Almoço
Encontraram-se em um café. Mal se reconheceram, pois há tempos não se viam. Não sabiam ao certo o porquê do encontro, apenas lá estavam. Sem máscaras. Sem desculpas pelo tempo ou horário. Não quiseram uma mesa, sairiam para um almoço. Era tempo de almoço. Acharam um local afastado onde não seriam reconhecidos. Temiam serem reconhecidos. E é assim que deveria ser: no anonimato do dia, entre a multidão sem rosto que caminhava no mesmo espaço físico.
Não pronunciariam seus nomes. Encontraram a cantina. Pararam. Entraram e pediram por uma mesa afastada, tranqüila e longe de suspeitas. Não deveriam ter consciência de quem eram. Tudo que envolvesse consciência ou razão daria fim ao encanto. Ao encontro. Pediram por massas, carne vermelha e sucos tropicais. Ainda tinham a mesma afinidade. Discutiram sobre amenidades, novelas, filmes e filhos. Falavam de forma comum e transigente. Como indigentes, como adúlteros!
Aos poucos as pessoas se aproximavam para compartilharem seus almoços. Aos poucos a casa se tornou cheia, com filas e pratos que se transbordavam de comida. Nem todos eram educados o suficiente para manejar os talheres sem aquele barulho ou para ao menos evitar que os pratos se parecessem com troféus de final de dia. Evitavam os olhares. Sentiam-se culpados. Todo aquele presente os remetia ao passado, onde palavras e sentimentos recolhiam-se sem precedentes. Não haveria precedentes pois tudo acontecia naquele momento. Retornavam ao que tinham. Ao que eram e representavam. Às máculas. Às mágoas. Às intermináveis discussões e promessas de mudança. E os pratos barulhentos. As mastigadas de boca aberta. As garfadas que transbordavam...
Já não tinham a mesma serenidade. Perdiam as máscaras a medida em que se saciavam. Seus olhos retomavam o rancor. Não, não eram perfeitos. Não tinham de ser perfeitos. Os humanos, quando juntos, descobrem que não são perfeitos! O encontro era um erro. Deveriam ter feito a despedida no café. Os cabelos dela estavam mais curtos e seus olhos menos tristes. As mãos dele estavam geladas. Deveriam partir... mas as massas, a multidão, os talheres...
Levantaram-se e ganharam a rua. Não tinham a mesma intimidade, aliás, perceberam que nunca houve intimidade. Não se conheciam, mas se descobriam e agora, finalmente, se reconheciam. Eram anônimos sem saber. Moravam na mesma casa. Tinham o mesmo casamento. Eram a chacota dos vizinhos: adúlteros de si mesmos. Fingiam sob o mesmo teto e encontravam-se tomados pelos instintos mais ínfimos e plenos. Como se fossem estranhos. Estranhos na culpa, nos odores das ruas. Caminhavam mudos emudecidos por um desejo confuso. Não olhavam os carros ou fumaça dos carros. Nem os mendigos que suplicavam por míseras moedas ou as crianças que cheiravam cola. Pararam sobre o viaduto e se olharam uma vez mais. Seria o fim. Precisavam voltar. Ainda que fosse para a mesma casa sem que soubessem.
O encontro não deveria ter ocorrido. As emoções que foram despertadas. Um para cada lado. Pararam. Viraram e se olharam. Separados apenas alguns metros. Apenas alguns anos. Apenas algumas mentiras e desculpas esfarrapadas. Lembravam-se dos filhos dos outros e de seus próprios filhos. Caminharam mais alguns passos e novamente olharam para trás. O almoço... o mendigo... a cola... Deveriam voltar: aos seus lares e às suas vidas. Aos seus filhos. Às suas novelas e vizinhos. Hesitam e retornam: ficam juntos um ao outro e bem próximos não iriam mais dizer uma palavra sequer. Juntos. Deram-se as mãos e foram passo a passo... o hotel estava próximo e não precisariam de palavras. A praça a luz do dia. A multidão sem rosto na ponte... se conheceriam, enfim. Ou mesmo se amariam, enfim!
Não pronunciariam seus nomes. Encontraram a cantina. Pararam. Entraram e pediram por uma mesa afastada, tranqüila e longe de suspeitas. Não deveriam ter consciência de quem eram. Tudo que envolvesse consciência ou razão daria fim ao encanto. Ao encontro. Pediram por massas, carne vermelha e sucos tropicais. Ainda tinham a mesma afinidade. Discutiram sobre amenidades, novelas, filmes e filhos. Falavam de forma comum e transigente. Como indigentes, como adúlteros!
Aos poucos as pessoas se aproximavam para compartilharem seus almoços. Aos poucos a casa se tornou cheia, com filas e pratos que se transbordavam de comida. Nem todos eram educados o suficiente para manejar os talheres sem aquele barulho ou para ao menos evitar que os pratos se parecessem com troféus de final de dia. Evitavam os olhares. Sentiam-se culpados. Todo aquele presente os remetia ao passado, onde palavras e sentimentos recolhiam-se sem precedentes. Não haveria precedentes pois tudo acontecia naquele momento. Retornavam ao que tinham. Ao que eram e representavam. Às máculas. Às mágoas. Às intermináveis discussões e promessas de mudança. E os pratos barulhentos. As mastigadas de boca aberta. As garfadas que transbordavam...
Já não tinham a mesma serenidade. Perdiam as máscaras a medida em que se saciavam. Seus olhos retomavam o rancor. Não, não eram perfeitos. Não tinham de ser perfeitos. Os humanos, quando juntos, descobrem que não são perfeitos! O encontro era um erro. Deveriam ter feito a despedida no café. Os cabelos dela estavam mais curtos e seus olhos menos tristes. As mãos dele estavam geladas. Deveriam partir... mas as massas, a multidão, os talheres...
Levantaram-se e ganharam a rua. Não tinham a mesma intimidade, aliás, perceberam que nunca houve intimidade. Não se conheciam, mas se descobriam e agora, finalmente, se reconheciam. Eram anônimos sem saber. Moravam na mesma casa. Tinham o mesmo casamento. Eram a chacota dos vizinhos: adúlteros de si mesmos. Fingiam sob o mesmo teto e encontravam-se tomados pelos instintos mais ínfimos e plenos. Como se fossem estranhos. Estranhos na culpa, nos odores das ruas. Caminhavam mudos emudecidos por um desejo confuso. Não olhavam os carros ou fumaça dos carros. Nem os mendigos que suplicavam por míseras moedas ou as crianças que cheiravam cola. Pararam sobre o viaduto e se olharam uma vez mais. Seria o fim. Precisavam voltar. Ainda que fosse para a mesma casa sem que soubessem.
O encontro não deveria ter ocorrido. As emoções que foram despertadas. Um para cada lado. Pararam. Viraram e se olharam. Separados apenas alguns metros. Apenas alguns anos. Apenas algumas mentiras e desculpas esfarrapadas. Lembravam-se dos filhos dos outros e de seus próprios filhos. Caminharam mais alguns passos e novamente olharam para trás. O almoço... o mendigo... a cola... Deveriam voltar: aos seus lares e às suas vidas. Aos seus filhos. Às suas novelas e vizinhos. Hesitam e retornam: ficam juntos um ao outro e bem próximos não iriam mais dizer uma palavra sequer. Juntos. Deram-se as mãos e foram passo a passo... o hotel estava próximo e não precisariam de palavras. A praça a luz do dia. A multidão sem rosto na ponte... se conheceriam, enfim. Ou mesmo se amariam, enfim!
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