todas que não compreendem a natureza deles. Deles que quando juntos se tornavam apenas um.

E o fruto deles pairava ali, sob a luz e os cateteres. Agulhas e ansiedades para o milagre do nascimento. Da descoberta. Do reencontro. Ele viria ao seu encontro. Seguraria sua mão o tempo todo. Soltaria um riso tímido, um riso pleno, um riso vivo. Ambos partilhavam do segredo. Partilhavam da descoberta. Do reencontro. Do milagre. Sabiam dos problemas desnudos e da farsa superada. Das mentiras de negativas de nunca mais. Das idas e vindas de nunca mais. Da vontade de verdade de nunca mais. E ansioso ele esperava. Segurava a respiração sob o bip das máquinas. Das agulhas. Das máscaras de tantos que ali estavam.

Ele chegava. Eis que algo vem e suas mãos se seguram fortes. Tão fortes como quando se conheceram. Como quando se afastaram e voltaram. Como quando se aproximaram para que ambos resistissem. Ao pecado. Ao desejo. Ao proibido do prazer. Mas é algo que vem e sentem o alívio advento do incomodo. Aos poucos a forma se vai e novamente se olham. Se beijam e saúdam o choro que se espalha por todo o lado. Ele está ali.

Emocionados se abraçam com os olhos em silêncio. Em reverência se abaixam ao que nasce e percebem a vida que criaram. Ele e aquele. Juntos. Em um e com um.



E.
Nov., 23 – 1:56 AM

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