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Mostrando postagens de fevereiro, 2006

Café com creme e croissant de manteiga

Não tenho certeza de quando comecei a amá-la. Mesmo antes de conhecê-la já a tinha em um amor único dentro de mim. Era como se eu mesmo não existisse antes de descobrir que a amava, como se não me pudesse considerar um ser. E tudo há de se ter uma definição clara, uma idéia de existência, de ser. Amar Hélène era minha idéia de ser, um fim em si, não um meio. Eu tinha uma certeza em si, uma certeza de que havia um motivo para sobreviver e viver. Eu a vi uma única vez: usava de um vestido curto de verão que acompanhava o balançar de seus cabelos ao sabor do vento. Azul. Eu me sentava de costas em direção ao Sena e ela a poucos metros de meu campo de visão. Senti-me atraído pelos seus olhos vítreos, verdes e penetrantes como esmeraldas. Ao atendente ela pediu um café com creme e croissant de manteiga. Sua voz doce com um sotaque peculiar recordou-me dos carnavais em Marseille e da beleza das ruas. Não sabia seu nome, mas, imediatamente, como em um retorno à Troie, a imaginei Hélène. O sol...

Almoço

Encontraram-se em um café. Mal se reconheceram, pois há tempos não se viam. Não sabiam ao certo o porquê do encontro, apenas lá estavam. Sem máscaras. Sem desculpas pelo tempo ou horário. Não quiseram uma mesa, sairiam para um almoço. Era tempo de almoço. Acharam um local afastado onde não seriam reconhecidos. Temiam serem reconhecidos. E é assim que deveria ser: no anonimato do dia, entre a multidão sem rosto que caminhava no mesmo espaço físico. Não pronunciariam seus nomes. Encontraram a cantina. Pararam. Entraram e pediram por uma mesa afastada, tranqüila e longe de suspeitas. Não deveriam ter consciência de quem eram. Tudo que envolvesse consciência ou razão daria fim ao encanto. Ao encontro. Pediram por massas, carne vermelha e sucos tropicais. Ainda tinham a mesma afinidade. Discutiram sobre amenidades, novelas, filmes e filhos. Falavam de forma comum e transigente. Como indigentes, como adúlteros! Aos poucos as pessoas se aproximavam para compartilharem seus almoços. Aos pouc...

Vaga Lume - Parte I

Lucius estava a vagar pela noite e observava a compenetração entre o sagrado e o profano: pessoas que se drogavam em frenesi e prostitutas se ofereciam por dez reais. Sentiu-se amargo quando ouviu, ao longe, tiros e arruaças. Os prédios ostentavam a estupidez da sociedade falocêntrica, justapostos, formando uma selva impregnada pelas vibrações de tristeza e dor. Sabia que estava sozinho na busca pelo nada... Ajustou-se mais dentro da jaqueta. Ao levantar a gola para proteger o pescoço, sentiu o frio bater em seu rosto congelando-o até as entranhas. O odor fétido das poças de lama o engasgava em seu desespero, sua imaginação formava grandes monstros que o perseguiam e bradavam ferozmente em seu íntimo. Sentiu desejo de beber algo qualquer que vomitaria no dia seguinte. Sentiu asco de si mesmo ao perceber o quanto ainda estaria alheio às suas próprias angústias, à sua fome de dias ou meses sem a mínima expectativa de sanativo. Continuou a caminhar na busca de um destino. Lucius caminhav...