Fluir

Ela fechou os olhos lentamente e deixou-se sangrar. Cerrou-se internamente para que o sangue fluísse de si. Cada gota a se esvaír de seu interior como uma lembrança que ia e vinha. Como uma vida que suspirava e transpirava em si. Ela suavemente se permitia, se conduzia enquanto o sangue vertia de si.

Sentia o cheiro de Anne. O doce sabor da juventude de Anne ainda corria em suas veias. Anne, que em delírios tomava seu amor para que se sentisse viva e feliz. Era Anne que saía de suas entranhas enquanto sonhava ali, perdida em um passado que não sabia esquecer.

Anne e Su. Su e Anne. Como se tolerou enganar-se tanto tempo. Como pudera amar tão profundamente aquela que profanava sua mãe. Su. Lágrimas correram livre por seu rosto. Lágrimas que cortavam e dividiam sua angústia. Onde estava? Onde se poderia perder senão em si mesma? Fugitiva. Distante por não aceitar quem era. E era como Anne. Jovem como Anne. Tão livre e jovem que ali sentia a vida pela primeira vez.

Olhou novamente seu ventre. Suas coxas vermelhas pela rabeca: sorriu. Entre lágrimas se viu no incêndio. A veneziana quebrada por onde sua mãe se retirou. Ele, o padrasto, a ameaçá-la entre gritos. Ele, que não compreendia o amor de Anne e Su. Que não se entregaria a perda. A perda de Su, a mãe, para Anne, a amante.

De repente notou-se nua. Olhou o chão e viu sua imagem refletida no fluxo quente de si. Riu. Era mulher. Tornava-se mulher aos doze anos. Juntou seus cabelos em um pequeno gesto. Apanhou de papel e limpou-se devagar. Era preciso continuar. Era preciso sair e celebrar a juventude. A juventude que Su tomava de Anne. A juventude que ela mesma possuía de Anne. A juventude dos doze anos e de seu primeiro catamênio.

Eram felizes juntas. Cozinhavam tacos e iam a saraus. Diziam sobre a vida aos 30, mas Su não tinha 30. Anne era 20 e ela doze. Sim, apenas doze. Doze sozinha no vestiário feminino. Aos doze, com a lembrança de Anne e Su juntas, rindo ao vento na praia. No churrasco de natal e nos brinquedos do parque.

Refez-se e parou para lavar as mãos. Refez-se em uma nova maquiagem, clara, bela para uma jovem de 20. Desejou ter 20 anos. Desejou ser Su, a mãe. Desejou ser Anne, a amante. Mas era apenas ela. Repetiu que era apenas si mesma. Que era jovem e lúdica. Que tinha desejos infantis. Que tinha cheiro infantil. Repetiu uma vez mais e quis acreditar nisso. Repetiu, saiu célere e perdeu-se entre as pessoas no shopping.

Comentários

Samambaia disse…
Elthon, obrigado pelo comentário na comunidade e no próprio blog.
Lendo seus textos vejo que você tem propriedade para avaliar um texto, sinto-me lisongeado por suas palavras e gostaria de dizer que concordo com o quê diz. O "som" clichê vem por ser realmente algo cospido, desabafado por um sentimento.

Com relação aos seus textos... há apenas uma coisa que posso dizer: te admiro.

Grande abraço.
Está entre a lista de blogs que hei-de ler semanalmente, ou assim que tiver novos posts.
Anônimo disse…
Antigamente, eu lia apenas por e-mails, mas vejo que a tenacidade e sagacidade continuam muito presentes.
Parabéns! É um texto que só se compreende ao final, e tudo que não possui conexão alguma fica mais próximo do real. Muito boa a composição. Mais uma vez, parabéns!

Postagens mais visitadas deste blog

Um dia, Marina

Feliz Aniversário

A aliança