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Mostrando postagens de janeiro, 2008

O nada

  Há um silêncio negro que me corta o corpo de maneira que eu perceba o quanto estou só. Não uma solidão apenas física, ilustrada por meu quarto vazio e sem camas, mas uma dor intensa, moral, que me retira qualquer alegria que possa existir. Uma solidão sem vontade, onde o desejo se esvai e a única atração que tenho é de calar-me nesse escuro e permanecer inerte como se fosse partir da vida.   Já não me recordo do riso que possa ter tido, assim como também não sei de efêmeros sonhos que tenham se passado. Nada me seduz e o que faço é comer, num prazer oral desmedido, para que assim o tempo se vá rapidamente. E assim aumentei dez quilos como resposta de meu corpo.   Estou saturado de filosofia e toda administração científica me causa pesadelos diuturnos. O tédio se instaura, como órfão permanente, e não sei mais o que posso fazer para me livrar das companhias que se aproximam sem me tirar o sentimento de solidão. Há uma necessidade desse silêncio negro, ainda que ...

Missa

Os olhos estavam carregados de morte, sabia que cedo ou tarde se perderia no lodo e barro... Sentia a vida abaixo da batina, a castidade o castigava como feitor ao escravo, Sua sede de sangue só seria saciada se afiasse as garras e desnudasse todos os santos...   O corpo em luto se confrontava com o inimigo, Seres vis e grotescos habitavam seus pensamentos bajulando-o de tal maneira que Proteus, o deus das trevas, o abraçava em segredo! Sua lascívia o arrebatava em devaneio e, no meio a missa, ofereceu o sêmen como hóstia e seu desejo como vinho.   Seus olhos não viam as crianças gritando de fome e tampouco as mães que se prostituíam. Em sua face a piedade tornara-se   tirania e   vingança contra todas as falanges angelicais. O altar estava plúmbeo como suas meninas sedentas que procuravam presas pelo recinto, Talvez delirasse, talvez se ocultasse de si próprio... mas vivia, ainda!   Precisaria de um novo corpo após a missa e de um novo reg...

Simples demais

Tudo começa pelo olhar. Ela usa um tênis velho, uma camiseta surrada e uma saia feita de barra de calça de veludo da tia. Não sei exatamente que tipo de veludo ou de gosto ela tem, mas interpreto no olhar que é apenas um contato. Ela diz sobre a combinação de chocolate e canela que irá desfrutar no intervalo e eu digo que prefiro morango com sorvete ou iogurte natural. E tudo é muito natural: o olhar, o tênis e o jeito como eu olho quando ela não está olhando. Acredito que existe algo além do contato.   Também lhe contei sobre meu besouro de estimação. Ela riu sem graça e disse ter um gato, pois isso é mais comum. Eu a acho comum. Incrivelmente comum e adorável. Às vezes me pergunto o que fui fazer na USP senão encontrá-la. Ela não sabe. O que sabe é que há muitos ao seu redor e qualquer um pode ser escolhido, qualquer outro, qualquer que seja simplesmente comum...   Ela cantarola algo e brinca com os cachinhos do cabelo enquanto espera seu chocolate com c...