Onibus
Os nomes são iguais em sua mente doente, apesar dos rostos diferentes que giram simultaneamente a sua frente. O ônibus para. Acelera. Continua. Os pontos são vários, são várias as paradas e as idéias que passam. Traz pequenos tragos na memória, chora o desatino de vida fugaz e vazia. Está sóbrio e sozinho.
O sol bate forte pela janela, queima sua pele branca e ofusca seus olhos claros. Preferia a noite. Na noite as pessoas não descobrem os seus enganos. A velha gorda pedia, com os olhos, um canto ao seu lado. Fingiu que dormitara, a velha negra estava suja e fedia a peixe. O garoto a sua frente pigarreou um resto de vida pela janela e, então, o fitou fechando a cara.
Talvez a manhã estivesse começando, na tarde que viria se esqueceria das palavras amargas da noite anterior. Ainda tinha nos lábios o impacto do beijo roubado e no corpo a sensação do perfume neutro... Onde estava indo? Onde estaria?
O ônibus continuou o seu trajeto, seu pensamento encheu-se de pensamentos incertos e sem nexo. Via o verde de matos e as pragas que invadiam as calçadas. Avistou o cigarro do homem em um portão e ouviu, de súbito e por um instante, o rádio com um sertanejo ao longe. "A mesma música de ontem" - pensou consigo.
O ônibus chegou ao seu final. Ele desceu. Avistou a casa branca, logo a frente. Chamou por alguém. Chegou. Descarregou nele o seu revólver. E sumiu.
Horácio
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