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Mostrando postagens de julho, 2011

Feliz o que mesmo?

Tenho uma sensação estranha, Wilson. Como se a saída do ano e o início de uma nova fase não fosse o suficiente. E já faz tempo que o ano começara. Como se eu precisasse tomar ar puro e mesmo por aqui, na USP, o ar se pesasse com promessas alheias que me enchem de tédio e insatisfação: desisti de confiar nessas promessas e de olhar aos outros com condescendência.   É uma sensação estranha.   Fico a procurar um rosto para reconhecer o motivo dessa sensação e me perco em um exercício inócuo: o que faria se não estivesse nessa procura? E quem seria se soubesse o que procuro? E como reagiria se encontrasse o que procuro?   Volto a ter a mesma sensação estranha e o ar continua pesado pelas falas absurdas do campus. Aos poucos ele se contamina de fadinhas coloridas que com asas cintilantes me convidam a um passeio fantástico onde borboletas e abóboras conversam como gente grande. Aos poucos vejo os fantasmas de meus mártires e essa loucura me invade completamente. Sim, tornei-me um már...

Comum

Saiu atordoado. Desceu pela gamelinha em direção a estação da Lapa, sem pensar. Triste, talvez. Tinha apenas a imagem de Janaína em sua mente. Tinha a sensação de sua ausência. Entrou na estação. Alcançou a plataforma. Parou e aguardou a chegada do trem. Entrou e sentou-se em um canto qualquer, sozinho. Calou-se. Sentiu-se estranho pelas pessoas a sua volta. Sentiu-se mal pelo cheiro arrependido das palavras com que machucara Janaína. Sentiu-se dorido por não ter sido mais simples, meigo, presente. Sentiu-se comum em meio às pessoas do vagão. Alguém se aproximou, sentou-se ao seu lado e perguntou seu nome: era um homem qualquer carente que precisava se abrir. O homem tinha cheiro de tabaco barato, daqueles comprados nas estações do Brás. Sua roupa exalava cachaça do centro da cidade, era rota e azul. Ele se permitiu ouvir o homem. Não se moveu sequer para olhar em sua direção. O homem falava algo sobre o acidente de construção que matara três de seus amigos. Ele nada dizia. O homem ent...

Onibus

Os nomes são iguais em sua mente doente, apesar dos rostos diferentes que giram simultaneamente a sua frente. O ônibus para. Acelera. Continua. Os pontos são vários, são várias as paradas e as idéias que passam. Traz pequenos tragos na memória, chora o desatino de vida fugaz e vazia. Está sóbrio e sozinho.               O sol bate forte pela janela, queima sua pele branca e ofusca seus olhos claros. Preferia a noite. Na noite as pessoas não descobrem os seus enganos. A velha gorda pedia, com os olhos, um canto ao seu lado. Fingiu que dormitara, a velha negra estava suja e fedia a peixe. O garoto a sua frente pigarreou um resto de vida pela janela e, então, o fitou fechando a cara.               Talvez a manhã estivesse começando, na tarde que viria se esqueceria das palavras amargas da noite anterior. Ainda tinha nos lábios o impacto do beijo roubado e no corpo a sensação do perfume neutro... Onde estava indo? Onde estaria?   O ônibus continuou o seu trajeto, seu pensamen...