Comum
Saiu atordoado. Desceu pela gamelinha em direção a estação da Lapa, sem pensar. Triste, talvez. Tinha apenas a imagem de Janaína em sua mente. Tinha a sensação de sua ausência. Entrou na estação. Alcançou a plataforma. Parou e aguardou a chegada do trem.
Entrou e sentou-se em um canto qualquer, sozinho. Calou-se. Sentiu-se estranho pelas pessoas a sua volta. Sentiu-se mal pelo cheiro arrependido das palavras com que machucara Janaína. Sentiu-se dorido por não ter sido mais simples, meigo, presente. Sentiu-se comum em meio às pessoas do vagão.
Alguém se aproximou, sentou-se ao seu lado e perguntou seu nome: era um homem qualquer carente que precisava se abrir. O homem tinha cheiro de tabaco barato, daqueles comprados nas estações do Brás. Sua roupa exalava cachaça do centro da cidade, era rota e azul.
Ele se permitiu ouvir o homem. Não se moveu sequer para olhar em sua direção. O homem falava algo sobre o acidente de construção que matara três de seus amigos. Ele nada dizia. O homem então falou do Datena e do banho que tomaria ao chegar em sua casa. Ele nada dizia. O homem desceu com um pequeno sorriso, sentindo-se leve por ter falado. O homem lhe disse até logo. Ele nada disse.
Continuava de olhos fechados. A figura terna de Janaína ainda pairava em seus pensamentos. Talvez nunca, nem mesmo os anos, o fariam esquecê-la. Sabia que nunca a esqueceria. Lembrou-se daquele echarpe rosa que ela usava na primeira vez que se viram, do sorriso tímido com que ela brindava o final das frases, do jeito quase doce com que o agredia para parecer comum. Ele amava Janaína e talvez nunca a tivesse provado isso. E talvez nunca o fizesse, pois não era comum.
Depois de algum tempo resolveu abrir os olhos. Ainda estava arrependido pelas palavras que disse. Ainda confuso e contaminado pelo cheiro das pessoas que não existiam ao seu redor. Sentiu-se sozinho e triste. Sentiu-se alegre e capaz. Sentiu-se forte e fraco ao mesmo tempo. Sentiu-se com amor por Janaína.
Tanto faz, pensou consigo mesmo. Talvez comesse apenas tomates ao chegar em casa. Talvez tomates com ovos. Comeria e depois arrotaria como um simples mortal. Comeria ao lado de todos seus fantasmas e até riria de suas piadas. Iria ao banheiro depois, escovaria os dentes, sendo simples, sendo comum.
Ligaria a Janaína e diria algo simples. Diria que ele era simples. Diria que os simples, finalmente, são alegres. Depois deitaria e dormiria. Sim, como fazem os simples.
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